terça-feira, 30 de dezembro de 2014
sábado, 20 de dezembro de 2014
A dieta do verão e o aquecimento global
Estamos a
pouco dias do verão no Rio de Janeiro. Aproxima-se a estação da alegria,
criançada em férias, muito sol, suor e cerveja estupidamente gelada, gente
sarada com roupas exíguas, pele bronzeada, tatuagens fresquinhas, exibindo aquela saúde toda na praia, com o único e edificante propósito de entabular uma
parceria para o fim da noite. Vez por outra, fazer o que, tropeça-se no rotundo
tio Pelópidas, para nos lembrar que “corpo definido” tem definições mais amplas
que se pode imaginar.
Encontro a
gentil leitora no meio termo que separa Pelópidas e sua esposa, igualmente robusta,
do galã da novela e, ai ai, daquela formosura que trafega num biquini feito de,
ao todo, doze centímetros de um único fio de fibra sintética. Eis que nossa fã
incondicional se encontra em pânico. Pois não é que o verão bate à porta e ela
ainda está três quilos acima do peso cientificamente indicado para si, de
acordo com o último exemplar da revista Marie Claire? Ah, o horror! Para piorar as
coisas, o recesso de Natal e Ano Novo, que poderia ser passado na academia de
malhação, coincide - vejam que coincidência - com o Natal e o Ano Novo...
Nestas datas
festivas, cônscios de suas tradições eclesiásticas ou culturais, a galera se
dedica apropriadamente a entupir o bucho de aves e presuntos, farofas, guloseimas,
tudo isso regado a bebidas altamente calóricas. Agora danou-se. As amigas da
nossa leitora vão se fartar de, na sua ausência, demonstrar o quanto a amam, às
gargalhadas, saboreando as mais cruéis piadas sobre pneuzinhos e outros
acessórios automobilísticos que costumam decorar as vizinhanças dos escassos
biquinis. Urge uma dieta radical, acompanhada de abundantes orações a Santa
Rosa de Lima, pedindo-lhe inspiração para, se possível, jejuar até meados de janeiro.
E é neste exato momento que o leitor rabugento, tomado por um misto de desprezo
pelas preocupações mundanas e curiosidade científica, pergunta: - E, se essa
maluquice der certo, para onde vai
a gordura perdida quando a leitora emagrece?
Arrá! A
frase que agora se lhe descortina aos olhos é o intervalo de poucos segundos
que o cronista lhe oferece para que pense na resposta. Enquanto isso, informo
que o respeitável periódico científico British
Medical Journal publicou há poucos dias um interessante artigo dos australianos Ruben Meerman e Andrew Brown, com o título
da pergunta que aquele chato fez ainda agorinha.
Para
começar, os pesquisadores fizeram uma enquete, perguntando isso a um grupo de
médicos, nutricionistas e preparadores físicos – que nossa sofisticada platéía
costuma chamar de personal trainers -.
Dentre as várias opções, que incluiam as fezes, suor, urina, músculo e outras,
a mais popular entre todos estes profissionais foi que a gordura perdida se transformava
em energia ou calor.
Os autores
do trabalho apontaram para a improbabilidade desta resposta, que viola a
chamada lei da conservação das massas, a qual é essencialmente respeitada no
nível de reações químicas como as que acontecem no emagrecimento, baseadas na
metabolização de triglicerídeos, uma classe de gorduras armazenadas nos
chamados adipócitos. Então, apesar da teoria da relatividade oferecer o
conceito de transformação de massa
em energia, o simples desaparecimento da gordura e aparecimento de calor não é
convincente.
Os cientistas
estudaram as reações químicas e calcularam as quantidades dos derivados
formados no emagrecimento. Chegaram a duas conclusões: primeiro, que a gordura
perdida acaba, por força da oxidação dos triglicerídeos, se transformando em
dióxido de carbono – o conhecido CO2 - e água, nas quantidades previstas pela
lei da conservação das massas; e segundo, que esse CO2 que vem da gordura
“queimada” é expelido pelos pulmões, na respiração, enquanto a água sai pelos
caminhos habituais como o suor ou a urina. Ou seja, a gordura que a escultural
leitora perdeu ontem, depois de duas horas na esteira e um monte de pulinhos,
virou mero CO2.
O rabugento
se contorce de raiva, achando que o cronista, num arroubo de sandice, vai
enveredar pela teoria de que quando alguém se exercita na Mata Atlântica não
está se beneficiando do ar puro, e sim contribuindo com seu CO2 para a
fotossíntese e, por isso, para a saúde das plantas. Longe de nós semelhante
isso. E também não cairemos no pagode do cientista doido ao afirmar que mais do
que o desmatamento, o escapamento dos automóveis, a poluição industrial ou a flatulência do
gado, quem realmente está provocando o aquecimento global é o CO2 produzido
pelos seres humanos que se esfalfam diariamente nas academias de ginástica.
Também isso não faremos.
Mas, não
fossem a obrigações que nos afligem, seria divertido tomar os resultados
quantitativos do trabalho dos australianos e testar a hipótese de que o calor
insano que, estejam certos, vai fazer nos próximos meses na Cidade Maravilhosa
de São Sebastião do Rio de Janeiro recebe uma contribuição significativa do
efeito estufa criado por uma infinidade de cariocas aflitos por, todos ao mesmo
tempo, entrarem nas sungas e biquinis com as quais pretendem desfilar nas
extensas e tristemente poluídas praias desta comarca, exibindo suas formas
apolíneas recentemente ajustadas por horas a fio malhando desesperadamente. Quem
sabe, né?
Rafael Linden
sábado, 13 de dezembro de 2014
O esqueleto no armário da coroa
Não é nada
disso, madame. Este blogue não publica histórias de terror. É apenas um chamariz
adequado para a crônica de hoje, que trata de uma novidade meio desagradável
para uma certa realeza. E a coroa do título, com todo o respeito, não é a
gentil leitora, nem a vovó, nem a dona Mariquinhas do sexto andar. A coroa, no
caso, é a britânica. E o tal esqueleto é, nada mais nada menos, do que a
estarrecedora revelação de um adultério.
Como disse,
senhora? Hoje em dia revelação de adultério dificilmente é estarrecedora? Pois,
pasme, trata-se de um chifre de setecentos anos. Mas só agora a Ciência traz a
público a prova material de que um membro da linhagem da monarquia britânica
era um bastardo, não apenas metafórico, mas genético mesmo.
Há algum
tempo foi descoberto um esqueleto enterrado debaixo de um estacionamento na
cidade inglesa de Leicester, e identificado como pertencente ao rei Ricardo
III. Este monarca reinou por apenas dois anos, de 1483 a 1485, durante os quais construiu uma
fama diabólica, e foi morto em batalha por seu inimigo Henry Tudor, o qual com
isso abiscoitou o trono. Quando da descoberta arqueológica, foi noticiado que
os cientistas tinham confirmado a identidade de Ricardo III pelo exame do DNA
extraído das mitocôndrias dos restos mortais, comparado ao DNA das mitocôdrias
de uma descendente de Anne de York, irmã do rei Ricardo.
Então, há
poucos dias a revista Nature
Communications publicou um artigo assinado por cientistas de vários países
além dos pesquisadores da Universidade de Leicester, contendo a descrição do
estudo feito com todo o DNA recuperado do esqueleto, a análise genética e os cálculos
dos cientistas de que a chance daquele esqueleto não ser de Ricardo III é menor
do que seis em um milhão. Ou seja, é praticamente impossível que a
identificação seja falsa. Vosso amado cronista não é versado em Genética, mas
tem um punhado de amigos gaúchos com os quais vem aos poucos aprendendo alguma
coisa e adorou a leitura, principalmente pela forma como a pesquisa foi
relacionada à genealogia da família real da Inglaterra.
Na verdade,
a história daquela ilha velha não é das mais edificantes, recheada de fratricídios e outras tragédias movidas
pela ânsia de poder típica da aristocracia. Mas ninguém que passe algum tempo por
lá consegue ficar indiferente às curiosidades daquele povo excêntrico. E, ora
vejam, nesse mesmo artigo a Genética, além de bater um recorde ao confirmar a
identidade de uma pessoa que se encontrava desaparecida há 527 anos – nem os
roteiristas de C.S.I. tinham até agora inventado uma história assim - , ainda
nos brindou com a revelação de um adultério.
Não, senhora, não é gozação.
Aqui no telhado de fato mentimos um pouquinho, afinal esse blogue foi criado para
escrever ficção. Mas hoje trata-se de pura verdade. A respeitável publicação
científica resvalou para o estilo mundano da revista Caras e anunciou para o mundo que houve um bastardo na linhagem
real descendente do monarca Eduardo III, que reinou no século XIV e é o trisavô
de Ricardo III.
Os
cientistas se valeram de certas regras da Genética. Da mesma forma que a
linhagem materna pode ser confirmada pelo exame do DNA das mitocôndrias, que
são herdadas sempre da mãe, a linhagem paterna pode ser confirmada pelo exame de uma porção invariante do cromossomo Y, a qual passa
sempre de pai para filho homem. Pois não é que, ao comparar as características
do DNA de Ricardo III com o DNA correspondente de descendentes
da família real, os pesquisadores descobriram que um desses descendentes tem o cromossomo
Y diferente dos demais? Pela análise genealógica, os cientistas concluiram que
essa alteração é consequência de um evento de falsa paternidade, ocorrido em
algum momento ao longo das dezenove gerações que sucederam o rei Eduardo III
desde o século XIV.
Nosso leitor
rabugento, sempre alerta, dá de ombros e comenta com seus botões que isso
também não é nenhuma novidade, porque a história britânica já registrava que
dois outros filhos nascidos fora dos sagrados laços do matrimônio foram
legitimados entre os séculos XIV e XVIII. Mas no caso da descoberta atual, o
rabo da proverbial porca torce um pouco além do habitual. Pois o já sobejamente
celebrado rei Eduardo III teve vários filhos, um dos quais, Edmundo, foi o
bisavô de Ricardo III. Mas a fofoca da época era de que Eduardo III sequer
estivera presente ao nascimento de outro rebento, chamado John, porque esse não
seria seu filho e sim, quem diria, de um açougueiro belga…
Ah, agora
tenho a atenção de todos, né? Pois saibam que, se de fato John não era filho de
Eduardo III, então seus descendentes, que constituiram a dinastia Tudor, não
teriam direito ao trono britânico! Por mera sorte Elizabeth II, hoje rainha da
Inglaterra, é descendente de outro dos filhos de Eduardo III e não do pobre
John que, dizem, se enfurecia toda vez que alguém insinuava ser ele um
bastardo.
Isso tudo
para mostrar para nossos fiéis leitores que a Genética não só é interessante e
útil para a Biologia e a Medicina, mas também pode transformar uma revista com
a marca da poderosa Nature em
sucedânea de um dos maiores sucessos da imprensa brasileira, os “Mexericos da
Candinha”, coluna de fofocas da década de 1950, escrita semanalmente para a Revista do Rádio pelo jornalista Borelli
Filho, e que revelou inúmeros esqueletos dos armários das celebridades da época.
Rafael Linden
sábado, 6 de dezembro de 2014
Tom Jobim e a Era da Banalização
Esta semana completa-se duas décadas da morte de Tom Jobim. O grande compositor
criou melodias inesquecíveis, ao aliar sua formação clássica com uma inspiração
permanente, inquieta, original, coroada com letras arrebatadoras de parceiros
como Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Dolores Duran e outros. Na sua
ausência, a música brasileira empobreceu, incapaz de substituir um gênio
criativo como o mestre Tom.
De seu legado impressionam a riqueza
melódica, a originalidade e a delicadeza das harmonias. Sua ausência é tanto mais sentida quanto mais nos agride a indigência sonora que por aí anda. O leitor
rabugento tem razão quando se tranca na companhia de bem preservadas bolachas
pretas e CDs cuidadosamente escolhidos, componentes de sua coleção raramente
renovada com lançamentos recentes.
Estará vosso cronista não só cronologicamente, mas também, e pior,
metaforicamente velho e intolerante? Esquece-se de que não se pode comparar a contemporaneidade
com tempos idos, já depurados do lixo que sempre polui a cultura do presente? Ou haverá, de fato, alguma tendência macabra de banalização da música
popular?
Pois foi isso que um grupo de cientistas
de Barcelona, liderados por Joan Serrà resolveu investigar, com ferramentas de
processamento de dados e a neutralidade possível. Os pesquisadores usaram
uma base de dados de acesso público chamada The
million song dataset - “conjunto de dados de um milhão de canções” -,
criada por Dan Ellis, da Columbia University. Ellis é um engenheiro e
professor, que se dedica a desenvolver métodos de extração automática da informação contida em sons. Nesta base de dados, ele e seus colegas vem
codificando informação sobre características do som organizado na forma das
melodias de um número enorme de canções populares.
O grupo catalão publicou na revista Scientific Reports sua análise de mais de quatrocentas mil canções compostas nos últimos cinquenta anos, pela
qual concluiu que, embora muitas características musicais tenham permanecido estáveis
ao longo de meio século, os dados demonstram matematicamente uma tendência
progressiva de rarefação de transições de tons, homogeneização de timbres e aumento da proporção de trechos com volume alto, com o passar do tempo. Em
resumo, a música popular ao longo dos últimos cinquenta anos se tornou
progressivamente mais simplória e barulhenta. O rabugento já se levanta da
poltrona, reclinado na qual ouvia placidamente uma sonata de Mozart interpretada por Claudio Arrau, e vocifera contra a platitude deste achado, ora, pipocas, e
precisa de cientista para descobrir o que é óbvio para qualquer um que não seja
surdo? Calma, senhor, perceba que não se trata de comparar Beethoven com Michel
Teló: foram analisadas quatrocentas mil cancões classificadas como música popular. E não é uma opinião – da
qual compartilho com nosso irritadiço e crítico leitor -, e sim uma
demonstração isenta, obtida por critérios estatísticos de absoluta
neutralidade. Se, ainda assim, o rabugento acha pouco, convido-o a procurar na
internet fotos do espanhol Serrà e do inglês Ellis, com o que constatará que
não se trata de vetustos anciãos de cara amarrada. Ao contrário, são mancebos
que parecem perfeitamente capazes de se esbaldar no fim de semana ao som dos
similares locais de beijinhos no ombro…
Então, tudo indica que há, de fato, um
empobrecimento progressivo do conteúdo musical no cancioneiro popular. Mas,
pensando bem, essa trivialização não parece ser restrita à música popular. É bem
possível que estudos semelhantes ao do grupo de Barcelona encontrem, em
outros campos da cultura como a Literatura, Arte Plásticas e até as Ciências,
padrões semelhantes de simplificação acompanhados por aumento do volume com que
os autores apregoam suas próprias obras. Cada vez se faz mais barulho por menos
criatividade e inovação. A cada dia menos se valoriza um Tom Jobim, e mais o
objeto de consumo fácil e imediato. Não há (ainda?) provas científicas de que
esta tendência seja generalizada, muito menos que esta progressão seja intrinsecamente
danosa à história da humanidade. Mas não resta dúvida de que assim se banaliza a cultura, possivelmente a única das criações humanas que não tem
contraindicação.
Talvez por razões semelhantes, outras
coisas também vem se tornando progressivamente triviais. Falta de
educação, desonestidades de todos os tamanhos e matizes, agressões verbais ou
físicas, assassinatos por motivos fúteis. Entre muitas outras obras, o historiador
Eric Hobsbawn publicou livros famosos que retratam períodos sucessivos da
história desde a Revolução Francesa, com os títulos padronizados “A era das
revoluções”, “A era do capital”, “A era dos impérios” e “A era dos extremos”.
Hobsbawn faleceu em 2012, caso contrário poderia se inspirar na falta que nos
faz o Tom Jobim e escrever a continuação da série, agora com o título “A era
da banalização”.
Rafael Linden
domingo, 23 de novembro de 2014
Nostalgia do bem
Vejam como
são as coisas. Eu, aqui, preocupado com a ansiedade da gentil leitora, a se
perguntar quando voltará seu mui amado cronista; e tudo que recebo são recadinhos
do leitor rabugento, regozijando-se com o que pensa ser nossa desistência da
Literatura. Porém, trata-se apenas de uma enxurrada de compromissos profissionais
ao longo do mês, que nos afastaram deste paraíso internáutico, ao qual
retornamos com fé e desassombro.
Isto posto, para
os prezados leitores que já se dedicavam a sublimar sua imensa saudade relendo
crônicas passadas e erigindo um mausoléu imaginário que, é claro, há de ter um
telhado de dar inveja às grandes catedrais, a crônica de hoje é sobre
nostalgia.
Certamente o
rabugento, antes de rabugir, já foi avançadinho, deve ter um filho antenado e
um neto descolado e, cada qual na sua época, todos praticaram ou praticam o nobre
esporte conhecido como menoscabo do passado. Debochando do prazer de seus pais
em ouvir música de tempos idos, o maluco beleza Raul Seixas cantava que “tudo quanto é velho eles botam pr'eu ouvir,
e tanta coisa nova jogam fora sem curtir...” e “...a nostalgia eu tô curtindo sem querer, porque está faltando alguma
coisa acontecer...”. Muito pior, ainda hoje dicionários de língua
portuguesa definem nostalgia como a melancolia do exilado, denotando um estado
mórbido de tristeza.
Curiosamente, a noção de que a
nostalgia dos pais do Raulzito é “do mal” ecoa uma idéía muito antiga. No final
do século XVII, a palavra nostalgia - literalmente a “dor do regresso” - foi
inventada na Suiça para designar um estado depressivo grave e por vezes fatal,
originário de saudades da terra natal. Considerada uma doença psiquiátrica, era
diagnosticada em militares que permaneciam por longos períodos no campo de
batalha ou deslocados em outras paragens da Europa. O tratamento consagrado foi
mandar o soldado de volta para casa, pelo menos por algumas semanas. Esta
concepção de nostalgia, que durou três séculos, foi aos poucos revista,
moderada pela Psicanálise e pela Psicologia, e abrandada para exprimir um sentimento
agridoce sobre memórias prazerosas do passado, na terra natal ou em outro lugar
qualquer.
Viver
exclusivamente de memórias, por melhores que sejam, não é boa idéía e, como se
diz por aí, tudo que é demais faz mal. Deixar-se tomar pela nostalgia pode, em
alguns, levar a estados depressivos e, aí sim, torna-se um grave problema de
saúde mental, o qual deve ser o que os antigos chamavam de nostalgia. Mas atire
a primeira pedra virtual quem, vez por outra, não se põe a pensar como seria
bom voltar a comer aqueles bolinhos que a vovó preparava, ir ao Maracanã apreciar
o futebol brasileiro do tempo em que ganhávamos a semifinal da Copa do Mundo
por 5x2, em vez de perder por 7x1, ou então passar a noite jogando conversa
fora na mesa do Veloso, em Ipanema, vendo a garota passar. E, logo depois,
suspira e volta aos seus afazeres sem maiores consequências. Ou seja, há muita
nostalgia “do bem”. Mas será que faz mesmo bem? Ou simplesmente não faz mal?
Pois a
Neurociência já mostrou que boas lembranças do passado tem efeitos
neuropsicológicos benéficos, particularmente sobre a regulação de emoções e a
adaptação ao estresse. Com base nessas demonstrações, um grupo de pesquisa da Rutgers University, nos EUA, liderado por
Mauricio Delgado, publicou na revista Neuron
um trabalho científico no qual testaram se memórias autobiográficas podem ser
valorizadas ao ponto de se sobrepor a recompensas tangíveis, tais como dinheiro
vivo. Entre parênteses, o Professor Delgado nasceu em São Paulo, emigrou muito
jovem para os EUA e lá fez toda sua carreira. Não duvido que tenha se
interessado por este tema por conta da dificuldade de achar um botequim, em
Nova Jersey, que sirva um pastel como o que era vendido na pastelaria dos
chineses na esquina da São João.
Os
pesquisadores recrutaram um grupo de universitários, de ambos os sexos, que mostraram
ter muitas lembranças da infância, tanto positivas (como viagens de férias) quanto
neutras (como arrumar as malas para essas viagens). Os jovens inicialmente passaram
por exames de Ressonância Magnética Funcional, os quais apontaram as áreas do
cérebro ativadas quando eles, a pedido dos cientistas, rememoravam algumas
daquelas lembranças. Neste experimento, as mesmas áreas cerebrais respondiam
tanto a lembranças positivas quanto a recompensas em dinheiro, mas não a
lembranças neutras. Outros testes mostraram que a atividade cerebral estava
associada a um aumento em emoções positivas, e que se correlacionava, em cada
voluntário, com medidas da chamada resiliência, ou resistência ao estresse.
Mas o mais
bacana do trabalho foi quando os cientistas pediram a cada voluntário para
escolher rememorar uma lembrança, positiva ou neutra, ao passo que lhe era
oferecida uma soma em dinheiro diferente para cada uma das lembranças. Essa
recompensa podia ser maior para uma ou para outra, aleatoriamente, e a
diferença era variável. Pasme o rabugento, o resultado mostrou que o grupo de
participantes chegou a sacrificar quase um terço da recompensa em dinheiro em
favor de rememorar lembranças positivas em vez de neutras. Assim, os cientistas
demonstraram que uma boa lembrança compete favoravelmente com uma recompensa monetária
e, para o bem ou para o mal, tem um valor intrínseco que pode ser simulado por
dinheiro.
Haverá,
entre os inúmeros leitores deste blogue, quem esteja a esfregar as mãos na
expectativa de comentários sarcásticos sobre a relação entre promessas de outrora
e roubalheiras hodiernas, ou por
outro lado se ofenda com a insinuação de que os bolinhos da vovó ou – imaginem!
- as madeleines de Proust possam ser
reduzidas a um vulgar equivalente monetário. Mas cá do telhado afiançamos que
essa história toda só tem a intenção de celebrar o bem que faz uma dose
moderada de nostalgia. Por mais que a alma roqueira do cronista aprecie as
canções do Raulzito, mais ainda se enleva com a canção de Baden Powell e
Vinicius de Moraes, que dizia “feliz o
tempo que passou...tempo tão cheio de recordações...” e “...se um dia esse tempo voltar eu nem quero
pensar no que vai ser até o sol raiar...”. E, para encerrar com a sempre
bem-vinda ironia do destino, resta lembrar que a melodia na qual Raul Seixas
pôs aquela letra que zombava da nostalgia é um plágio absoluto da música "My Baby Left Me”, composta e gravada por Arthur Crudup um quarto de século
antes – isso sim, um primor de nostalgia...
Rafael Linden
sábado, 25 de outubro de 2014
Uma crônica implícita
Para não dizer que o cronista não se pronunciou sobre o andar da carruagem neste país tropical, hoje não tem crônica. Mas, para bom entendedor...
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O CARTUM DO SÉCULO.
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O CARTUM DO SÉCULO.
Em memória do Cabo Nathan Cirillo, guarda de honra do National War Memorial em Ottawa, Canadá, monumento nacional aos soldados canadenses que lutaram na Primeira Guerra Mundial, morto a tiros por um fanático em 23 de outubro de 2014.
Na primeira foto, detalhe do monumento. Na segunda, o cartum de Bruce MacKinnon publicado como editorial do jornal The Chronicle Herald, de Halifax, Nova Scotia, Canadá.
sábado, 18 de outubro de 2014
Pílulas de caca
Ainda que vosso cronista predileto tenha
lá suas opiniões, crenças e mitos políticos prediletos e não se furte ao dever
cívico de manifestá-los em horas e locais apropriados, a cláusula pétrea, de
que tal coisa não se faz no sacrossanto espaço deste blogue, continua a ser plenamente
justificada pela disenteria verbal de que somos vítimas nestes tempos de
campanha eleitoral. No entanto, tudo que se passa no mundo serve de inspiração
e, a propósito, a vida lá fora sempre nos enseja uma boa oportunidade de apelar
para outros eventos entre o quais, como se diz por aí, até mesmo a escatologia “dá
uma crônica”.
Pois não é que o conhecimento científico
da humanidade foi, há poucos dias, enriquecido com o trabalho de um grupo de
cientistas que preconiza o uso de pílulas de fezes congeladas para tratamento
de um tipo particular de infecção intestinal? Volte aqui, cara leitora, porque
é coisa séria. Ou melhor, seriíssima. Para começar, saibam todos que o trabalho
foi publicado no JAMA, a revista de alta qualidade da Associação Médica
Americana, por pesquisadores das Faculdades de Medicina de Harvard e Tel-Aviv, os
quais trabalham em dois dos melhores hospitais do mundo, localizados - sem
trocadilho – na cidade de Boston. Sim, nada disso garante que o trabalho seja
bom, mas continue a ler e verá que tem lógica e é importantíssimo.
A tal infecção intestinal é causada por um
microorganismo que, de cara, já ostenta o ameaçador nome de Clostridium difficile. Seu pacote de
maldades causa uma disenteria gravíssima, que leva os pacientes a usar o
banheiro até 30 vezes por dia e pode ser fatal. É bom que nossa multidão de
ávidos leitores saiba que essa infecção é mais comum quando a flora intestinal
normal – ou seja, as bactérias do bem que todos temos em nossas respeitáveis tripas
- é dizimada por mau uso de antibióticos. Pois é, minha senhora. As bactérias
vivem a competir umas com as outras por sobrevivência e quando as bactérias do
bem morrem, bactérias do mal podem ocupar facilmente os ambientes em que a
natureza lhes oferece alimento e abrigo. Esta é uma das principais razões pelas
quais ninguém deve tomar antibióticos sem orientação médica, muito menos quando
são desnecessários.
Antes de prosseguir, advirto que faço o
possível, mas trata-se de uma matéria difícil de abordar com nossa delicadeza
habitual. Voltando ao assunto, como a tal bactéria do mal é muito resistente
aos antibióticos disponíveis, há alguns anos existe um tratamento baseado na
competição pela sobrevivência. Consiste em introduzir fezes de uma pessoa
saudável no tubo digestivo do paciente, para que bactérias do bem colonizem maciçamente
o intestino e, com isso, derrotem as bactérias do mal. Mas até agora esse
tratamento tinha de ser feito com – tenham paciência – fezes frescas, em geral
de um parente da pessoa doente e, para injetar a poção mágica, era necessária a
introdução de um tubinho vindo, digamos, de lá ou de cá, no tubo digestivo do
paciente. Crianças, por favor não tentem fazer isso em casa.
Então, como este procedimento, além de
difícil de descrever com um mínimo de boa educação, é sujeito a efeitos
adversos e requer ambiente hospitalar, os cientistas inventaram o que só pode
ser descrito como pílulas de cocô. É isso mesmo, cápsulas feitas com o mesmo
material que envolve muitos outros medicamentos, contendo no interior fezes
congeladas de doadores saudáveis, selecionados por critérios rigorosos e
submetidos a diversos exames para garantir que o material seja de primeira, ou
seja, contenha uma flora bacteriana todinha do bem. As cápsulas ficam
congeladas até o uso e, com isso, o tratamento pode ser feito em consultório
médico ou na casa do paciente. Simples assim.
A boa notícia foi que as cápsulas
funcionaram em noventa por cento dos casos testados, mais ou menos a mesma
proporção de pacientes nos quais funciona aquele tratamento complicado! E
nenhum paciente vomitou, apesar de engolir 30 daquelas cápsulas em dois dias. O
leitor rabugento já nos telefonou pelo menos quatro vezes, dizendo que este blogue
está ficando cada dia mais nojento, mas o fato é que se trata de um avanço no
tratamento de uma infecção grave e potencialmente fatal. E antes que o Juquinha
comece a guardar o que não deve em sacos plásticos no congelador da geladeira
da avó, deve-se notar que os pesquisadores foram cautelosos e advertiram que
será necessário confirmar os resultados em estudos mais amplos, além de verificar
se não haverá efeitos adversos a longo prazo.
Ufa, diz a nossa querida leitora, aliviada
porque pensa que acabou a tortura. Mas ainda resta o momento nostalgia. Há uns
cinquenta anos, o músico e comediante Juca Chaves tinha, entre suas máximas,
uma pérola de sabedoria que dizia ser “melhor dividir com os amigos um prato de
morangos do que comer sozinho um prato de me*!@”. Se tudo correr bem, haverá pelo
menos uma circunstância em que os morangos ficarão em segundo lugar.
Rafael
Linden
domingo, 21 de setembro de 2014
Sim, senhora, daqui a cem anos
Vejo nos olhos
marejados da gentil leitora a emoção de reencontrar este humilde cronista,
depois de quatro interminávei semanas. Vossa fênix ressurge incólume das cinzas
de um mês atulhado de compromissos inadiáveis, para deleite dos fãs e, é claro,
para o inevitável muxoxo do notório resmungão que nos persegue desde sempre.
Estavam com saudades? Aguardavam ansiosos a última insanidade a ganhar a nuvem,
diretamente do borbulhante e desconexo cérebro deste que vos escreve? Podia ser
pior, acreditem. Imaginem-se a descobrir que o próximo livro de seu escritor
predileto – escritor mesmo, não eu – estará à sua disposição apenas em 2114.
Sim, senhora, daqui a cem anos.
Ha, ha, coisa nenhuma. Pois em agosto de
2014, Katie Paterson, uma artista escocesa residente em Berlim, deu a largada
para seu projeto que consiste em, a cada ano, encomendar um livro inédito a
um escritor de renome, até um total de cem escritores. Parece uma mera proposta editorial que,
eventualmente, será assumida sucessivamente por empresários mais jovens ou pelos
descendentes da moça. Mas não, isso seria trivial. O busílis – lembram do
busílis? - é que esses livros serão trancafiados num espaço especialmente
reservado em uma biblioteca pública na Noruega, onde ficarão expostos, fechadinhos
e proibidos para leitura até 2114, quando finalmente serão liberados para os
leitores. Sim, senhora, daqui a cem anos.
Livros que só serão lidos daqui a cem
anos, artista nascida na Escócia, residente na Alemanha, projeto na Noruega.
Viram no que deu a União Européia? Coisa de doido, né? De cara, há quem diga
que em pouco tempo os espertofones, tabletes, realidades virtuais e o escambau
eletrônico tornarão obsoletos não só o livro, mas qualquer coisa escrita em
papel. Já outros lamentam o crescente desinteresse da galera pela respectiva língua
pátria a começar pelas vogais, ao que parece condenadas ao ostracismo – por
falar nisso, vcs td blz? Sem falar numa frase que não existia há algumas
décadas e se tornou comum na mudernidade
– pô, cara, não tenho tempo pra nada, não leio um livro desde que entrei na
faculdade! Apresso-me a esclarecer que os compromissos inadiáveis que
mantiveram o cronista nas sombras por um mês incluiam, principalmente, escrever
projetos. Na língua pátria. E, raios me partam, com versão em inglês também.
Mas, voltando ao que interessa: sim,
senhora, daqui a cem anos. Coisa de doido. Ou não?
Pois a escocesa, que é muito conceituada por
seus projetos visuais meio esquisitos para o meu gosto pessoal, conquistou como
primeira escritora de seu ambicioso projeto nada menos do que Margaret Atwood,
uma canadense que, aos 75 anos de idade, já escreveu dezenas de livros, ganhou
mais de 55 prêmios - entre os quais o Booker Prize, um dos mais prestigiosos da
literatura mundial - e foi homenageada por dezenas de universidades, incluindo
Harvard. Como se não bastasse, Margaret inventou uma engenhoca robótica para
que um autor possa autografar livros e conversar via tabletes com leitores à
distância. Há controvérsias sobre essa invenção, mas não se pode acusar a
escritora de saudosismo ou tecnofobia. Ainda assim, em lugar de arquivar seu
livro na nuvem, ela fez questão de comprar papel especial de arquivo para que seus originais não deteriorem com o tempo.
A esta altura, o leitor rabugento resmunga
que não apenas é coisa de doido, mas a loucura atravessou o Oceano Atlântico. Será?
Aqui no telhado, por princípio não posso
me dar ao luxo de estigmatizar coisa alguma. Então, pensando bem, esse projeto é
muito simpático. Minha própria carreira como cientista sempre foi voltada para
pesquisa fundamental, aquela que contribui para o conhecimento e não tem prazo
para virar um produto. Na história da Ciência, dessa categoria de pesquisa saiu
muito que não valia nada ou foi provado falso ao longo do tempo. Mas também
inúmeros conceitos formulados há décadas, séculos, são válidos ainda hoje e o
serão até prova em contrário. Da mesma forma, ao contrário do festival de
porcarias de consumo imediato que empesteia as livrarias modernas e mal dá
espaço para a literatura verdadeira, obras escritas há décadas, séculos e
milênios ainda hoje são lidas, admiradas ou veneradas. Portanto, não há nada estranho
na previsão de um público para os exemplares do projeto, que ganhou o título de
“biblioteca do futuro”.
O filósofo George Santayana dizia que
“quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo”. De fato, depois de
tanto tempo de civilização, é cada dia mais difícil inventar algo de novo e quem
aspira à originalidade precisa conhecer o legado de seus antecessores. De outra
forma, como saber se o que sai de sua cabeça ou de suas mãos é de fato
original? Ainda cética, pergunta-se então a gentil leitora, se não é um contrasenso
encomendar e guardar livros em papel, sem saber se serão lidos, em plena era da
proteção das árvores do planeta. Nisso a escocesa pensou, e para produzir o papel
a ser usado na antologia estão sendo plantadas mil árvores em um bosque nas
cercanias de Oslo. O resmungão pergunta “e a tinta?”. Não sei.
E se de fato até lá se concretizar a
profecia do fim dos livros em papel – na qual, entristecido e preventivamente
nostálgico, lamento acreditar -, o que será do projeto? Há pouco tempo, a voz
de Thomas Edison, gravada no fonógrafo que ele inventou em 1878 foi recuperada
por cientistas norte-americanos. Não resta dúvida de que, em 2114, haverá
tecnologia suficiente para transpor os textos deste projeto para qualquer meio
que venha a substituir o que será então “aquela tralha obsoleta de
espertofones, tabletes e computadores de outrora, que estão expostos no museu que
fica perto da casa do Zé naquele asteróidezinho”. Sim, senhora, daqui a cem
anos.
O mais interessante neste projeto é exatamente
o mistério insondável. Por mais que autores como Margaret Atwood e outros
luminares que venham a ser convidados para escrever seus livros tenham
seguidores fiéis, gente que leu todos os seus livros, é intrigante imaginar o
conteúdo desta coleção. Esse mistério é muito peculiar, porque é provável que
nenhum de nós, escritor e leitores deste blogue, leremos esta antologia. Bem,
sabe-se lá...Seja como for, isso já justifica que se chame a “biblioteca do
futuro” de um projeto de arte, e não apenas uma empreitada editorial.
No filme que Margaret Atwood gravou sobre
o projeto, e justificando que o contrato obviamente impede a divulgação de
qualquer informação sobre o conteúdo de sua obra, a escritora comentou,
candidamente: “É muito otimismo acreditar que, daqui a cem anos, haverá
pessoas, que estas pessoas ainda lerão, que estas pessoas estarão interessadas
em abrir as caixas e ler os livros, e que nós escritores serermos capazes de
nos comunicar com estas pessoas”.
Sim, senhora, daqui a cem anos. A pergunta
que não quer calar é se, do jeito que andam as coisas, ainda haverá pessoas. Mas, cá para nós, a aventura
humana e as habilidades que nossa espécie desenvolve ao longo de sua história
só tem valor quando miram o futuro.
Rafael Linden
domingo, 24 de agosto de 2014
Amarelinha O da jogo
QUADRO DE ORIENTAÇÃO
Hoje, a querida leitora e o estimado, embora rabugento, leitor, que nunca perdem este blogue, estão convidados a brincar. O acúmulo de trabalho, imposto pelo batente que remunera este humilde cronista, nos impede de tamborilar idéias insanas e correlações esdrúxulas. No entanto, para não deixá-los a ver navios, aí vai a notícia da semana, a qual deve ser lida respeitando religiosamente a ordem indicada para ler as linhas numeradas.
Ordem de leitura:
11, 21, 7, 1, 12, 17, 24, 29, 9, 5, 14, 33, 27, 8, 30, 36, 18, 28, 39, 10, 23, 13, 31, 25, 6, 4, 19, 34, 37, 2, 3, 26, 22, 15, 35, 32, 20, 16, 38
1. Feira,
2. de
3. Cronópios
4. Cortázar,
5. mais
6. Julio
7. Terça-
8. para
9. celebramos
10. anos
11. Parabéns,
12. dia
13. nascimento
14. uma
15. Famas
16. da
17. 26
18. latino-
19. autor
20. Jogo
21. Hermanos!
22. de
23. do
24. de
25. escritor
26. e
27. histórica
28. americana:
29. Agosto
30. a
31. do
32. do
33. data
34. de
35. e
36. Literatura
37. Histórias
38. Amarelinha.
39. 100
E até breve, pois não há mal que sempre dure, nem bem que nunca chegue.
Hoje, a querida leitora e o estimado, embora rabugento, leitor, que nunca perdem este blogue, estão convidados a brincar. O acúmulo de trabalho, imposto pelo batente que remunera este humilde cronista, nos impede de tamborilar idéias insanas e correlações esdrúxulas. No entanto, para não deixá-los a ver navios, aí vai a notícia da semana, a qual deve ser lida respeitando religiosamente a ordem indicada para ler as linhas numeradas.
Ordem de leitura:
11, 21, 7, 1, 12, 17, 24, 29, 9, 5, 14, 33, 27, 8, 30, 36, 18, 28, 39, 10, 23, 13, 31, 25, 6, 4, 19, 34, 37, 2, 3, 26, 22, 15, 35, 32, 20, 16, 38
1. Feira,
2. de
3. Cronópios
4. Cortázar,
5. mais
6. Julio
7. Terça-
8. para
9. celebramos
10. anos
11. Parabéns,
12. dia
13. nascimento
14. uma
15. Famas
16. da
17. 26
18. latino-
19. autor
20. Jogo
21. Hermanos!
22. de
23. do
24. de
25. escritor
26. e
27. histórica
28. americana:
29. Agosto
30. a
31. do
32. do
33. data
34. de
35. e
36. Literatura
37. Histórias
38. Amarelinha.
39. 100
E até breve, pois não há mal que sempre dure, nem bem que nunca chegue.
Rafael Linden
sábado, 12 de julho de 2014
Esta Copa do Mundo e todas as outras
Brasil e
Holanda, Alemanha e Argentina. Os dois últimos jogos
da Copa do Mundo de Futebol de 2014. No rescaldo da fragorosa derrota da seleção
brasileira - não confundir com Brasil - para a seleção alemã - não confundir
com Alemanha, muito menos com a Alemanha das Divisões Panzer, como fez de forma
canhestra e deplorável uma coluna de um grande jornal do Rio de Janeiro -, o jornalista
e escritor Xico Sá lembrou, em um programa de televisão, a abertura de um
documentário de Geneton Moraes Neto sobre a Copa do Mundo de 1950. No filme, o
ator Paulo Cesar Pereio recita versos da “Seção 18” da “Canção de mim mesmo” do
poeta norte-americano Walt Whitman, publicada pela primeira vez em 1855.
Hoje não tem
crônica. Para os leitores deste blog que se interessam por futebol e pela vida
em geral – os quais, insisto em lembrar, são duas coisas diferentes – fica, de presente,
a Seção 18:
“Com música poderosa eu venho, com minhas cornetas e tambores,
Não toco marchas para os vitoriosos conhecidos, toco marchas para os
conquistados e assassinados.
Ouviste dizer que é bom ganhar o dia?
Digo que também é bom cair; batalhas são perdidas no mesmo espírito em
que são ganhas.
Bato e alardeio pelos mortos,
Eu sopro através de minha embocadura, bem alto e alegremente para eles.
Vivas àqueles que perderam!
E para aqueles cujas naus de guerra naufragaram no oceano!
E para aqueles que se afogaram no oceano!
E para todos os generais derrotados em suas empresas, e todos os heróis
abatidos!
E os incontáveis heróis desconhecidos, tão grandes quanto os grandes e
aclamados heróis!”
(Tradução
por Luciano Alves Meira, 2005)
Rafael Linden
domingo, 29 de junho de 2014
O vampiro de Lagoa Nova
O cronista
escreve em plena Copa do Mundo e, naturalmente, os leitores pensam que o
personagem do título só pode ser um uruguaio, praticante do nobre esporte
bretão que, na década de sessenta, o patriótico professor Hernani, do Curso Pré-Vestibular
Miguel Couto, gostava de chamar de ludopédio ou, pior ainda, balípodo. O jogador, severamente punido por agressão pela entidade organizadora do torneio,
declarou-se inocente e garantiu que, no calor da partida, desequilibrou-se e,
por mero acaso, caiu de boca no ombro de um zagueiro italiano, deixando neste
uma profunda impressão dentária. Aliás, foi a terceira vez em sua carreira que
o atacante, em pleno jogo, aterrissou nas suculentas carnes de um adversário. Um
recorde entre profissionais, embora amplamente difundido no jardim de infância.
E para quem ainda não está careca de saber, Lagoa Nova é o bairro de Natal, no
Rio Grande do Norte, onde fica o estádio no qual ocorreu o infausto
acontecimento.
Acima adverti,
porém, que os leitores pensam ser o
protagonista um jogador de futebol. Ledo engano. O personagem principal é a
borboleta de Lorenz. Quem? Ora, no clima atual de fervor patriótico
generalizado que só mesmo uma boa prorrogação com disputa em pênaltis consegue
arrancar das entranhas deste povo sofrido, é compreensível que o atleta Luisito
Suárez se torne muito mais famoso do que o meteorologista e matemático
norte-americano Edward Lorenz. Esse último, ao que parece, não mordeu ninguém e
é conhecido pelo chamado “efeito borboleta”.
Há cinquenta
anos Lorenz, que desenvolvia modelos matemáticos para usar em meteorologia, estudava
os efeitos que uma pequena diferença em uma única variável poderia causar no
resultado de sistemas de equações usadas para previsão do tempo. Isso se traduz,
mais ou menos, como o efeito que uma alteração, digamos, de um décimo de grau
de temperatura na floresta amazônica pode causar no volume de chuva no sul do país.
Os estudos de Lorenz foram incorporados na chamada teoria do caos, que trata de
sistemas complexos e dinâmicos, ou seja coisas muito complicadas e que, às
vezes, mudam muito por causa de uma variação aparentemente irrisória em um dos
fatores que contribuem para o comportamento do sistema. Mal comparando e
aproveitando o centenário da primeira guerra mundial, trata-se de algo
semelhante ao efeito que um único tiro, que acertou um arquiduque, causou na
taxa de mortalidade e na geografia de toda a Europa.
E a
borboleta? O digníssimo lepidóptero entrou na história por causa de uma piadinha.
Conta-se que Lorenz, ocupado com outros afazeres, deixou de responder aos
apelos dos organizadores de uma conferência para enviar o título de sua
palestra. Na última hora um deles, para representar aquela coisa toda que
o matemático descobriu, inventou o título “Será o bater das asas de uma borboleta no
Brasil capaz de disparar um tornado no Texas?”. Daí surgiu o apelido “efeito
borboleta”. Bonitinho, né? Cientistas são mesmo umas gracinhas…
E o que tem
Lorenz a ver com o vampiro de Lagoa Nova? Ignora-se a razão do hábito esdrúxulo
do atacante uruguaio, aos 25 anos de idade e ganhando aquele salário
astronômico. Sem dúvida, depois de sapecar um ósculo cinematográfico na careca
do fisioterapeuta que o colocou em campo, em plena forma, apenas quatro semanas
depois de uma cirurgia no joelho, Luisito deve reservar várias beijocas para o
psicólogo ou psiquiatra que, eventualmente, venha a livrá-lo deste insólito canibalismo.
Mas talvez nunca se esclareça a causa propriamente dita do evento recente. Por
isso, aqui fica a hipótese, firmemente baseada no efeito borboleta, que ouvi de
um barbeiro do salão onde minha definhante cabeleira é, de tempos em tempos, recauchutada
com tesouradas certeiras. Ponderou o fígaro, embora em outras palavras, que o
artilheiro da seleção uruguaia é deficiente auditivo e, ao ouvir mal um
celebrado atentado musical cometido pela portadora de um nome destinado a
exaltar seus próprios dotes calipígios, concluiu que, no país do futebol,
mordidinha no ombro faz sucesso e dá prestígio.
Ou seja,
mais uma dessas musiquinhas infames, com que somos regularmente torturados por
compositores irresponsáveis e pseudoartistas de meia tigela, provocou um
incidente de grandes proporções, assistido ao vivo e em cores por dois bilhões
de pessoas, encerrado com uma punição draconiana ao dentuço e, entre outras
pérolas, ainda levou uma centenária publicação britânica de centro-esquerda a deixar
de lado seu tradicional conteúdo político para relatar que é cerca de duas mil
vezes maior o risco de um cidadão ser mordido por um jogador uruguaio do que
por um tubarão.
Rafael Linden
domingo, 8 de junho de 2014
Ao pé da letra
Em décadas
de docência universitária, este humilde cronista já alternou mais altos e
baixos do que as montanhas russas da Disneylândia. Um dos baixos que nos
assombra é a avaliação de provas. Corrigir dezenas de respostas à mesma
pergunta, tarefa que se repete por várias questões a cada prova, é capaz de
provocar uma lesão cerebral de
esforço repetitivo. Desgosto adicional é a crescente ameaça à integridade da
língua pátria, pelos atentados cometidos por alguns dos estudantes que teriam
sido selecionados, vejam só, pela proficiência nas lições aprendidas ao longo
de sua educação pré-universitária.
Alguns
colegas da egrégia Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil já murmuram
entre dentes “Fez carreira acadêmica porque quis...”. Contenham-se doutores
pois, como diria Bento Carneiro - o vampiro brasileiro, personagem do humorista
Chico Anísio -, “minha vingança será maligna!”. Pois outro motivo de calafrios
é a caligrafia. É um martírio decifrar a letra de muitos estudantes, vários dos
quais, por casualidade, são de Medicina. Ainda assim podem sossegar, pois o
tema desta crônica não é a “letra de médico”, e sim, a escrita à mão em geral.
Antigamente,
cadernos de caligrafia eram obrigatórios na escola, até que foram condenados por
novas correntes pedagógicas, mesmo porque, no futuro, tudo será escrito nos
teclados de computadores. Até entre os que defendem seu uso, há controvérsia
sobre quando devem ser introduzidos e por quanto tempo os professores devem
zelar pela qualidade estética da escrita dos alunos. E daí?
Não apenas
um calígrafo japonês, mas muita gente por aí deve apreciar uma letra desenhada
com apuro. Com frequência, tecnófilos contumazes decoram seus textos ou
diapositivos com fontes como Brush Script, Lucida Handwriting, Snell
Roundabout e outras belezinhas desenvolvidas por designers gráficos para simular escrita
manual. Mas é improvável que a mecanização de letras cursivas reproduza a
infinita variedade de caligrafias. Assim espero, ecoando a professora Ermelina
Tomacheski, da PUC do Paraná, que teria dito “...a letra também é um reflexo da personalidade e da liberdade de
expressão, ou seja, cada um desenvolve seu próprio estilo...” (sic). Tempos
atrás, ouvia-se muito “fulano tem uma letra muito bonita”, isso antes da letra
do fulano se tornar Arial 12pt. E exames grafoscópicos – que não se deve
confundir com a Grafologia pseudocientífica – são úteis para detectar rasuras e
falsificações de textos manuscritos.
Entretanto,
o busílis – olha o busílis aí de novo, gente! - é se, afinal, escrever à mão se
justifica perante a difusão dos computadores, tabletes e espertofones. Sobrou
alguma utilidade, além da estética e da piedade para com os leitores de
manuscritos manuscritos? Pois este
foi o assunto de uma reportagem do New
York Times, cujo logotipo ostenta uma elegantíssima fonte derivada de
letras góticas a qual, reza o Google,
corresponde a Old English ou Temporal. O texto de Maria Konnikova,
intitulado “O que se perde com o desaparecimento da escrita manual”, indica que
se perde muito.
Senão,
vejamos. Há alguns anos, a professora Karin James, da Universidade de Indiana, recrutou
para um teste quinze crianças de quatro a cinco anos de idade, ainda não
alfabetizadas. Não, Meritíssimo, não foram sequestradas, os pais concordaram em
levar filhos e filhas ao laboratório e ficaram felizes em contribuir para
entender mecanismos de aprendizado da leitura. Tudo bem? Então, tá. A pesquisadora pediu a cada
criança para olhar a imagem de uma letra do alfabeto e copiá-la, várias vezes, de
três formas distintas: à mão livre, traçando por cima de um modelo, ou
apertando uma tecla com o desenho da letra. Fez o mesmo para formas neutras como
círculos ou quadrados. Depois do treinamento, registrou imagens de atividade do
cérebro das crianças, por uma técnica chamada Ressonância Magnética Funcional.
Sim, Meritíssimo, as crianças toparam tudo de livre e espontânea vontade, e
adoraram a brincadeira.
As imagens
cerebrais foram feitas enquanto as crianças olhavam para letras treinadas,
letras não treinadas ou formas neutras. Não foi surpresa ver que a prática de
desenhar letras provocou atividade mais intensa que as formas neutras em
regiões cerebrais sabidamente envolvidas na leitura. Mas, o mais interessante
foi que estas partes do cérebro foram ainda mais ativadas pela observação das
letras que a criança tinha desenhado à mão livre, do que das letras traçadas
sobre um modelo ou tecladas num computador.
A
interpretação da doutora James se baseou em estudos do norte-americano Michael
Posner, segundo os quais a percepção de variações na forma com que uma letra
aparece para uma criança facilitaria seu reconhecimento independente dos
detalhes da caligrafia. Ao escrever repetidamente uma letra, uma criança ainda
não alfabetizada certamente produz múltiplas variações. Isso seria vantajoso
para fixar o aprendizado daquela letra, quando comparado ao traçado sobre um modelo
ou, ainda mais, o apertar de uma tecla no computador.
A esta
altura, não é necessário ser um renomado especialista ou adepto fervoroso da
chamada Escola Construtivista para reconhecer que a antiga prática de obrigar
crianças a treinar caligrafia padronizada não ajuda e poderia até atrapalhar o
aprendizado, por reduzir a margem de variação na escrita manual. Mas é só isso?
Não, tem mais.
A professora
Virginia Berninger, da Universidade de Washington, vem há anos mostrando que
escrever à mão com letras cursivas ou letras de imprensa, ou ainda usar
teclados de computador, ativam regiões distintas do cérebro; que crianças que
escrevem à mão expressam mais idéias do que as que usam os outros meios; e que,
quando pediu a crianças em torno dos 10 anos de idade sugestões de idéias para
uma redação, as que escreviam melhor mostraram, na Ressonância Funcional,
ativação mais intensa nas áreas cerebrais associadas a memória, leitura e
escrita. Ponto para a boa escrita manual.
E mais, a
revista Psychological Science
publicou um artigo dos pesquisadores Pam Mueller e Daniel Oppenheimer, os quais
compararam, em adultos jovens, os benefícios de anotações feitas à mão ou em um
computador. Sessenta e cinco estudantes da Universidade de Princeton, de ambos
os sexos, assistiram a palestras gravadas e tomaram suas notas como estão
habituados a faze-lo em aula. Depois, responderam a dois tipos de perguntas -
factuais ou conceituais - que diferem por testar a memorização de fatos
relatados nas palestras ou sua concatenação em idéias abrangentes.
Os
estudantes que usaram computadores tomaram notas mais extensas, geralmente
limitadas à reprodução ipsis literis
de frases ou dados, enquanto as anotações à mão livre, embora menos extensas,
foram mais variadas e menos coincidentes com a transcrição exata das palavras do
palestrante. Curiosamente, essa diferença persistiu quando eles foram instruídos
a não fazer anotações ipsis literis! Nos testes, os anotadores
à mão livre obtiveram resultados melhores dos que os tecladistas nas perguntas
conceituais e, quando o exame foi feito depois de um tempo para estudar as
anotações, ainda assim os anotadores à mão livre se sairam melhor tanto nos
testes conceituais quanto, surpreendentemente, nos factuais. Ou seja, anotações
à mão livre favoreceram o aprendizado dos conceitos, quando comparados ao uso
dos computadores. Neste estudo não havia correio eletrônico, mensagens de texto
ou qualquer outra interferência internáutica que pudesse explicar o relativo
fracasso dos tecladistas. Tudo parece indicar a superioridade das anotações à
mão livre para aprofundamento do aprendizado.
É possível
que quem faz anotações mais concisas e conceituais no computador tenha
desempenho tão bom quanto, ou ainda melhor do que os que escrevem à mão. Mas, a
julgar pela manutenção de anotações ipsis
literis mesmo quando instruídos a não faze-lo, a mecanização da escrita é acompanhada
por vícios prejudiciais. Estão todos convencidos? Não? Nem eu por completo,
ainda. Mas a gentil leitora há de convir que os resultados de estudos
científicos estão na contramão da idéia, muito difundida, de que não há mal em
deixar a escrita à mão desaparecer no turbilhão da eletrônica. Há fortes
indícios de que lápis e papel ainda são úteis pelo menos até a adolescência
tardia e, provavelmente, muito além dos bancos universitários.
Mas, perguntará
o nosso conhecido leitor rabugento, o que tem isso a ver com a caligrafia? Pois
saibam que, há cerca de dois anos, um inquérito encomendado por uma empresa
britânica constatou que o tempo decorrido desde a última vez que um ingles
escreveu à mão livre foi, em média, de seis semanas, e um terço dos entrevistados
não precisou escrever nada de forma “adequada” por mais de seis meses. Pior, um
em cada três entrevistados confessou que não entende suas próprias anotações à
mão livre. Agora, imaginem o bom humor de um professor a avaliar várias dezenas
de provas manuscritas...
A
computorréia chegou para ficar e a tendência de trocar a escrita manual pela
eletrônica é inexorável. A não ser, é claro, quando falta luz e a bateria
reserva se esgota. Antes que o rabugento pondere que na falta de luz não se
escreve nem à mão, lembro que também falta luz durante o dia. Mas isso não é
tudo. O cérebro humano vem evoluindo há mais de dois milhões de anos, a chamada
proto-escrita já tem uns dez mil de idade e a escrita propriamente dita, uns
cinco a seis mil. Alguma pressão evolutiva há de ter tornado essas três
histórias congruentes, e muitas gerações ainda passarão antes que desapareçam
os benefícios neurológicos da escrita manual. Se há de fato vantagens em
escrever à mão, há também vantagem em conseguir ler, pelo menos, as próprias
anotações.
Vosso
cronista predileto ainda acha que se deve cuidar com carinho da qualidade da
caligrafia das crianças e jovens, no mínimo de sua legibilidade sem,
naturalmente, retornar aos métodos draconianos da velha escola. Recentemente
uma amiga, preocupada com o desprezo do filho de seis anos e meio por melhorar
a qualidade da própria letra, escreveu uma mesma palavra de duas formas, com
letra caprichada e em garranchos ilegíveis e surpreendeu a criança ao lhe mostrar
que era a mesma coisa escrita das duas formas. Ainda é cedo para saber o quanto
isso vai influenciar o guri, mas pode ser uma boa estratégia.
Rafael Linden
P.S.: Sim, senhora, tudo isso foi escrito no
teclado de um computador. Mas, como os leitores deste blog bem o sabem, o autor
não tem mais jeito.
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