Há
poucos dias completou quarenta anos desde que o astronauta norte-americano
Eugene “Gene” Cernan subiu de volta a escadinha do módulo lunar da missão Apollo
17 e tornou-se o último ser humano a pisar no solo da Lua. Que se saiba...
Já
há leitores preparados para alguma piadinha infame, historinha escabrosa ou
revelação surpreendente de um segredo que foi, por muito tempo, mantido a sete
chaves pela NASA. Lamento desapontá-los: não tenho nenhuma das três. Então, deixem
de ceticismo e admitam que Gene Cernan foi mesmo o último a pisar na Lua até
agora.
A
Apollo 17 partiu do Centro Espacial Kennedy, na Ilha de Merritt, no dia 7 de
dezembro de 1972, exatamente treze anos depois do histórico dia em que o
balneário de Mongaguá, na Baixada Santista, emancipou-se de Itanhaém. Tenho fé
em que, um dia, um habitante daquele município lerá esta crônica e sentir-se-á
homenageado.
Mas,
voltando à vaca fria, a espaçonave viajou por três dias e meio até entrar em
órbita da Lua e, no dia seguinte, ejetou o módulo lunar que, por sua vez,
pousou suavemente na superfície do nosso satélite. Cernan e o cientista Harrison
Schmitt começaram, então, a explorar o solo e coletar amostras para análise nos
laboratórios da NASA. Schmitt, que é geólogo, professor universitário e chegou
a ser eleito para o Senado dos EUA - depois de voltar da Lua, é claro - foi o
único, dentre os doze que pisaram na Lua, que nunca foi membro das forças
armadas. Um civil, escalado para a missão por sua formação científica e profundo
interesse na geologia lunar. As gravações feitas durante a exploração mostram,
por exemplo, quão surpreso e extasiado ele ficou ao encontrar, pela primeira
vez, fragmentos de vidro alaranjado formados em erupções vulcânicas a partir
das profundezas do satélite.
Os
dois astronautas fizeram três passeios, nos três dias em que ficaram hospedados
no módulo lunar, enquanto o terceiro, Ron Evans, orbitava a Lua no módulo de
comando, esperando pela volta dos companheiros. Uma chatice. Ron devia estar
furioso porque só os amiguinhos dele brincavam, andavam de carrinho pra lá e
pra cá, coletavam pedrinhas e davam pulinhos na baixa gravidade do satélite. No
dia 14 de dezembro, os felizardos retornaram ao módulo de comando, transferiram
o material coletado e os instrumentos, ejetaram o módulo lunar que, desta vez,
se espatifou espetacularmente na superfície da Lua e, no dia seguinte,
iniciaram a viagem de volta. Doze dias após o lançamento no Centro Kennedy,
pousaram suavemente no mar a menos de sete quilômetros do navio destacado para
recolhe-los. No caminho da Lua à Terra, Evans dera uma saidinha da Apollo 17, para recuperar os
filmes nas câmeras localizadas no exterior da espaçonave. Não achei nenhuma
informação sobre qualquer outra coisa que ele tenha feito, durante pouco mais
de uma hora em que ficou passeando lá fora, na única chance que teve de se
divertir no espaço sideral. Talvez ele tenha comido um sanduíche numa dessas
paradas de beira de estrada que há, por exemplo, ao longo da Via Dutra. Sabe-se
lá do que o empreendedorismo moderno é capaz.
Ao
voltar por último ao módulo lunar, Eugene Cernan fizera um breve discurso para
expressar sua confiança de que, em breve, viagens tripuladas à Lua voltariam a ocorrer
como antes. Reiterou sua expectativa por vários anos e participou de
movimentos, organizados principalmente por astronautas e cientistas, a fim de estimular
o governo norte-americano a investir novamente nestas missões. Entretanto, Cernan
continua até hoje ostentando a melancólica glória de ter sido último a deixar a
Lua. Tão confiante estava na continuidade das missões, que sequer apagou a luz
ao sair.
Um
dos maiores defensores da retomada é o jornalista e historiador da exploração
espacial Andrew Chaikin. O mais badalado de seus livros é o que descreve as
missões Apollo, entre as quais a que levou o astronauta Neil Armstrong,
recentemente falecido, a pisar pela primeira vez na Lua, bem como as
subsequentes. Chaikin, que é geólogo, trabalhou no lendário Laboratório de
Propulsão a Jato (JPL) da CALTECH, associado à NASA, e vem há anos defendendo a
idéia da continuação das missões, por exemplo no filmezinho(*) que produziu para comemorar o
“quarentenário”.
Pois,
caros leitores, é chegado o momento do inevitável “E daí?”. O assunto é
controverso, principalmente quando se considera o custo de tais empreendimentos
em face do imbroglio financeiro que
assola os EUA. Entretanto, a exploração do espaço é um dos exemplos mais
marcantes do espírito aventureiro de nossa espécie e da sua busca incessante de
novos horizontes. Em que pese a vastidão do Universo, perto da qual a distância
da Terra à Lua é insignificante, não há como ficar indiferente nem deixar de
torcer por mais do progresso tecnológico que a humanidade desenvolveu a ponto
de desembarcar no nosso satélite, passear por lá, explorar o ambiente lunar e,
em tempo real, conversar com os controladores de voo que ficam “logo ali” na
costa leste dos EUA. Isso tudo entre sessenta e setenta anos, apenas, após a
invenção do avião.
Eu
torço por cada vez mais exploração espacial. As próximas gerações merecem ver e
usufruir de coisas que nem sonhamos. Ou, se tudo correr bem, de coisas que
sonhamos.
Rafael Linden
UMA OUTRA LOUCA É ESSE TEXTO... INTERESSANTÍSSIMO!
ResponderExcluirObrigado, volte sempre.
ExcluirR
Olá boa noite, Meu nome é Fábio Fraga e tenho 30 anos, sou responsável pelo blog Chatos e Chatolin, um blog com conteúdo de primeira, gostaria de te convidar para conhecer o blog que a cada dia vem crescendo muito, não custa nada dar uma passadinha por lá e conferir algumas novidades, se gostar fique a vontade para me seguir e tem o meu Twitter, me ajude a fazer o blog cada vez melhor com seus comentários, suas indicações, compartilhamento enfim, muito obrigado e desculpe se incomodei de alguma forma.
ResponderExcluirAcesse meu blog no link, há pode ficar tranquilo que não contém vírus e outras ameaças, sou contra essas coisas, pois já perdi meu blog algumas vezes.Eu utilizo o webmaster do Google assim fico informado sobre vírus no blog.
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Abraços
Fabio Fraga
Obrigado, Fabio. Passarei por seu blog.
ExcluirR
Olá, parabéns pela crônica, muito interessante.
ResponderExcluirSobre as viagens ao espaço eu acredito que é dinheiro demais gasto com algo com propósitos não muito bem definidos.
Afinal, o que o homem está procurando fora do planeta terra? Um lugar onde haja vida? Ou um lugar onde a vida seja possível?
Sim, pois aí teríamos um lugar para onde fugir quando a vida deixe de ser possível aqui, quando tivermos destruído todo o planeta.
Nossa espécie tem um marcante espírito aventureiro? Acho que tem um espírito curioso, mas aventureiro não muito, porque aventura implica em coragem, mas essa virtude parece nos faltar e, alguns pontos.
Como diz o poema "O homem; as viagens" (que certamente você já conhece), de Carlos Drummond de Andrade:
"O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
(...)
Restam outros sistemas fora
Do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver."
Sou professora de português e também tenho um blog. Dê uma passadinha por lá e seja um membro, assim poderemos trocar idéias, experiências, discutir sobre temas diversos, etc.
Vou seguir o seu blog, te espero no meu.
blogdadonarita.blogspot.com
Abraços. Feliz ano novo!
Olá Rita
ExcluirObrigado pelo comentário e pela lembrança do belo poema do Drummond.
Entretanto, eu acho que a busca ativa pelas respostas à curiosidade humana é sempre uma aventura. Desbravar o desconhecido, tanto com o uso de instrumentos quanto somente com o uso do intelecto, é a maior de todas as aventuras. Drummond, no poema, me parece extrair um certo pessimismo da premissa de que a aventura espacial é apenas utilitária e que se esgotará sem que a humanidade avance no autoconhecimento. Não comungo deste pessimismo. De certa forma eu sou uma espécie em extinção. Um dinossauro que ainda acredita que a Ciência é maior do que os frutos que a Tecnologia pode oferecer ao bem estar material. Para mim, que sou da área biomédica e, tenho certeza, para muitos cientistas envolvidos nas áreas de Astrofísica e Tecnologias Espaciais, a exploração do Universo é, também e talvez principalmente, uma parte inseparável da aventura humana de "descobrir suas próprias inexploradas entranhas".
Vou visitar seu blog,
abraços
Rafael