Cá no
telhado vive-se de inspirações ocasionais, efemérides significativas e
associações inauditas. Hoje, de uma tacada, celebramos o centenário de um livro
que propagou uma teoria controversa, a publicação de um artigo científico intrigante,
a quintessência da Matemática e, sobretudo, a pura beleza. E o mistifório se dá
porque o cronista, ainda que amplamente ignorante, acha isso tudo bacaninha.
Nesta vida
atribulada, as gentes correm atrás de significado, justificativas, importância,
consequências e, principalmente, do que podem lucrar com o que há em volta.
Poucos se dão ao desfrute de apenas apreciar a beleza. Entretanto, como mostra
a própria existência deste blog, o abaixo-assinado costuma aproveitar as raras
chances de se desligar do entorno e de suas obrigações e vícios profissionais,
para simplesmente apreciar o que há de belo. Mas qual beleza? Qualquer uma, de
um rosto, um corpo, um gesto, um momento, uma equação...e tenham paciência que
lá chegaremos.
Como se já
não bastasse o tumulto vigente, neste ano de 2014 faz um século da publicação
do livro Art, do crítico britânico
Clive Bell. Neste livro, Bell defendeu a hipótese do que chamou de “forma
significativa”, definindo-a como um conjunto de linhas, formas e cores cujas
relações despertam, no observador de uma obra de arte, a denominada “emoção
estética”. Esta seria um tipo específico de emoção independente de conteúdo,
verossimilhança, significado, ideologia ou outra propriedade qualquer embutida
na obra. A teoria tem raízes em conceitos do filósofo prussiano Immanuel Kant
e, apesar do primarismo filosófico do locutor que vos fala, é fácil perceber
porque a hipótese de Bell é tão controversa. Afinal, ela contraria todos os que
consideram implícito na apreciação da arte o seu conteúdo ou alguma agenda
oculta. Mas, o que importa aqui é a idéia da beleza ter características
intrínsecas que transcendem a natureza do objeto, seja ele uma paisagem, uma
pintura, uma escultura ou uma música. Em outras palavras, entre todas as coisas
belas haveria algo de comum, que por si só levaria à emoção estética.
A natureza
desta emoção singular é também controversa. Mas é notório que a beleza nos
causa uma emoção peculiar. É comum o nó na garganta ou mesmo lágrimas ostensivas
ao exclamar “que coisa linda!”, embevecidos com algo ou alguém, mesmo que seja
um desconhecido ou que não encontremos elementos ou informações suficientes
para explicar nossa emoção em função do contexto. Por que?
A questão é
complexa, mas a crônica foi salva quando o abaixo-assinado se deu conta do
trabalho recente do neurocientista Samir Zeki, nascido na Turquia e radicado há
muitas décadas na Inglaterra, onde trabalha no University College London. Zeki ganhou prestígio internacional por
suas descobertas sobre a organização funcional do cérebro humano. Ele vem, há
vários anos, se dedicando a identificar bases biológicas da apreciação
estética. Coisa difícil porque, para começo de conversa, já se parte de
opiniões distintas sobre o que é bonito ou feio nas várias formas de arte.
Afinal, há quem goste de música barroca e pintura impressionista, enquanto
outros preferem pintura abstrata e música dodecafônica. E ainda há os
desvairados que se deliciam com “Ai, se eu te pego...” e suas correspondentes
perversões pictóricas.
Mas o Doutor
Zeki, que nunca foi de correr de uma boa polêmica, já concentrou seu trabalho
em questões cabeludas, tais como os fundamentos biológicos do amor e do ódio e
tornou-se especialista na disciplina conhecida como Neuroestética. Assim,
resolveu aplicar seus talentos à questão da existência ou não de um senso
abstrato de beleza, que provoque no ser humano uma mesma experiência emocional
seja qual for a fonte de tal beleza. Para isto, o grupo de pesquisa de Zeki usa
a técnica chamada ressonância magnética funcional (abreviada fMRI), que fornece
imagens das regiões do cérebro com maior ou menor atividade durante o
desempenho de tarefas.
Há alguns
anos os pesquisadores coletaram as imagens de fMRI de voluntários enquanto
estes atribuiam um grau de beleza a cada uma de uma série de pinturas e trechos
musicais. Os sujeitos eram instados a classificar cada obra como feia,
indiferente, ou bonita. Já se sabia que uma região do cérebro chamada córtex orbitofrontal medial (mOFC), que
faz parte de circuitos cerebrais de recompensa e prazer, é ativado quando um
indivíduo aprecia a beleza de algum objeto. O interessante, no entanto, foi a
coincidência da região de ativação tanto para pinturas quanto para músicas
classificadas como bonitas, mas não para as feias. E, curiosamente, não foi
encontrada outra região do cérebro que reagisse de forma oposta, aumentando sua
atividade para as obras classificadas como feias.
Muita
controvérsia ainda vai rolar sobre a interpretação dos resultados. Mas Zeki e
seus colaboradores foram ainda mais ousados e, em meados de fevereiro,
publicaram na revista Frontiers of Human
Neuroscience um artigo intitulado “A experiência da beleza matemática e
seus correlatos neurais”. É isso mesmo, cara leitora, enquanto a senhora
escolheu uma carreira o mais distante possível dos números, eles enveredaram
pela seara da beleza de...equações!
Eles queriam
saber quais áreas do cérebro reagem à beleza matemática. Para isso, recrutaram
quinze matemáticos e lhes apresentaram equações formuladas por grandes vultos
como Pitágoras, Gauss, Euler, Cauchy e outros. Os voluntários tinham de
classificar cada fórmula como feia, indiferente ou bonita enquanto os
pesquisadores registravam suas fMRI. Ao longo do estudo, foram eliminadas
outras possibilidades para explicar os resultados como, por exemplo, o quanto
cada profissional entendia de cada uma das equações, coisa essa que varia
bastante entre eles. Ao fim da análise, foi verificado que uma área específica
do cérebro foi ativada em estreita correlação com a atribuição de beleza a uma
equação. E esta área, vejam só, se superpõe extensamente à mesma área do mOFC
que é ativada pela beleza percebida em pinturas ou em trechos musicais.
O artigo acabou de sair, ainda não foi
objeto de críticas públicas ou de estudos especializados que contrariem os
achados do grupo inglês. Certamente, alimentará debates acalorados tanto entre
neurocientistas quanto entre artistas, críticos, filósofos e, se tudo correr
bem, leigos que se interessem pelo tema a partir de suas implicações. Mas,
embora os próprios autores admitam que o assunto precisa ser estudado em mais
detalhe do que já foi obtido pela técnica de fMRI, os achados são
compatíveis com a idéia de que há características comuns à atribuição de beleza
em diversas circunstâncias, seja perante uma obra de arte, diante de uma
equação matemática e, possivelmente, face a outros componentes do Universo.
Esta beleza abstrata levaria, então, à emoção estética, pelo menos em parte
através da atividade de neurônios localizados especificamente no córtex
orbitofrontal medial.
Por outro
lado, ao contrário dos muitos que fogem da Matemática como o diabo da cruz, os
matemáticos devem achar isso tudo muito natural, pois há dois mil e seiscentos
anos a escola pitagórica já propalava a conexão entre esta Ciência e a beleza.
E há quem pense que a beleza em certas fórmulas matemáticas está
inextricavelmente ligada à sua universalidade, o que leva à hipótese de que, no
fundo, a própria evolução do Universo segue os fundamentos que tornam a beleza
uma propriedade abstrata e universal. A busca de suas bases biológicas não tira
da beleza sequer uma ínfima parte de seu encanto. Ao contrário, a prática da Ciência
como profissão, por mais dura, precisa e impessoal que seja, nem por um
instante deixa de almejá-la, tanto quanto as artes e todas as demais aventuras
humanas.
Rafael Linden
Rafael, muito interessante o seu texto. Eu na condição de quem não é instruido no assunto, concordo que haja beleza em tudo neste universo, em qualquer ciência, seja ele exata ou não.
ResponderExcluirE qual a natureza da quintenssência? O que há de melhor ou mais puro? Na tradição Pitegórica seguido por Aristóteles o quinto elemento ou substância primária, que é corpórea, brilhante e sutil, e com que são feitas os céus e os corpos celestes é de uma beleza impossível de se descrever.
Um grande abraço
Carlos
Obrigado, Carlos.
Excluirabs
R
Nossa! Adorei. Seus texto são sempre interessantes e prazerosos. Será q um bom texto tb ativa o mOFC?!! Saudades!!! Karin
ResponderExcluirObrigado, querida. Vou mandar o link do blog para o Zeki...
Excluir:-)
Saudades de você também,
beijos
Rafael
Excelente Rafa! Embora eu resista a estes "localisionismos", os experimentos são interessantes. Mas, sobretudo a correlação entre beleza e o sentir prazer na ciência.
ResponderExcluirÉ isso aí. Também sou um pouco reticente, mas o Zeki capricha no que faz. E os dados me parecem robustos e são intrigantes. Só isso já acende meu mOFC...
Excluirespetacular.......
ResponderExcluirObrigado, Anônimo!
ExcluirR
Rafael, os meus comentários agoram virão como Olguin.
ResponderExcluirOk
ExcluirAbs
R