Em décadas
de docência universitária, este humilde cronista já alternou mais altos e
baixos do que as montanhas russas da Disneylândia. Um dos baixos que nos
assombra é a avaliação de provas. Corrigir dezenas de respostas à mesma
pergunta, tarefa que se repete por várias questões a cada prova, é capaz de
provocar uma lesão cerebral de
esforço repetitivo. Desgosto adicional é a crescente ameaça à integridade da
língua pátria, pelos atentados cometidos por alguns dos estudantes que teriam
sido selecionados, vejam só, pela proficiência nas lições aprendidas ao longo
de sua educação pré-universitária.
Alguns
colegas da egrégia Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil já murmuram
entre dentes “Fez carreira acadêmica porque quis...”. Contenham-se doutores
pois, como diria Bento Carneiro - o vampiro brasileiro, personagem do humorista
Chico Anísio -, “minha vingança será maligna!”. Pois outro motivo de calafrios
é a caligrafia. É um martírio decifrar a letra de muitos estudantes, vários dos
quais, por casualidade, são de Medicina. Ainda assim podem sossegar, pois o
tema desta crônica não é a “letra de médico”, e sim, a escrita à mão em geral.
Antigamente,
cadernos de caligrafia eram obrigatórios na escola, até que foram condenados por
novas correntes pedagógicas, mesmo porque, no futuro, tudo será escrito nos
teclados de computadores. Até entre os que defendem seu uso, há controvérsia
sobre quando devem ser introduzidos e por quanto tempo os professores devem
zelar pela qualidade estética da escrita dos alunos. E daí?
Não apenas
um calígrafo japonês, mas muita gente por aí deve apreciar uma letra desenhada
com apuro. Com frequência, tecnófilos contumazes decoram seus textos ou
diapositivos com fontes como Brush Script, Lucida Handwriting, Snell
Roundabout e outras belezinhas desenvolvidas por designers gráficos para simular escrita
manual. Mas é improvável que a mecanização de letras cursivas reproduza a
infinita variedade de caligrafias. Assim espero, ecoando a professora Ermelina
Tomacheski, da PUC do Paraná, que teria dito “...a letra também é um reflexo da personalidade e da liberdade de
expressão, ou seja, cada um desenvolve seu próprio estilo...” (sic). Tempos
atrás, ouvia-se muito “fulano tem uma letra muito bonita”, isso antes da letra
do fulano se tornar Arial 12pt. E exames grafoscópicos – que não se deve
confundir com a Grafologia pseudocientífica – são úteis para detectar rasuras e
falsificações de textos manuscritos.
Entretanto,
o busílis – olha o busílis aí de novo, gente! - é se, afinal, escrever à mão se
justifica perante a difusão dos computadores, tabletes e espertofones. Sobrou
alguma utilidade, além da estética e da piedade para com os leitores de
manuscritos manuscritos? Pois este
foi o assunto de uma reportagem do New
York Times, cujo logotipo ostenta uma elegantíssima fonte derivada de
letras góticas a qual, reza o Google,
corresponde a Old English ou Temporal. O texto de Maria Konnikova,
intitulado “O que se perde com o desaparecimento da escrita manual”, indica que
se perde muito.
Senão,
vejamos. Há alguns anos, a professora Karin James, da Universidade de Indiana, recrutou
para um teste quinze crianças de quatro a cinco anos de idade, ainda não
alfabetizadas. Não, Meritíssimo, não foram sequestradas, os pais concordaram em
levar filhos e filhas ao laboratório e ficaram felizes em contribuir para
entender mecanismos de aprendizado da leitura. Tudo bem? Então, tá. A pesquisadora pediu a cada
criança para olhar a imagem de uma letra do alfabeto e copiá-la, várias vezes, de
três formas distintas: à mão livre, traçando por cima de um modelo, ou
apertando uma tecla com o desenho da letra. Fez o mesmo para formas neutras como
círculos ou quadrados. Depois do treinamento, registrou imagens de atividade do
cérebro das crianças, por uma técnica chamada Ressonância Magnética Funcional.
Sim, Meritíssimo, as crianças toparam tudo de livre e espontânea vontade, e
adoraram a brincadeira.
As imagens
cerebrais foram feitas enquanto as crianças olhavam para letras treinadas,
letras não treinadas ou formas neutras. Não foi surpresa ver que a prática de
desenhar letras provocou atividade mais intensa que as formas neutras em
regiões cerebrais sabidamente envolvidas na leitura. Mas, o mais interessante
foi que estas partes do cérebro foram ainda mais ativadas pela observação das
letras que a criança tinha desenhado à mão livre, do que das letras traçadas
sobre um modelo ou tecladas num computador.
A
interpretação da doutora James se baseou em estudos do norte-americano Michael
Posner, segundo os quais a percepção de variações na forma com que uma letra
aparece para uma criança facilitaria seu reconhecimento independente dos
detalhes da caligrafia. Ao escrever repetidamente uma letra, uma criança ainda
não alfabetizada certamente produz múltiplas variações. Isso seria vantajoso
para fixar o aprendizado daquela letra, quando comparado ao traçado sobre um modelo
ou, ainda mais, o apertar de uma tecla no computador.
A esta
altura, não é necessário ser um renomado especialista ou adepto fervoroso da
chamada Escola Construtivista para reconhecer que a antiga prática de obrigar
crianças a treinar caligrafia padronizada não ajuda e poderia até atrapalhar o
aprendizado, por reduzir a margem de variação na escrita manual. Mas é só isso?
Não, tem mais.
A professora
Virginia Berninger, da Universidade de Washington, vem há anos mostrando que
escrever à mão com letras cursivas ou letras de imprensa, ou ainda usar
teclados de computador, ativam regiões distintas do cérebro; que crianças que
escrevem à mão expressam mais idéias do que as que usam os outros meios; e que,
quando pediu a crianças em torno dos 10 anos de idade sugestões de idéias para
uma redação, as que escreviam melhor mostraram, na Ressonância Funcional,
ativação mais intensa nas áreas cerebrais associadas a memória, leitura e
escrita. Ponto para a boa escrita manual.
E mais, a
revista Psychological Science
publicou um artigo dos pesquisadores Pam Mueller e Daniel Oppenheimer, os quais
compararam, em adultos jovens, os benefícios de anotações feitas à mão ou em um
computador. Sessenta e cinco estudantes da Universidade de Princeton, de ambos
os sexos, assistiram a palestras gravadas e tomaram suas notas como estão
habituados a faze-lo em aula. Depois, responderam a dois tipos de perguntas -
factuais ou conceituais - que diferem por testar a memorização de fatos
relatados nas palestras ou sua concatenação em idéias abrangentes.
Os
estudantes que usaram computadores tomaram notas mais extensas, geralmente
limitadas à reprodução ipsis literis
de frases ou dados, enquanto as anotações à mão livre, embora menos extensas,
foram mais variadas e menos coincidentes com a transcrição exata das palavras do
palestrante. Curiosamente, essa diferença persistiu quando eles foram instruídos
a não fazer anotações ipsis literis! Nos testes, os anotadores
à mão livre obtiveram resultados melhores dos que os tecladistas nas perguntas
conceituais e, quando o exame foi feito depois de um tempo para estudar as
anotações, ainda assim os anotadores à mão livre se sairam melhor tanto nos
testes conceituais quanto, surpreendentemente, nos factuais. Ou seja, anotações
à mão livre favoreceram o aprendizado dos conceitos, quando comparados ao uso
dos computadores. Neste estudo não havia correio eletrônico, mensagens de texto
ou qualquer outra interferência internáutica que pudesse explicar o relativo
fracasso dos tecladistas. Tudo parece indicar a superioridade das anotações à
mão livre para aprofundamento do aprendizado.
É possível
que quem faz anotações mais concisas e conceituais no computador tenha
desempenho tão bom quanto, ou ainda melhor do que os que escrevem à mão. Mas, a
julgar pela manutenção de anotações ipsis
literis mesmo quando instruídos a não faze-lo, a mecanização da escrita é acompanhada
por vícios prejudiciais. Estão todos convencidos? Não? Nem eu por completo,
ainda. Mas a gentil leitora há de convir que os resultados de estudos
científicos estão na contramão da idéia, muito difundida, de que não há mal em
deixar a escrita à mão desaparecer no turbilhão da eletrônica. Há fortes
indícios de que lápis e papel ainda são úteis pelo menos até a adolescência
tardia e, provavelmente, muito além dos bancos universitários.
Mas, perguntará
o nosso conhecido leitor rabugento, o que tem isso a ver com a caligrafia? Pois
saibam que, há cerca de dois anos, um inquérito encomendado por uma empresa
britânica constatou que o tempo decorrido desde a última vez que um ingles
escreveu à mão livre foi, em média, de seis semanas, e um terço dos entrevistados
não precisou escrever nada de forma “adequada” por mais de seis meses. Pior, um
em cada três entrevistados confessou que não entende suas próprias anotações à
mão livre. Agora, imaginem o bom humor de um professor a avaliar várias dezenas
de provas manuscritas...
A
computorréia chegou para ficar e a tendência de trocar a escrita manual pela
eletrônica é inexorável. A não ser, é claro, quando falta luz e a bateria
reserva se esgota. Antes que o rabugento pondere que na falta de luz não se
escreve nem à mão, lembro que também falta luz durante o dia. Mas isso não é
tudo. O cérebro humano vem evoluindo há mais de dois milhões de anos, a chamada
proto-escrita já tem uns dez mil de idade e a escrita propriamente dita, uns
cinco a seis mil. Alguma pressão evolutiva há de ter tornado essas três
histórias congruentes, e muitas gerações ainda passarão antes que desapareçam
os benefícios neurológicos da escrita manual. Se há de fato vantagens em
escrever à mão, há também vantagem em conseguir ler, pelo menos, as próprias
anotações.
Vosso
cronista predileto ainda acha que se deve cuidar com carinho da qualidade da
caligrafia das crianças e jovens, no mínimo de sua legibilidade sem,
naturalmente, retornar aos métodos draconianos da velha escola. Recentemente
uma amiga, preocupada com o desprezo do filho de seis anos e meio por melhorar
a qualidade da própria letra, escreveu uma mesma palavra de duas formas, com
letra caprichada e em garranchos ilegíveis e surpreendeu a criança ao lhe mostrar
que era a mesma coisa escrita das duas formas. Ainda é cedo para saber o quanto
isso vai influenciar o guri, mas pode ser uma boa estratégia.
Rafael Linden
P.S.: Sim, senhora, tudo isso foi escrito no
teclado de um computador. Mas, como os leitores deste blog bem o sabem, o autor
não tem mais jeito.
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