Tem coisa melhor? Vá lá, depende. Mas é
bom demais, né? Tá bom, depende também. Então, ficamos assim: cada beijo é um
beijo. Há melhores, piores, mais gostosos ou menos, mais bonitos ou até
grotescos, famosos ou anônimos, sinceros ou falsos.
E
há aqueles de que a gente não esquece. O beijo de quem nos ama, o da criança
que nos aprecia, o da família que nos quer bem. O beijo amigo, o doce, o
carinhoso, o respeitoso, o amante, o libidinoso, tem de todo tipo. Beije, agora,
quem o merece. Depois volte e leia o resto.
Tem
o beijo cinematográfico - por faixa etária. Como Deborah Kerr e Burt Lancaster,
deitados na areia, em A um passo da
eternidade; Demi Moore e o “fantasma” Patrick Swaize em Ghost; ou o casal de cães aproximados
por um fio de espaguete no desenho animado A
dama e o vagabundo.
Algumas
das fotografias mais belas são beijos, como Le
baiser de l'hôtel de ville, de Robert Doisneau; o provável último beijo de
Lennon e Yoko, clicado por Anne Leibovitz; e, é claro, o famosíssimo beijo do
marinheiro numa jovem de branco (uma sereia?...), em plena Times Square,
eternizado pela câmera de Alfred Eisenstaedt ao fim da segunda guerra mundial.
Peço apenas ao leitor que esqueçamos, por piedade, o beijo de novela que
o primeiro ministro da União Soviética tascou na boca do presidente da Alemanha
Oriental, registrado em 1979 por Régis Bossu com todos os dispensáveis detalhes
em altíssima resolução. Se ainda fosse por amor, mas para inaugurar uma
conferência de cúpula...
E
por que razão escrevo sobre isso? Porque esse ano comemora-se o
sesquicentenário do nascimento do pintor austríaco Gustav Klimt(1). Este
artista extraordinário foi fundador e líder da Secessão Vienense, um movimento que, por algum tempo, amalgamou
diversas formas de arte decorativa, rompeu com o tradicionalismo acadêmico e
contribuiu para impusionar o modernismo europeu ao fim do século XIX. Suas primeiras pinturas chocaram tanto o meio acadêmico quanto a sociedade vienense,
por sua carga de erotismo e sensualidade.
A
obra mais famosa de Klimt é, no entanto, O
beijo(2), que representa um casal em vias de se unir em um beijo
apaixonado. Quase nada se vê de seus corpos, apoiados sobre um leito de flores
e envoltos em mantos dourados, respectivamente decorados com desenhos
retilíneos pretensamente másculos e delicadas formas circulares simbolicamente
femininas. Os mantos dominam a pintura com seu brilho fúlvido e,
surpreendentemente pudicos, naquela época protegeram a pintura da execração
pública a que o erotismo da obra de Klimt costumava submeter o autor. Ainda
assim, as figuras humanas traem uma sensualidade latente, provocante e
enigmática.
A
pintura atrai pela estética, pela riqueza pictórica, mas sobretudo pela temática.
Curiosamente, não se encontra quem se atreva a sugerir que os amantes se
afastam após um beijo. Apesar desta ser uma interpretação igualmente plausível,
todos parecem concordar que o casal se aproxima. Por aí se vê como desejamos o
beijo, o quanto nos é importante que este ato sublime esteja sempre por
acontecer e não pertença apenas ao passado.
Pois
então, desta vez escrevo (por linhas tortas) para comemorar um redondo
aniversário do autor de, entre outras, uma pintura que celebra nossa devoção por
algo que, mesmo popularizado em todos os meios, superexposto de todas as formas,
trivializado em cumprimentos, muitas vezes meramente formais e frequentemente
hipócritas, ainda assim permanece objeto de nosso desejo permanente.
E
escrevo, principalmente, porque beijo é bom e eu gosto. Principalmente de
quem...
Rafael Linden
(1) Um belo site sobre a vida e obra de Klimt
encontra-se em http://www.iklimt.com/
(2) Veja
uma reprodução em http://www.klimtgallery.org/The-Kiss-large.html
Muito romântico......com a proximidade do dia dos namorados......
ResponderExcluirÉ mesmo...
Excluirbeijo
Rafael
O mais lindo beijo e também mais lirico, lembrado por voce, é o inesquecível beijo alinhado por um espaguete de A Dama e O Vagabundo, acompanhado de um olhar encantador e expressivo juntamente com a sobra de uma única almondega restante no pratinho. Adorei relembrar! beijinhos Ju (NG)
ResponderExcluirAcho que muitos atores e outros tantos namorados gostariam de pedir à Disney instruções sobre beijos...
Excluir:-)
Rafael, excelente homenagem ao grande Gustav Klimt. Por coincidência, na Science dessa semana (que não consegui ler por um problema de acesso recorrente via CAPES...) tem um resenha sobre o novo livro do Eric Kandel chamado "Viennese Memories, Art, and Freud". Certamente Klimt deve ser mencionado no livro
ResponderExcluirObrigado, Unknown. Esqueceu de assinar? Vou ver a resenha, fiquei curioso com o livro.
Excluir:-)
abs
R
Hummmm... Me deu até vontade de beijar, beijar, beijar... Que delícia de texto!
ResponderExcluirBjo!
Obrigado, bjs para você também.
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Sensacionais descrições... Texto impossível de não ler completo. Sensacional!!!
ResponderExcluirObrigado, David. Volte sempre!
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Obrigado, David. Volte sempre!
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Lindo texto, muito romântico! Posso mandar um beijo nada hipócrita de quem é sua fã de hoje e sempre?
ResponderExcluirBeijoooooo, Tania (adivinha qual?)
Obrigadooooo!!! Fãs recíprocos se entendem...
Excluirbeijos
R