O Magalhães era, desde sempre,
porteiro da Faculdade Nacional de Medicina na Praia Vermelha. Estava sempre lá
quando chegávamos para as aulas - “Bom dia, “Seu” Magalhães!”, “Bom dia, meu filho”
- e lá ficava durante todo o horário do expediente regular. Quem não ficava no
prédio ao final das aulas sempre o encontrava na saída: “Até amanhã, Seu Magalhães!”, “Até amanhã, meu filho”.
Mas isso só passava a acontecer
depois do vexame inicial a que eram submetidos os calouros. Ignorantes, ingênuos,
embasbacados com a nobreza e imponência do prédio, ansiosos por nos integrar
àquele ambiente que cobiçáramos tanto até a aprovação no vestibular, éramos
presa fácil da cara-de-pau dos veteranos.
“Calooooouro! Presta atenção! Aquele
senhor do outro lado do pátio é o Diretor da Faculdade! É o Professor
Magalhães! Muito respeito com ele, viu?!”. E, enquanto os veteranos se
afastavam prendendo o riso, lá íamos nós cumprimentar o Magalhães com a devida
deferência: “Bom dia, Doutor Magalhães”. Durava um ou dois dias, no máximo, até
que alguma alma piedosa nos avisasse do logro e passase a ser “Seu” Magalhães.
Mas só mudava o pronome de tratamento, pois era uma época em que, malgrado a
rebeldia generalizada, quase obrigatória, ainda se respeitava os mais velhos.
E o trote sempre funcionava, pois ninguém
duvidaria que o Magalhães pudesse ser o Diretor da Faculdade. Baixinho, a
cabeleira branca cuidadosamente penteada, óculos de aro fino, estava sempre de
terno e gravata, empinado e garboso. Quando se vê uma fotografia daquele tempo,
em que Magalhães divide a cena com professores da Faculdade ele é,
invariavelmente, o mais elegante. O que mais tinha cara, jeito e fatiota de
Diretor. Exceto por Clementino Fraga Filho, José Lopes Pontes, que de fato o
foram, e mais um ou outro em dias bons. E, se Diretor não era, fazia as vezes
de bedel, chamando atenção quando nos comportávamos perto dele como os
adolescentes que éramos.
E o “Guimarães”? Eduardo contava
que, desde seu tempo de estudante ali mesmo na Praia Vermelha, o Magalhães se
enfurecia quando, por pura molecagem, alguém o chamava de Guimarães. Não sei
como, algum dos estudantes descobrira essa idiossincrasia, a história se
espalhou e cristalizou no folclore da Faculdade. Era, diziam, o método mais
eficaz, talvez o único, para tirar o Magalhães do sério.
Havia, portanto, a variante do trote
em que um veterano convencia um calouro de que ali estava o Diretor da
Faculdade, o Professor Guimarães. Ao primeiro “Bom dia, Doutor Guimarães”, lá
se ia a pose e ecoava pelo saguão, corredores e adjacências, o brado retumbante:
“Guimarães é a p%$#@ que o p#@riu!!!!!”...
Rafael Linden
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