Padecendo de uma certa azia que nos dá ao assistir ao
noticiário, costumamos relaxar pensando besteira e, ocasionalmente,
ruminando informações insólitas. Não nos falta assunto, já que os próprios
jornalistas se aborrecem de tanto propalar a violência e a canalhice que se
alternam nos dias de hoje, e encaram acontecimentos mais amenos. É o caso das cápsulas do tempo.
São recipientes que cidadãos das mais
variadas estirpes resolvem encher do que consideram representativo de seu
tempo, fechá-los hermeticamente e entrerrá-los em algum lugar. Pretendem assim comunicar-se com as gerações futuras, antevendo
que, na data marcada para o descerramento, quem as abrir terá o privilégio, ou desgosto, de
observar lembranças da época de fabricação das cápsulas. Pretendem contribuir
para a História ou, meramente, exercitar uma certa
futilidade – um tipo de selfie
temporal.
Volta e meia há um certo frisson neste campo. Recentemente, foi
aberta uma cápsula datada de 1795, originalmente produzida em chumbo por dois personagens
da guerra da independência norte-americana. O recipiente já tinha sido aberto e sofrido
uma reforma sessenta anos depois de construído, quando foi substituído por outro
de bronze, e no qual foram adicionados alguns itens. A abertura solene foi no
Museu de Arte de Boston, depois que um especialista em conservação levou, ao
que se diz, cinco horas apenas para desatarrachar os parafusos da tampa.
Lá dentro estavam jornais, moedas,
documentos diversos e até uma placa comemorativa da inauguração do palácio do
governo de Massachusetts. Não deixa de ser um adendo às coleções de artefatos
históricos que se encontra nos museus mundo afora, mas alguns historiadores
torcem o nariz para a trivialidade do conteúdo destas coisas. É mesmo uma lástima que os primeiros hominídeos não tivessem se dado conta da
importância de produzir cápsulas do tempo, que nos permitissem apreciar
exemplares dos utensílios, jornais e revistas da época…
Outro método curioso de comunicação, de que a gentil leitora certamente já terá ouvido falar, é a
mensagem na garrafa. Da mesa de bar às histórias em quadrinhos, é frequente topar com piadinhas sobre náufragos solitários que, em
desespero, atiram ao mar garrafas convenientemente arrolhadas com um bilhete no
seu interior, na esperança de se comunicar com a civilização, em geral para serem resgatados. Não acredito que jamais tenha funcionado de fato
e, cá pra nós, quantos náufragos solitários perdidos em ilhas desertas terão
à mão uma garrafa, papel, lápis e, acima de tudo, uma rolha?
Ainda assim, volta e meia se acha
garrafas com mensagens. Ainda há pouco foram encontradas duas lançadas ao mar
há cerca de cem anos. Uma delas continha um bilhete pedindo devolução à agência
de correios mais próxima, pois tratava-se de um dos quase dois mil artefatos
iguais despejados em 1914 pela Marinha escocesa, com o intuito de mapear
correntes marítimas com base nos locais e datas de encontro das garrafas.
Menos nerd e mais poética foi a outra, lançada em 1913 no mar Báltico por um andarilho alemão de férias na Dinamarca. Esta continha uma cartinha pedindo devolução a um endereço em Berlim, a partir do qual investigadores
conseguiram localizar a neta do turista e confirmar a autoria, comparando a
escrita na mensagem com cartas arquivadas pela família. Agora tentam decifrar o resto do bilhete, que deteriorou com o tempo.
Não duvido que cápsulas do tempo
venham a se tornar respeitadas pelos historiadores. Afinal, consta que algumas estão programadas para abertura daqui
a vários milênios, antes de mais nada uma demonstração impressionante de fé.
Pois os encapsuladores confiam que o conteúdo resistirá a este tempo todo em meio ao apodrecimento progressivo de nosso sofrido
planeta. E que gravações, DVDs e outra mídias ainda serão decodificadas
pelos equipamentos do futuro, quando hoje em dia já é preciso comprar um
computador novo para atualizar o editor de texto. Mas o cúmulo do otimismo é
acreditar que as gerações futuras ainda terão algum interesse na nossa época.
Enquanto isso, cá no telhado procuramos apreciar cápsulas do tempo que se nos aparecem espontaneamente. Basta prestar
atenção. Um canal de TV a cabo acaba de passar toda a coleção dos
filmes do 007, desde Sean Connery até Daniel Craig. É uma delícia apreciar a
evolução das concepções de elegância, humor, suprema bandidagem e alta
tecnologia, esta última estampada nas engenhocas criadas por “Q”, interpretado
ao longo dos anos pelo incomparável Desmond Llewelyn, pelo hilariante John
Cleese e pelo novato Ben Whishaw. Coisa do tempo em que “licença para matar”
era prerrogativa dos agentes “00”, e não hábito de celerados que acertam ou
erram tiros por aí afora.
Também passou uma reprise de “A última
sessão de cinema”, um dos filmes que marcaram minha geração, com a saga de
jovens que testemunham a decadência de sua pequena cidade e, aos poucos, vão
perdendo a confiança no futuro. Uma alegoria para tempos modernos que, de vez
em quando, parecem bater à nossa porta. Sem falar, é claro, na estréia avassaladora – queiram perdoar – da estonteante Cybill Shepherd
que, na época do filme, celebrava junto com o cronista os mesmos vinte anos de idade.
Ou então, graças às infalíveis
ferramentas de busca da Internet, pode-se assistir ao lançamento espetacular
de umas das canções icônicas da banda inglesa The Police, em 1979, na Escola Politécnica que veio a se tornar a
Universidade de Hertfordshire. Na voz de Sting, ouve-se no vídeo a letra “…vou
enviar um S.O.S. ao mundo…espero que alguém encontre minha…”, ora vejam,
“…mensagem numa garrafa…”. Quem precisa de cápsulas do tempo?
Rafael Linden
A pergunta que não quer calar... haverá alguém para ler?
ResponderExcluirMais essa...
Excluir:-)
abs
R
Excelente texto e reflexão
ResponderExcluirObrigado, Lu. Volte sempre!
ExcluirR
Olá Rafael, adorei ver meu banner aqui, é bom poder contar com os amigos, estamos sempre a disposição!
ResponderExcluirAté mais meu amigo
Obrigado pelo apoio, Alfredo.
ExcluirAbs
R
Não seriam as piramides do Egito, Stonehenge e tantas outras relíquias antigas também "cápsulas do tempo" / "mensagens engarrafadas"..? E não seria a ciência básica atual, com essa quantidade absurda da dados "aparentemente inúteis", uma futura cápsula do tempo também? Cápsulas do tempo p/ cientistas do futuro, que nem mais irão p/ bancada, e ficarão simplesmente abrindo e relacionando cápsulas do tempo, umas com as outras...? ;)
ResponderExcluirBem pensado, Anônimo. A propósito: eram os deuses astronautas?..
Excluir:-)
Agora tem um outro livro mais recente, do mesmo autor: "A História Está Errada." ;)
ExcluirCaríssimo "Cientista no Telhado" , nada de "folga , mesmo nos períodos "momescos" ! Ficamos abandonados sem seus escritos!
ResponderExcluirImagine a minha situação, sem leitores!
Excluir:-)
Sábado estarei de volta.
Bjs
R