sábado, 20 de dezembro de 2014

A dieta do verão e o aquecimento global


          Estamos a pouco dias do verão no Rio de Janeiro. Aproxima-se a estação da alegria, criançada em férias, muito sol, suor e cerveja estupidamente gelada, gente sarada com roupas exíguas, pele bronzeada, tatuagens fresquinhas, exibindo aquela saúde toda na praia, com o único e edificante propósito de entabular uma parceria para o fim da noite. Vez por outra, fazer o que, tropeça-se no rotundo tio Pelópidas, para nos lembrar que “corpo definido” tem definições mais amplas que se pode imaginar.
          Encontro a gentil leitora no meio termo que separa Pelópidas e sua esposa, igualmente robusta, do galã da novela e, ai ai, daquela formosura que trafega num biquini feito de, ao todo, doze centímetros de um único fio de fibra sintética. Eis que nossa fã incondicional se encontra em pânico. Pois não é que o verão bate à porta e ela ainda está três quilos acima do peso cientificamente indicado para si, de acordo com o último exemplar da revista Marie Claire? Ah, o horror! Para piorar as coisas, o recesso de Natal e Ano Novo, que poderia ser passado na academia de malhação, coincide - vejam que coincidência - com o Natal e o Ano Novo...
          Nestas datas festivas, cônscios de suas tradições eclesiásticas ou culturais, a galera se dedica apropriadamente a entupir o bucho de aves e presuntos, farofas, guloseimas, tudo isso regado a bebidas altamente calóricas. Agora danou-se. As amigas da nossa leitora vão se fartar de, na sua ausência, demonstrar o quanto a amam, às gargalhadas, saboreando as mais cruéis piadas sobre pneuzinhos e outros acessórios automobilísticos que costumam decorar as vizinhanças dos escassos biquinis. Urge uma dieta radical, acompanhada de abundantes orações a Santa Rosa de Lima, pedindo-lhe inspiração para, se possível, jejuar até meados de janeiro. E é neste exato momento que o leitor rabugento, tomado por um misto de desprezo pelas preocupações mundanas e curiosidade científica, pergunta: - E, se essa maluquice der certo, para onde vai a gordura perdida quando a leitora emagrece?
          Arrá! A frase que agora se lhe descortina aos olhos é o intervalo de poucos segundos que o cronista lhe oferece para que pense na resposta. Enquanto isso, informo que o respeitável periódico científico British Medical Journal publicou há poucos dias um interessante artigo dos australianos Ruben Meerman e Andrew Brown, com o título da pergunta que aquele chato fez ainda agorinha.
          Para começar, os pesquisadores fizeram uma enquete, perguntando isso a um grupo de médicos, nutricionistas e preparadores físicos – que nossa sofisticada platéía costuma chamar de personal trainers -. Dentre as várias opções, que incluiam as fezes, suor, urina, músculo e outras, a mais popular entre todos estes profissionais foi que a gordura perdida se transformava em energia ou calor.
          Os autores do trabalho apontaram para a improbabilidade desta resposta, que viola a chamada lei da conservação das massas, a qual é essencialmente respeitada no nível de reações químicas como as que acontecem no emagrecimento, baseadas na metabolização de triglicerídeos, uma classe de gorduras armazenadas nos chamados adipócitos. Então, apesar da teoria da relatividade oferecer o conceito de  transformação de massa em energia, o simples desaparecimento da gordura e aparecimento de calor não é convincente.
          Os cientistas estudaram as reações químicas e calcularam as quantidades dos derivados formados no emagrecimento. Chegaram a duas conclusões: primeiro, que a gordura perdida acaba, por força da oxidação dos triglicerídeos, se transformando em dióxido de carbono – o conhecido CO2 - e água, nas quantidades previstas pela lei da conservação das massas; e segundo, que esse CO2 que vem da gordura “queimada” é expelido pelos pulmões, na respiração, enquanto a água sai pelos caminhos habituais como o suor ou a urina. Ou seja, a gordura que a escultural leitora perdeu ontem, depois de duas horas na esteira e um monte de pulinhos, virou mero CO2.
          O rabugento se contorce de raiva, achando que o cronista, num arroubo de sandice, vai enveredar pela teoria de que quando alguém se exercita na Mata Atlântica não está se beneficiando do ar puro, e sim contribuindo com seu CO2 para a fotossíntese e, por isso, para a saúde das plantas. Longe de nós semelhante isso. E também não cairemos no pagode do cientista doido ao afirmar que mais do que o desmatamento, o escapamento dos automóveis, a poluição industrial ou a flatulência do gado, quem realmente está provocando o aquecimento global é o CO2 produzido pelos seres humanos que se esfalfam diariamente nas academias de ginástica. Também isso não faremos.
          Mas, não fossem a obrigações que nos afligem, seria divertido tomar os resultados quantitativos do trabalho dos australianos e testar a hipótese de que o calor insano que, estejam certos, vai fazer nos próximos meses na Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro recebe uma contribuição significativa do efeito estufa criado por uma infinidade de cariocas aflitos por, todos ao mesmo tempo, entrarem nas sungas e biquinis com as quais pretendem desfilar nas extensas e tristemente poluídas praias desta comarca, exibindo suas formas apolíneas recentemente ajustadas por horas a fio malhando desesperadamente. Quem sabe, né?

Rafael Linden


sábado, 13 de dezembro de 2014

O esqueleto no armário da coroa

          Não é nada disso, madame. Este blogue não publica histórias de terror. É apenas um chamariz adequado para a crônica de hoje, que trata de uma novidade meio desagradável para uma certa realeza. E a coroa do título, com todo o respeito, não é a gentil leitora, nem a vovó, nem a dona Mariquinhas do sexto andar. A coroa, no caso, é a britânica. E o tal esqueleto é, nada mais nada menos, do que a estarrecedora revelação de um adultério.
          Como disse, senhora? Hoje em dia revelação de adultério dificilmente é estarrecedora? Pois, pasme, trata-se de um chifre de setecentos anos. Mas só agora a Ciência traz a público a prova material de que um membro da linhagem da monarquia britânica era um bastardo, não apenas metafórico, mas genético mesmo.
          Há algum tempo foi descoberto um esqueleto enterrado debaixo de um estacionamento na cidade inglesa de Leicester, e identificado como pertencente ao rei Ricardo III. Este monarca reinou por apenas dois anos, de 1483 a 1485, durante os quais construiu uma fama diabólica, e foi morto em batalha por seu inimigo Henry Tudor, o qual com isso abiscoitou o trono. Quando da descoberta arqueológica, foi noticiado que os cientistas tinham confirmado a identidade de Ricardo III pelo exame do DNA extraído das mitocôndrias dos restos mortais, comparado ao DNA das mitocôdrias de uma descendente de Anne de York, irmã do rei Ricardo.
          Então, há poucos dias a revista Nature Communications publicou um artigo assinado por cientistas de vários países além dos pesquisadores da Universidade de Leicester, contendo a descrição do estudo feito com todo o DNA recuperado do esqueleto, a análise genética e os cálculos dos cientistas de que a chance daquele esqueleto não ser de Ricardo III é menor do que seis em um milhão. Ou seja, é praticamente impossível que a identificação seja falsa. Vosso amado cronista não é versado em Genética, mas tem um punhado de amigos gaúchos com os quais vem aos poucos aprendendo alguma coisa e adorou a leitura, principalmente pela forma como a pesquisa foi relacionada à genealogia da família real da Inglaterra.
          Na verdade, a história daquela ilha velha não é das mais edificantes, recheada de  fratricídios e outras tragédias movidas pela ânsia de poder típica da aristocracia. Mas ninguém que passe algum tempo por lá consegue ficar indiferente às curiosidades daquele povo excêntrico. E, ora vejam, nesse mesmo artigo a Genética, além de bater um recorde ao confirmar a identidade de uma pessoa que se encontrava desaparecida há 527 anos – nem os roteiristas de C.S.I. tinham até agora inventado uma história assim - , ainda nos brindou com a revelação de um adultério.
          Não, senhora, não é gozação. Aqui no telhado de fato mentimos um pouquinho, afinal esse blogue foi criado para escrever ficção. Mas hoje trata-se de pura verdade. A respeitável publicação científica resvalou para o estilo mundano da revista Caras e anunciou para o mundo que houve um bastardo na linhagem real descendente do monarca Eduardo III, que reinou no século XIV e é o trisavô de Ricardo III.
          Os cientistas se valeram de certas regras da Genética. Da mesma forma que a linhagem materna pode ser confirmada pelo exame do DNA das mitocôndrias, que são herdadas sempre da mãe, a linhagem paterna pode ser confirmada pelo exame de uma porção invariante do cromossomo Y, a qual passa sempre de pai para filho homem. Pois não é que, ao comparar as características do DNA de Ricardo III com o DNA correspondente de descendentes da família real, os pesquisadores descobriram que um desses descendentes tem o cromossomo Y diferente dos demais? Pela análise genealógica, os cientistas concluiram que essa alteração é consequência de um evento de falsa paternidade, ocorrido em algum momento ao longo das dezenove gerações que sucederam o rei Eduardo III desde o século XIV.
          Nosso leitor rabugento, sempre alerta, dá de ombros e comenta com seus botões que isso também não é nenhuma novidade, porque a história britânica já registrava que dois outros filhos nascidos fora dos sagrados laços do matrimônio foram legitimados entre os séculos XIV e XVIII. Mas no caso da descoberta atual, o rabo da proverbial porca torce um pouco além do habitual. Pois o já sobejamente celebrado rei Eduardo III teve vários filhos, um dos quais, Edmundo, foi o bisavô de Ricardo III. Mas a fofoca da época era de que Eduardo III sequer estivera presente ao nascimento de outro rebento, chamado John, porque esse não seria seu filho e sim, quem diria, de um açougueiro belga…
          Ah, agora tenho a atenção de todos, né? Pois saibam que, se de fato John não era filho de Eduardo III, então seus descendentes, que constituiram a dinastia Tudor, não teriam direito ao trono britânico! Por mera sorte Elizabeth II, hoje rainha da Inglaterra, é descendente de outro dos filhos de Eduardo III e não do pobre John que, dizem, se enfurecia toda vez que alguém insinuava ser ele um bastardo.
          Isso tudo para mostrar para nossos fiéis leitores que a Genética não só é interessante e útil para a Biologia e a Medicina, mas também pode transformar uma revista com a marca da poderosa Nature em sucedânea de um dos maiores sucessos da imprensa brasileira, os “Mexericos da Candinha”, coluna de fofocas da década de 1950, escrita semanalmente para a Revista do Rádio pelo jornalista Borelli Filho, e que revelou inúmeros esqueletos dos armários das celebridades da época.

Rafael Linden



sábado, 6 de dezembro de 2014

Tom Jobim e a Era da Banalização

          Esta semana completa-se duas décadas da morte de Tom Jobim. O grande compositor criou melodias inesquecíveis, ao aliar sua formação clássica com uma inspiração permanente, inquieta, original, coroada com letras arrebatadoras de parceiros como Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Dolores Duran e outros. Na sua ausência, a música brasileira empobreceu, incapaz de substituir um gênio criativo como o mestre Tom.
          De seu legado impressionam a riqueza melódica, a originalidade e a delicadeza das harmonias. Sua ausência é tanto mais sentida quanto mais nos agride a indigência sonora que por aí anda. O leitor rabugento tem razão quando se tranca na companhia de bem preservadas bolachas pretas e CDs cuidadosamente escolhidos, componentes de sua coleção raramente renovada com lançamentos recentes.
          Estará vosso cronista não só cronologicamente, mas também, e pior, metaforicamente velho e intolerante? Esquece-se de que não se pode comparar a contemporaneidade com tempos idos, já depurados do lixo que sempre polui a cultura do presente? Ou haverá, de fato, alguma tendência macabra de banalização da música popular?
          Pois foi isso que um grupo de cientistas de Barcelona, liderados por Joan Serrà resolveu investigar, com ferramentas de processamento de dados e a neutralidade possível. Os pesquisadores usaram uma base de dados de acesso público chamada The million song dataset - “conjunto de dados de um milhão de canções” -, criada por Dan Ellis, da Columbia University. Ellis é um engenheiro e professor, que se dedica a desenvolver métodos de extração automática da informação contida em sons. Nesta base de dados, ele e seus colegas vem codificando informação sobre características do som organizado na forma das melodias de um número enorme de canções populares.
          O grupo catalão publicou na revista Scientific Reports sua análise de mais de quatrocentas mil canções compostas nos últimos cinquenta anos, pela qual concluiu que, embora muitas características musicais tenham permanecido estáveis ao longo de meio século, os dados demonstram matematicamente uma tendência progressiva de rarefação de transições de tons, homogeneização de timbres e aumento da proporção de trechos com volume alto, com o passar do tempo. Em resumo, a música popular ao longo dos últimos cinquenta anos se tornou progressivamente mais simplória e barulhenta. O rabugento já se levanta da poltrona, reclinado na qual ouvia placidamente uma sonata de Mozart interpretada por Claudio Arrau, e vocifera contra a platitude deste achado, ora, pipocas, e precisa de cientista para descobrir o que é óbvio para qualquer um que não seja surdo? Calma, senhor, perceba que não se trata de comparar Beethoven com Michel Teló: foram analisadas quatrocentas mil cancões classificadas como música popular. E não é uma opinião – da qual compartilho com nosso irritadiço e crítico leitor -, e sim uma demonstração isenta, obtida por critérios estatísticos de absoluta neutralidade. Se, ainda assim, o rabugento acha pouco, convido-o a procurar na internet fotos do espanhol Serrà e do inglês Ellis, com o que constatará que não se trata de vetustos anciãos de cara amarrada. Ao contrário, são mancebos que parecem perfeitamente capazes de se esbaldar no fim de semana ao som dos similares locais de beijinhos no ombro…
          Então, tudo indica que há, de fato, um empobrecimento progressivo do conteúdo musical no cancioneiro popular. Mas, pensando bem, essa trivialização não parece ser restrita à música popular. É bem possível que estudos semelhantes ao do grupo de Barcelona encontrem, em outros campos da cultura como a Literatura, Arte Plásticas e até as Ciências, padrões semelhantes de simplificação acompanhados por aumento do volume com que os autores apregoam suas próprias obras. Cada vez se faz mais barulho por menos criatividade e inovação. A cada dia menos se valoriza um Tom Jobim, e mais o objeto de consumo fácil e imediato. Não há (ainda?) provas científicas de que esta tendência seja generalizada, muito menos que esta progressão seja intrinsecamente danosa à história da humanidade. Mas não resta dúvida de que assim se banaliza a cultura, possivelmente a única das criações humanas que não tem contraindicação.   
          Talvez por razões semelhantes, outras coisas também vem se tornando progressivamente triviais. Falta de educação, desonestidades de todos os tamanhos e matizes, agressões verbais ou físicas, assassinatos por motivos fúteis. Entre muitas outras obras, o historiador Eric Hobsbawn publicou livros famosos que retratam períodos sucessivos da história desde a Revolução Francesa, com os títulos padronizados “A era das revoluções”, “A era do capital”, “A era dos impérios” e “A era dos extremos”. Hobsbawn faleceu em 2012, caso contrário poderia se inspirar na falta que nos faz o Tom Jobim e escrever a continuação da série, agora com o título “A era da banalização”.

Rafael Linden



domingo, 23 de novembro de 2014

Nostalgia do bem

          Vejam como são as coisas. Eu, aqui, preocupado com a ansiedade da gentil leitora, a se perguntar quando voltará seu mui amado cronista; e tudo que recebo são recadinhos do leitor rabugento, regozijando-se com o que pensa ser nossa desistência da Literatura. Porém, trata-se apenas de uma enxurrada de compromissos profissionais ao longo do mês, que nos afastaram deste paraíso internáutico, ao qual retornamos com fé e desassombro.
          Isto posto, para os prezados leitores que já se dedicavam a sublimar sua imensa saudade relendo crônicas passadas e erigindo um mausoléu imaginário que, é claro, há de ter um telhado de dar inveja às grandes catedrais, a crônica de hoje é sobre nostalgia.
          Certamente o rabugento, antes de rabugir, já foi avançadinho, deve ter um filho antenado e um neto descolado e, cada qual na sua época, todos praticaram ou praticam o nobre esporte conhecido como menoscabo do passado. Debochando do prazer de seus pais em ouvir música de tempos idos, o maluco beleza Raul Seixas cantava que “tudo quanto é velho eles botam pr'eu ouvir, e tanta coisa nova jogam fora sem curtir...” e “...a nostalgia eu tô curtindo sem querer, porque está faltando alguma coisa acontecer...”. Muito pior, ainda hoje dicionários de língua portuguesa definem nostalgia como a melancolia do exilado, denotando um estado mórbido de tristeza.
          Curiosamente, a noção de que a nostalgia dos pais do Raulzito é “do mal” ecoa uma idéía muito antiga. No final do século XVII, a palavra nostalgia - literalmente a “dor do regresso” - foi inventada na Suiça para designar um estado depressivo grave e por vezes fatal, originário de saudades da terra natal. Considerada uma doença psiquiátrica, era diagnosticada em militares que permaneciam por longos períodos no campo de batalha ou deslocados em outras paragens da Europa. O tratamento consagrado foi mandar o soldado de volta para casa, pelo menos por algumas semanas. Esta concepção de nostalgia, que durou três séculos, foi aos poucos revista, moderada pela Psicanálise e pela Psicologia, e abrandada para exprimir um sentimento agridoce sobre memórias prazerosas do passado, na terra natal ou em outro lugar qualquer.
          Viver exclusivamente de memórias, por melhores que sejam, não é boa idéía e, como se diz por aí, tudo que é demais faz mal. Deixar-se tomar pela nostalgia pode, em alguns, levar a estados depressivos e, aí sim, torna-se um grave problema de saúde mental, o qual deve ser o que os antigos chamavam de nostalgia. Mas atire a primeira pedra virtual quem, vez por outra, não se põe a pensar como seria bom voltar a comer aqueles bolinhos que a vovó preparava, ir ao Maracanã apreciar o futebol brasileiro do tempo em que ganhávamos a semifinal da Copa do Mundo por 5x2, em vez de perder por 7x1, ou então passar a noite jogando conversa fora na mesa do Veloso, em Ipanema, vendo a garota passar. E, logo depois, suspira e volta aos seus afazeres sem maiores consequências. Ou seja, há muita nostalgia “do bem”. Mas será que faz mesmo bem? Ou simplesmente não faz mal?
          Pois a Neurociência já mostrou que boas lembranças do passado tem efeitos neuropsicológicos benéficos, particularmente sobre a regulação de emoções e a adaptação ao estresse. Com base nessas demonstrações, um grupo de pesquisa da Rutgers University, nos EUA, liderado por Mauricio Delgado, publicou na revista Neuron um trabalho científico no qual testaram se memórias autobiográficas podem ser valorizadas ao ponto de se sobrepor a recompensas tangíveis, tais como dinheiro vivo. Entre parênteses, o Professor Delgado nasceu em São Paulo, emigrou muito jovem para os EUA e lá fez toda sua carreira. Não duvido que tenha se interessado por este tema por conta da dificuldade de achar um botequim, em Nova Jersey, que sirva um pastel como o que era vendido na pastelaria dos chineses na esquina da São João.
          Os pesquisadores recrutaram um grupo de universitários, de ambos os sexos, que mostraram ter muitas lembranças da infância, tanto positivas (como viagens de férias) quanto neutras (como arrumar as malas para essas viagens). Os jovens inicialmente passaram por exames de Ressonância Magnética Funcional, os quais apontaram as áreas do cérebro ativadas quando eles, a pedido dos cientistas, rememoravam algumas daquelas lembranças. Neste experimento, as mesmas áreas cerebrais respondiam tanto a lembranças positivas quanto a recompensas em dinheiro, mas não a lembranças neutras. Outros testes mostraram que a atividade cerebral estava associada a um aumento em emoções positivas, e que se correlacionava, em cada voluntário, com medidas da chamada resiliência, ou resistência ao estresse.
          Mas o mais bacana do trabalho foi quando os cientistas pediram a cada voluntário para escolher rememorar uma lembrança, positiva ou neutra, ao passo que lhe era oferecida uma soma em dinheiro diferente para cada uma das lembranças. Essa recompensa podia ser maior para uma ou para outra, aleatoriamente, e a diferença era variável. Pasme o rabugento, o resultado mostrou que o grupo de participantes chegou a sacrificar quase um terço da recompensa em dinheiro em favor de rememorar lembranças positivas em vez de neutras. Assim, os cientistas demonstraram que uma boa lembrança compete favoravelmente com uma recompensa monetária e, para o bem ou para o mal, tem um valor intrínseco que pode ser simulado por dinheiro.
          Haverá, entre os inúmeros leitores deste blogue, quem esteja a esfregar as mãos na expectativa de comentários sarcásticos sobre a relação entre promessas de outrora e  roubalheiras hodiernas, ou por outro lado se ofenda com a insinuação de que os bolinhos da vovó ou – imaginem! - as madeleines de Proust possam ser reduzidas a um vulgar equivalente monetário. Mas cá do telhado afiançamos que essa história toda só tem a intenção de celebrar o bem que faz uma dose moderada de nostalgia. Por mais que a alma roqueira do cronista aprecie as canções do Raulzito, mais ainda se enleva com a canção de Baden Powell e Vinicius de Moraes, que dizia “feliz o tempo que passou...tempo tão cheio de recordações...” e “...se um dia esse tempo voltar eu nem quero pensar no que vai ser até o sol raiar...”. E, para encerrar com a sempre bem-vinda ironia do destino, resta lembrar que a melodia na qual Raul Seixas pôs aquela letra que zombava da nostalgia é um plágio absoluto da música "My Baby Left Me”, composta e gravada por Arthur Crudup um quarto de século antes – isso sim, um primor de nostalgia...

Rafael Linden


sábado, 25 de outubro de 2014

Uma crônica implícita

Para não dizer que o cronista não se pronunciou sobre o andar da carruagem neste país tropical, hoje não tem crônica. Mas, para bom entendedor...
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O CARTUM DO SÉCULO.

Em memória do Cabo Nathan Cirillo, guarda de honra do National War Memorial em Ottawa, Canadá, monumento nacional aos soldados canadenses que lutaram na Primeira Guerra Mundial, morto a tiros por um fanático em 23 de outubro de 2014.

Na primeira foto, detalhe do monumento. Na segunda, o cartum de Bruce MacKinnon publicado como editorial do jornal The Chronicle Herald, de Halifax, Nova Scotia, Canadá.

Uma imagem. Todas as palavras.

Rafael Linden


sábado, 18 de outubro de 2014

Pílulas de caca

     Ainda que vosso cronista predileto tenha lá suas opiniões, crenças e mitos políticos prediletos e não se furte ao dever cívico de manifestá-los em horas e locais apropriados, a cláusula pétrea, de que tal coisa não se faz no sacrossanto espaço deste blogue, continua a ser plenamente justificada pela disenteria verbal de que somos vítimas nestes tempos de campanha eleitoral. No entanto, tudo que se passa no mundo serve de inspiração e, a propósito, a vida lá fora sempre nos enseja uma boa oportunidade de apelar para outros eventos entre o quais, como se diz por aí, até mesmo a escatologia “dá uma crônica”.
     Pois não é que o conhecimento científico da humanidade foi, há poucos dias, enriquecido com o trabalho de um grupo de cientistas que preconiza o uso de pílulas de fezes congeladas para tratamento de um tipo particular de infecção intestinal? Volte aqui, cara leitora, porque é coisa séria. Ou melhor, seriíssima. Para começar, saibam todos que o trabalho foi publicado no JAMA, a revista de alta qualidade da Associação Médica Americana, por pesquisadores das Faculdades de Medicina de Harvard e Tel-Aviv, os quais trabalham em dois dos melhores hospitais do mundo, localizados - sem trocadilho – na cidade de Boston. Sim, nada disso garante que o trabalho seja bom, mas continue a ler e verá que tem lógica e é importantíssimo.
     A tal infecção intestinal é causada por um microorganismo que, de cara, já ostenta o ameaçador nome de Clostridium difficile. Seu pacote de maldades causa uma disenteria gravíssima, que leva os pacientes a usar o banheiro até 30 vezes por dia e pode ser fatal. É bom que nossa multidão de ávidos leitores saiba que essa infecção é mais comum quando a flora intestinal normal – ou seja, as bactérias do bem que todos temos em nossas respeitáveis tripas - é dizimada por mau uso de antibióticos. Pois é, minha senhora. As bactérias vivem a competir umas com as outras por sobrevivência e quando as bactérias do bem morrem, bactérias do mal podem ocupar facilmente os ambientes em que a natureza lhes oferece alimento e abrigo. Esta é uma das principais razões pelas quais ninguém deve tomar antibióticos sem orientação médica, muito menos quando são desnecessários.
     Antes de prosseguir, advirto que faço o possível, mas trata-se de uma matéria difícil de abordar com nossa delicadeza habitual. Voltando ao assunto, como a tal bactéria do mal é muito resistente aos antibióticos disponíveis, há alguns anos existe um tratamento baseado na competição pela sobrevivência. Consiste em introduzir fezes de uma pessoa saudável no tubo digestivo do paciente, para que bactérias do bem colonizem maciçamente o intestino e, com isso, derrotem as bactérias do mal. Mas até agora esse tratamento tinha de ser feito com – tenham paciência – fezes frescas, em geral de um parente da pessoa doente e, para injetar a poção mágica, era necessária a introdução de um tubinho vindo, digamos, de lá ou de cá, no tubo digestivo do paciente. Crianças, por favor não tentem fazer isso em casa.
     Então, como este procedimento, além de difícil de descrever com um mínimo de boa educação, é sujeito a efeitos adversos e requer ambiente hospitalar, os cientistas inventaram o que só pode ser descrito como pílulas de cocô. É isso mesmo, cápsulas feitas com o mesmo material que envolve muitos outros medicamentos, contendo no interior fezes congeladas de doadores saudáveis, selecionados por critérios rigorosos e submetidos a diversos exames para garantir que o material seja de primeira, ou seja, contenha uma flora bacteriana todinha do bem. As cápsulas ficam congeladas até o uso e, com isso, o tratamento pode ser feito em consultório médico ou na casa do paciente. Simples assim.
     A boa notícia foi que as cápsulas funcionaram em noventa por cento dos casos testados, mais ou menos a mesma proporção de pacientes nos quais funciona aquele tratamento complicado! E nenhum paciente vomitou, apesar de engolir 30 daquelas cápsulas em dois dias. O leitor rabugento já nos telefonou pelo menos quatro vezes, dizendo que este blogue está ficando cada dia mais nojento, mas o fato é que se trata de um avanço no tratamento de uma infecção grave e potencialmente fatal. E antes que o Juquinha comece a guardar o que não deve em sacos plásticos no congelador da geladeira da avó, deve-se notar que os pesquisadores foram cautelosos e advertiram que será necessário confirmar os resultados em estudos mais amplos, além de verificar se não haverá efeitos adversos a longo prazo.
     Ufa, diz a nossa querida leitora, aliviada porque pensa que acabou a tortura. Mas ainda resta o momento nostalgia. Há uns cinquenta anos, o músico e comediante Juca Chaves tinha, entre suas máximas, uma pérola de sabedoria que dizia ser “melhor dividir com os amigos um prato de morangos do que comer sozinho um prato de me*!@”. Se tudo correr bem, haverá pelo menos uma circunstância em que os morangos ficarão em segundo lugar.



Rafael Linden


domingo, 21 de setembro de 2014

Sim, senhora, daqui a cem anos

     Vejo nos olhos marejados da gentil leitora a emoção de reencontrar este humilde cronista, depois de quatro interminávei semanas. Vossa fênix ressurge incólume das cinzas de um mês atulhado de compromissos inadiáveis, para deleite dos fãs e, é claro, para o inevitável muxoxo do notório resmungão que nos persegue desde sempre. Estavam com saudades? Aguardavam ansiosos a última insanidade a ganhar a nuvem, diretamente do borbulhante e desconexo cérebro deste que vos escreve? Podia ser pior, acreditem. Imaginem-se a descobrir que o próximo livro de seu escritor predileto – escritor mesmo, não eu – estará à sua disposição apenas em 2114. Sim, senhora, daqui a cem anos.
     Ha, ha, coisa nenhuma. Pois em agosto de 2014, Katie Paterson, uma artista escocesa residente em Berlim, deu a largada para seu projeto que consiste em, a cada ano, encomendar um livro inédito a um escritor de renome, até um total de cem escritores. Parece uma mera proposta editorial que, eventualmente, será assumida sucessivamente por empresários mais jovens ou pelos descendentes da moça. Mas não, isso seria trivial. O busílis – lembram do busílis? - é que esses livros serão trancafiados num espaço especialmente reservado em uma biblioteca pública na Noruega, onde ficarão expostos, fechadinhos e proibidos para leitura até 2114, quando finalmente serão liberados para os leitores. Sim, senhora, daqui a cem anos.
     Livros que só serão lidos daqui a cem anos, artista nascida na Escócia, residente na Alemanha, projeto na Noruega. Viram no que deu a União Européia? Coisa de doido, né? De cara, há quem diga que em pouco tempo os espertofones, tabletes, realidades virtuais e o escambau eletrônico tornarão obsoletos não só o livro, mas qualquer coisa escrita em papel. Já outros lamentam o crescente desinteresse da galera pela respectiva língua pátria a começar pelas vogais, ao que parece condenadas ao ostracismo – por falar nisso, vcs td blz? Sem falar numa frase que não existia há algumas décadas e se tornou comum na mudernidade – pô, cara, não tenho tempo pra nada, não leio um livro desde que entrei na faculdade! Apresso-me a esclarecer que os compromissos inadiáveis que mantiveram o cronista nas sombras por um mês incluiam, principalmente, escrever projetos. Na língua pátria. E, raios me partam, com versão em inglês também.
     Mas, voltando ao que interessa: sim, senhora, daqui a cem anos. Coisa de doido. Ou não?
     Pois a escocesa, que é muito conceituada por seus projetos visuais meio esquisitos para o meu gosto pessoal, conquistou como primeira escritora de seu ambicioso projeto nada menos do que Margaret Atwood, uma canadense que, aos 75 anos de idade, já escreveu dezenas de livros, ganhou mais de 55 prêmios - entre os quais o Booker Prize, um dos mais prestigiosos da literatura mundial - e foi homenageada por dezenas de universidades, incluindo Harvard. Como se não bastasse, Margaret inventou uma engenhoca robótica para que um autor possa autografar livros e conversar via tabletes com leitores à distância. Há controvérsias sobre essa invenção, mas não se pode acusar a escritora de saudosismo ou tecnofobia. Ainda assim, em lugar de arquivar seu livro na nuvem, ela fez questão de comprar papel especial de arquivo para que seus originais não deteriorem com o tempo.
     A esta altura, o leitor rabugento resmunga que não apenas é coisa de doido, mas a loucura atravessou o Oceano Atlântico. Será?
     Aqui no telhado, por princípio não posso me dar ao luxo de estigmatizar coisa alguma. Então, pensando bem, esse projeto é muito simpático. Minha própria carreira como cientista sempre foi voltada para pesquisa fundamental, aquela que contribui para o conhecimento e não tem prazo para virar um produto. Na história da Ciência, dessa categoria de pesquisa saiu muito que não valia nada ou foi provado falso ao longo do tempo. Mas também inúmeros conceitos formulados há décadas, séculos, são válidos ainda hoje e o serão até prova em contrário. Da mesma forma, ao contrário do festival de porcarias de consumo imediato que empesteia as livrarias modernas e mal dá espaço para a literatura verdadeira, obras escritas há décadas, séculos e milênios ainda hoje são lidas, admiradas ou veneradas. Portanto, não há nada estranho na previsão de um público para os exemplares do projeto, que ganhou o título de “biblioteca do futuro”.
     O filósofo George Santayana dizia que “quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo”. De fato, depois de tanto tempo de civilização, é cada dia mais difícil inventar algo de novo e quem aspira à originalidade precisa conhecer o legado de seus antecessores. De outra forma, como saber se o que sai de sua cabeça ou de suas mãos é de fato original? Ainda cética, pergunta-se então a gentil leitora, se não é um contrasenso encomendar e guardar livros em papel, sem saber se serão lidos, em plena era da proteção das árvores do planeta. Nisso a escocesa pensou, e para produzir o papel a ser usado na antologia estão sendo plantadas mil árvores em um bosque nas cercanias de Oslo. O resmungão pergunta “e a tinta?”. Não sei.
     E se de fato até lá se concretizar a profecia do fim dos livros em papel – na qual, entristecido e preventivamente nostálgico, lamento acreditar -, o que será do projeto? Há pouco tempo, a voz de Thomas Edison, gravada no fonógrafo que ele inventou em 1878 foi recuperada por cientistas norte-americanos. Não resta dúvida de que, em 2114, haverá tecnologia suficiente para transpor os textos deste projeto para qualquer meio que venha a substituir o que será então “aquela tralha obsoleta de espertofones, tabletes e computadores de outrora, que estão expostos no museu que fica perto da casa do Zé naquele asteróidezinho”. Sim, senhora, daqui a cem anos.
     O mais interessante neste projeto é exatamente o mistério insondável. Por mais que autores como Margaret Atwood e outros luminares que venham a ser convidados para escrever seus livros tenham seguidores fiéis, gente que leu todos os seus livros, é intrigante imaginar o conteúdo desta coleção. Esse mistério é muito peculiar, porque é provável que nenhum de nós, escritor e leitores deste blogue, leremos esta antologia. Bem, sabe-se lá...Seja como for, isso já justifica que se chame a “biblioteca do futuro” de um projeto de arte, e não apenas uma empreitada editorial.
     No filme que Margaret Atwood gravou sobre o projeto, e justificando que o contrato obviamente impede a divulgação de qualquer informação sobre o conteúdo de sua obra, a escritora comentou, candidamente: “É muito otimismo acreditar que, daqui a cem anos, haverá pessoas, que estas pessoas ainda lerão, que estas pessoas estarão interessadas em abrir as caixas e ler os livros, e que nós escritores serermos capazes de nos comunicar com estas pessoas”.
     Sim, senhora, daqui a cem anos. A pergunta que não quer calar é se, do jeito que andam as coisas, ainda haverá pessoas. Mas, cá para nós, a aventura humana e as habilidades que nossa espécie desenvolve ao longo de sua história só tem valor quando miram o futuro.

Rafael Linden



domingo, 24 de agosto de 2014

Amarelinha O da jogo

QUADRO DE ORIENTAÇÃO

     Hoje, a querida leitora e o estimado, embora rabugento, leitor, que nunca perdem este blogue, estão convidados a brincar. O acúmulo de trabalho, imposto pelo batente que remunera este humilde cronista, nos impede de tamborilar idéias insanas e correlações esdrúxulas. No entanto, para não deixá-los a ver navios, aí vai a notícia da semana, a qual deve ser lida respeitando religiosamente a ordem indicada para ler as linhas numeradas.

Ordem de leitura:
11, 21, 7, 1, 12, 17, 24, 29, 9, 5, 14, 33, 27, 8, 30, 36, 18, 28, 39, 10, 23, 13, 31, 25, 6, 4, 19, 34, 37, 2, 3, 26, 22, 15, 35, 32, 20, 16, 38

  1. Feira,
  2. de
  3. Cronópios
  4. Cortázar,
  5. mais
  6. Julio
  7. Terça-
  8. para
  9. celebramos
10. anos
11. Parabéns, 
12. dia
13. nascimento
14. uma
15. Famas
16. da
17. 26
18. latino-
19. autor
20. Jogo
21. Hermanos!
22. de
23. do
24. de
25. escritor
26. e
27. histórica
28. americana: 
29. Agosto
30. a
31. do
32. do
33. data
34. de
35. e
36. Literatura
37. Histórias
38. Amarelinha.
39. 100


E até breve, pois não há mal que sempre dure, nem bem que nunca chegue.


Rafael Linden


sábado, 12 de julho de 2014

Esta Copa do Mundo e todas as outras


          Brasil e Holanda, Alemanha e Argentina. Os dois últimos jogos da Copa do Mundo de Futebol de 2014. No rescaldo da fragorosa derrota da seleção brasileira - não confundir com Brasil - para a seleção alemã - não confundir com Alemanha, muito menos com a Alemanha das Divisões Panzer, como fez de forma canhestra e deplorável uma coluna de um grande jornal do Rio de Janeiro -, o jornalista e escritor Xico Sá lembrou, em um programa de televisão, a abertura de um documentário de Geneton Moraes Neto sobre a Copa do Mundo de 1950. No filme, o ator Paulo Cesar Pereio recita versos da “Seção 18” da “Canção de mim mesmo” do poeta norte-americano Walt Whitman, publicada pela primeira vez em 1855.
          Hoje não tem crônica. Para os leitores deste blog que se interessam por futebol e pela vida em geral – os quais, insisto em lembrar, são duas coisas diferentes – fica, de presente, a Seção 18:

“Com música poderosa eu venho, com minhas cornetas e tambores,
Não toco marchas para os vitoriosos conhecidos, toco marchas para os conquistados e assassinados.
Ouviste dizer que é bom ganhar o dia?
Digo que também é bom cair; batalhas são perdidas no mesmo espírito em que são ganhas.
Bato e alardeio pelos mortos,
Eu sopro através de minha embocadura, bem alto e alegremente para eles.
Vivas àqueles que perderam!
E para aqueles cujas naus de guerra naufragaram no oceano!
E para aqueles que se afogaram no oceano!
E para todos os generais derrotados em suas empresas, e todos os heróis abatidos!
E os incontáveis heróis desconhecidos, tão grandes quanto os grandes e aclamados heróis!”
(Tradução por Luciano Alves Meira, 2005)


Rafael Linden

domingo, 29 de junho de 2014

O vampiro de Lagoa Nova

          O cronista escreve em plena Copa do Mundo e, naturalmente, os leitores pensam que o personagem do título só pode ser um uruguaio, praticante do nobre esporte bretão que, na década de sessenta, o patriótico professor Hernani, do Curso Pré-Vestibular Miguel Couto, gostava de chamar de ludopédio ou, pior ainda, balípodo. O jogador, severamente punido por agressão pela entidade organizadora do torneio, declarou-se inocente e garantiu que, no calor da partida, desequilibrou-se e, por mero acaso, caiu de boca no ombro de um zagueiro italiano, deixando neste uma profunda impressão dentária. Aliás, foi a terceira vez em sua carreira que o atacante, em pleno jogo, aterrissou nas suculentas carnes de um adversário. Um recorde entre profissionais, embora amplamente difundido no jardim de infância. E para quem ainda não está careca de saber, Lagoa Nova é o bairro de Natal, no Rio Grande do Norte, onde fica o estádio no qual ocorreu o infausto acontecimento.
          Acima adverti, porém, que os leitores pensam ser o protagonista um jogador de futebol. Ledo engano. O personagem principal é a borboleta de Lorenz. Quem? Ora, no clima atual de fervor patriótico generalizado que só mesmo uma boa prorrogação com disputa em pênaltis consegue arrancar das entranhas deste povo sofrido, é compreensível que o atleta Luisito Suárez se torne muito mais famoso do que o meteorologista e matemático norte-americano Edward Lorenz. Esse último, ao que parece, não mordeu ninguém e é conhecido pelo chamado “efeito borboleta”.
          Há cinquenta anos Lorenz, que desenvolvia modelos matemáticos para usar em meteorologia, estudava os efeitos que uma pequena diferença em uma única variável poderia causar no resultado de sistemas de equações usadas para previsão do tempo. Isso se traduz, mais ou menos, como o efeito que uma alteração, digamos, de um décimo de grau de temperatura na floresta amazônica pode causar no volume de chuva no sul do país. Os estudos de Lorenz foram incorporados na chamada teoria do caos, que trata de sistemas complexos e dinâmicos, ou seja coisas muito complicadas e que, às vezes, mudam muito por causa de uma variação aparentemente irrisória em um dos fatores que contribuem para o comportamento do sistema. Mal comparando e aproveitando o centenário da primeira guerra mundial, trata-se de algo semelhante ao efeito que um único tiro, que acertou um arquiduque, causou na taxa de mortalidade e na geografia de toda a Europa.
          E a borboleta? O digníssimo lepidóptero entrou na história por causa de uma piadinha. Conta-se que Lorenz, ocupado com outros afazeres, deixou de responder aos apelos dos organizadores de uma conferência para enviar o título de sua palestra. Na última hora um deles, para representar aquela coisa toda que o matemático descobriu, inventou o título “Será o bater das asas de uma borboleta no Brasil capaz de disparar um tornado no Texas?”. Daí surgiu o apelido “efeito borboleta”. Bonitinho, né? Cientistas são mesmo umas gracinhas…
          E o que tem Lorenz a ver com o vampiro de Lagoa Nova? Ignora-se a razão do hábito esdrúxulo do atacante uruguaio, aos 25 anos de idade e ganhando aquele salário astronômico. Sem dúvida, depois de sapecar um ósculo cinematográfico na careca do fisioterapeuta que o colocou em campo, em plena forma, apenas quatro semanas depois de uma cirurgia no joelho, Luisito deve reservar várias beijocas para o psicólogo ou psiquiatra que, eventualmente, venha a livrá-lo deste insólito canibalismo. Mas talvez nunca se esclareça a causa propriamente dita do evento recente. Por isso, aqui fica a hipótese, firmemente baseada no efeito borboleta, que ouvi de um barbeiro do salão onde minha definhante cabeleira é, de tempos em tempos, recauchutada com tesouradas certeiras. Ponderou o fígaro, embora em outras palavras, que o artilheiro da seleção uruguaia é deficiente auditivo e, ao ouvir mal um celebrado atentado musical cometido pela portadora de um nome destinado a exaltar seus próprios dotes calipígios, concluiu que, no país do futebol, mordidinha no ombro faz sucesso e dá prestígio.
          Ou seja, mais uma dessas musiquinhas infames, com que somos regularmente torturados por compositores irresponsáveis e pseudoartistas de meia tigela, provocou um incidente de grandes proporções, assistido ao vivo e em cores por dois bilhões de pessoas, encerrado com uma punição draconiana ao dentuço e, entre outras pérolas, ainda levou uma centenária publicação britânica de centro-esquerda a deixar de lado seu tradicional conteúdo político para relatar que é cerca de duas mil vezes maior o risco de um cidadão ser mordido por um jogador uruguaio do que por um tubarão.


Rafael Linden


domingo, 8 de junho de 2014

Ao pé da letra

          Em décadas de docência universitária, este humilde cronista já alternou mais altos e baixos do que as montanhas russas da Disneylândia. Um dos baixos que nos assombra é a avaliação de provas. Corrigir dezenas de respostas à mesma pergunta, tarefa que se repete por várias questões a cada prova, é capaz de provocar uma lesão cerebral de esforço repetitivo. Desgosto adicional é a crescente ameaça à integridade da língua pátria, pelos atentados cometidos por alguns dos estudantes que teriam sido selecionados, vejam só, pela proficiência nas lições aprendidas ao longo de sua educação pré-universitária.
          Alguns colegas da egrégia Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil já murmuram entre dentes “Fez carreira acadêmica porque quis...”. Contenham-se doutores pois, como diria Bento Carneiro - o vampiro brasileiro, personagem do humorista Chico Anísio -, “minha vingança será maligna!”. Pois outro motivo de calafrios é a caligrafia. É um martírio decifrar a letra de muitos estudantes, vários dos quais, por casualidade, são de Medicina. Ainda assim podem sossegar, pois o tema desta crônica não é a “letra de médico”, e sim, a escrita à mão em geral.
          Antigamente, cadernos de caligrafia eram obrigatórios na escola, até que foram condenados por novas correntes pedagógicas, mesmo porque, no futuro, tudo será escrito nos teclados de computadores. Até entre os que defendem seu uso, há controvérsia sobre quando devem ser introduzidos e por quanto tempo os professores devem zelar pela qualidade estética da escrita dos alunos. E daí?
          Não apenas um calígrafo japonês, mas muita gente por aí deve apreciar uma letra desenhada com apuro. Com frequência, tecnófilos contumazes decoram seus textos ou diapositivos com fontes como Brush Script, Lucida Handwriting, Snell Roundabout e outras belezinhas desenvolvidas por designers gráficos para simular escrita manual. Mas é improvável que a mecanização de letras cursivas reproduza a infinita variedade de caligrafias. Assim espero, ecoando a professora Ermelina Tomacheski, da PUC do Paraná, que teria dito “...a letra também é um reflexo da personalidade e da liberdade de expressão, ou seja, cada um desenvolve seu próprio estilo...” (sic). Tempos atrás, ouvia-se muito “fulano tem uma letra muito bonita”, isso antes da letra do fulano se tornar Arial 12pt. E exames grafoscópicos – que não se deve confundir com a Grafologia pseudocientífica – são úteis para detectar rasuras e falsificações de textos manuscritos.
          Entretanto, o busílis – olha o busílis aí de novo, gente! - é se, afinal, escrever à mão se justifica perante a difusão dos computadores, tabletes e espertofones. Sobrou alguma utilidade, além da estética e da piedade para com os leitores de manuscritos manuscritos? Pois este foi o assunto de uma reportagem do New York Times, cujo logotipo ostenta uma elegantíssima fonte derivada de letras góticas a qual, reza o Google, corresponde a Old English ou Temporal. O texto de Maria Konnikova, intitulado “O que se perde com o desaparecimento da escrita manual”, indica que se perde muito.
          Senão, vejamos. Há alguns anos, a professora Karin James, da Universidade de Indiana, recrutou para um teste quinze crianças de quatro a cinco anos de idade, ainda não alfabetizadas. Não, Meritíssimo, não foram sequestradas, os pais concordaram em levar filhos e filhas ao laboratório e ficaram felizes em contribuir para entender mecanismos de aprendizado da leitura. Tudo bem?  Então, tá. A pesquisadora pediu a cada criança para olhar a imagem de uma letra do alfabeto e copiá-la, várias vezes, de três formas distintas: à mão livre, traçando por cima de um modelo, ou apertando uma tecla com o desenho da letra. Fez o mesmo para formas neutras como círculos ou quadrados. Depois do treinamento, registrou imagens de atividade do cérebro das crianças, por uma técnica chamada Ressonância Magnética Funcional. Sim, Meritíssimo, as crianças toparam tudo de livre e espontânea vontade, e adoraram a brincadeira.
          As imagens cerebrais foram feitas enquanto as crianças olhavam para letras treinadas, letras não treinadas ou formas neutras. Não foi surpresa ver que a prática de desenhar letras provocou atividade mais intensa que as formas neutras em regiões cerebrais sabidamente envolvidas na leitura. Mas, o mais interessante foi que estas partes do cérebro foram ainda mais ativadas pela observação das letras que a criança tinha desenhado à mão livre, do que das letras traçadas sobre um modelo ou tecladas num computador.
          A interpretação da doutora James se baseou em estudos do norte-americano Michael Posner, segundo os quais a percepção de variações na forma com que uma letra aparece para uma criança facilitaria seu reconhecimento independente dos detalhes da caligrafia. Ao escrever repetidamente uma letra, uma criança ainda não alfabetizada certamente produz múltiplas variações. Isso seria vantajoso para fixar o aprendizado daquela letra, quando comparado ao traçado sobre um modelo ou, ainda mais, o apertar de uma tecla no computador.
          A esta altura, não é necessário ser um renomado especialista ou adepto fervoroso da chamada Escola Construtivista para reconhecer que a antiga prática de obrigar crianças a treinar caligrafia padronizada não ajuda e poderia até atrapalhar o aprendizado, por reduzir a margem de variação na escrita manual. Mas é só isso? Não, tem mais.
          A professora Virginia Berninger, da Universidade de Washington, vem há anos mostrando que escrever à mão com letras cursivas ou letras de imprensa, ou ainda usar teclados de computador, ativam regiões distintas do cérebro; que crianças que escrevem à mão expressam mais idéias do que as que usam os outros meios; e que, quando pediu a crianças em torno dos 10 anos de idade sugestões de idéias para uma redação, as que escreviam melhor mostraram, na Ressonância Funcional, ativação mais intensa nas áreas cerebrais associadas a memória, leitura e escrita. Ponto para a boa escrita manual.
          E mais, a revista Psychological Science publicou um artigo dos pesquisadores Pam Mueller e Daniel Oppenheimer, os quais compararam, em adultos jovens, os benefícios de anotações feitas à mão ou em um computador. Sessenta e cinco estudantes da Universidade de Princeton, de ambos os sexos, assistiram a palestras gravadas e tomaram suas notas como estão habituados a faze-lo em aula. Depois, responderam a dois tipos de perguntas - factuais ou conceituais - que diferem por testar a memorização de fatos relatados nas palestras ou sua concatenação em idéias abrangentes.
          Os estudantes que usaram computadores tomaram notas mais extensas, geralmente limitadas à reprodução ipsis literis de frases ou dados, enquanto as anotações à mão livre, embora menos extensas, foram mais variadas e menos coincidentes com a transcrição exata das palavras do palestrante. Curiosamente, essa diferença persistiu quando eles foram instruídos a não fazer anotações ipsis literis! Nos testes, os anotadores à mão livre obtiveram resultados melhores dos que os tecladistas nas perguntas conceituais e, quando o exame foi feito depois de um tempo para estudar as anotações, ainda assim os anotadores à mão livre se sairam melhor tanto nos testes conceituais quanto, surpreendentemente, nos factuais. Ou seja, anotações à mão livre favoreceram o aprendizado dos conceitos, quando comparados ao uso dos computadores. Neste estudo não havia correio eletrônico, mensagens de texto ou qualquer outra interferência internáutica que pudesse explicar o relativo fracasso dos tecladistas. Tudo parece indicar a superioridade das anotações à mão livre para aprofundamento do aprendizado.
          É possível que quem faz anotações mais concisas e conceituais no computador tenha desempenho tão bom quanto, ou ainda melhor do que os que escrevem à mão. Mas, a julgar pela manutenção de anotações ipsis literis mesmo quando instruídos a não faze-lo, a mecanização da escrita é acompanhada por vícios prejudiciais. Estão todos convencidos? Não? Nem eu por completo, ainda. Mas a gentil leitora há de convir que os resultados de estudos científicos estão na contramão da idéia, muito difundida, de que não há mal em deixar a escrita à mão desaparecer no turbilhão da eletrônica. Há fortes indícios de que lápis e papel ainda são úteis pelo menos até a adolescência tardia e, provavelmente, muito além dos bancos universitários.
          Mas, perguntará o nosso conhecido leitor rabugento, o que tem isso a ver com a caligrafia? Pois saibam que, há cerca de dois anos, um inquérito encomendado por uma empresa britânica constatou que o tempo decorrido desde a última vez que um ingles escreveu à mão livre foi, em média, de seis semanas, e um terço dos entrevistados não precisou escrever nada de forma “adequada” por mais de seis meses. Pior, um em cada três entrevistados confessou que não entende suas próprias anotações à mão livre. Agora, imaginem o bom humor de um professor a avaliar várias dezenas de provas manuscritas...
          A computorréia chegou para ficar e a tendência de trocar a escrita manual pela eletrônica é inexorável. A não ser, é claro, quando falta luz e a bateria reserva se esgota. Antes que o rabugento pondere que na falta de luz não se escreve nem à mão, lembro que também falta luz durante o dia. Mas isso não é tudo. O cérebro humano vem evoluindo há mais de dois milhões de anos, a chamada proto-escrita já tem uns dez mil de idade e a escrita propriamente dita, uns cinco a seis mil. Alguma pressão evolutiva há de ter tornado essas três histórias congruentes, e muitas gerações ainda passarão antes que desapareçam os benefícios neurológicos da escrita manual. Se há de fato vantagens em escrever à mão, há também vantagem em conseguir ler, pelo menos, as próprias anotações.
          Vosso cronista predileto ainda acha que se deve cuidar com carinho da qualidade da caligrafia das crianças e jovens, no mínimo de sua legibilidade sem, naturalmente, retornar aos métodos draconianos da velha escola. Recentemente uma amiga, preocupada com o desprezo do filho de seis anos e meio por melhorar a qualidade da própria letra, escreveu uma mesma palavra de duas formas, com letra caprichada e em garranchos ilegíveis e surpreendeu a criança ao lhe mostrar que era a mesma coisa escrita das duas formas. Ainda é cedo para saber o quanto isso vai influenciar o guri, mas pode ser uma boa estratégia.

Rafael Linden


P.S.: Sim, senhora, tudo isso foi escrito no teclado de um computador. Mas, como os leitores deste blog bem o sabem, o autor não tem mais jeito.