domingo, 29 de julho de 2018

Pa-ra-le-le-pí-pe-do

          “Pa-ra-le-le-pí-pe-do!”, “É isso mesmo, querida!”, “Pa-ra-le…le…pí-pe-do, pa-ra-le-le-pí-pe-do, pa-ra-le-le…” e lá foi ela, toda contente de mão dada com o vovô, até passar por um canteiro. “E essa branquinha?”, “essa? Hmmm, é um azulejo”, “a-zu-le-jo?”, “é, azulejo”, “a-zu-le-jo! e essa no chão?”, “essa? É…é…acho que é uma lajota”, “la-jo-ta?”, “é, lajota”, “la-jo-ta…olha! Olha! É um macaco! Dois! Dois macacos, a mãe e o filhinho!”, “onde?”, “ali no fio, correram para a árvore! Todo dia a gente vê eles aqui e eles correm para a árvore!”…e repetiu “pa-ra-le-le-pííí-pe-do!”…
          O vô bem que aprecia, mas não entende bulhufas de pedras, rochas e montanhas. Seus filhos já nasceram com quinze anos de idade, então todas as perguntas e conquistas das netas são inéditas e surpreendentes. E, ao que parece, a primogênita nunca tinha passado pela calçada do outro lado da rua ao voltar da pracinha para casa com o pai e a mãe.
          Quando cruzaram uma pequena travessa o avô recomendou cuidado para não tropeçar. Ela olhou para o chão e perguntou “como é o nome dessa pedra?”. Na verdade o azulejo e a lajota foram depois improvisados e são incertos, mas o vovô nasceu num tempo em que havia inúmeras ruas de paralelepípedos no bairro onde morava. E paralelepípedo tem personalidade, vamos e venhamos, não é qualquer ruazinha por aí que é pavimentada com pedras de sete sílabas. Naquele pedaço pacato do bairro onde moram as netinhas, há essa abençoada travessa que deu ao vô o privilégio de ensinar à primeira neta a primeira proparoxítona. A outra netinha já ia alguns metros adiante no colo da vovó mas, do jeito que presta atenção em tudo que faz a irmã, já devia estar a murmurar “pa-ra-le-le…”.
          Um par de horas depois, os pais chegaram do trabalho e saímos para almoçar num restaurante próximo. Em meio à algazarra, a menorzinha entretida com as traquinagens habituais, o vô numa ponta da mesa provocou a neta do outro lado “conta pra mamãe e pro papai o nome daquelas pedras que você viu na rua hoje”. E ela, toda toda, interrompeu a trajetória da batatinha frita que estava a meio caminho, sorriu com certa condescendência e mandou “pa-ra-le-le-pí-pe-do!”, abrindo um sorriso largo, seguido por efusivos louvores de papai e mamãe. A menina respirou fundo e voltou a atenção para a batatinha.
          Cientista e professor universitário, há mais de quarenta anos pesquisando e ensinando a Biologia do Sistema Nervoso, o vô já experimentou inúmeras alegrias com alunos, ex-alunos, jovens cientistas treinados em seu laboratório, ou qualquer um que lhe tenha perguntado alguma coisa e saído satisfeito com a resposta. Mas, cá pra nós, bom mesmo é ensinar a primeira proparoxítona de sete sílabas que uma neta aprendeu.
         
Rafael Linden