domingo, 25 de março de 2018

Baratas, me deixem ver suas patas!

          Ai que nojo, exclama a gentil leitora com uma careta que nem assim destoa de sua adorável estampa. E, com perdão dos que sentem asco perante uma das pragas que assolam a humanidade, há que reconhecer que elas, as baratas, já andavam pelaí muito antes delas, as gentis leitoras. Paleontólogos nos ensinam que estes insetos já passeavam por nosso planeta há qualquer coisa entre cinquenta e trezentos milhões de anos.
          Já o leitor rabugento, com a habitual agressividade que não lhe permite confessar seu pavor de barata, pergunta se são cinquenta ou trezentos milhões, ora pombas. Apressamo-nos a lembrá-lo de que os fósseis mais antigos de nossos ancestrais hominídeos têm poucos milhões, e os mais velhos exemplares de nossa própria espécie estão na casa de poucas centenas de milhares de anos. Não, vosso amado cronista é consideravelmente mais jovem do que isso. E também é inútil cobrar mais precisão, quando a diferença de cinquenta para trezentos milhões de anos remete a ferozes batalhas de especialistas no campo da Paleontologia. Um exemplo vem do biólogo Dominic Evangelista que publicou, na respeitável revista Palaeontologia Electronica de setembro de 2017, um artigo no qual defende o tempo mais curto e espinafra a idéia corrente dos trezentos milhões, com base em peculiaridades da calibração do processo de datação de fósseis.
          A cizânia não é de se estranhar, visto que pouca gente acerta quando chuta a idade da gentil leitora, dotada de cútis impecávelmente conservada por alimentação saudável, cautela na birita, exposição moderada à luz solar e, vá lá, ocasionais aplicações de um ou outro hidratante facial. Seja como for, as baratas estão por aí desde muito antes de nós. Não admira, portanto, que resistam tão bem aos esforços para exterminá-las, a ponto de gerar o mito de que seriam os únicos seres vivos a sobreviver até mesmo a uma guerra nuclear, como a que certos lunáticos internacionais tentam promover por intolerância, incompetência, ignorância, arrogância ou todas as opções anteriores e mais algumas.
          Porém, a crônica de hoje foi motivada pelo burburinho causado pela publicação em março de 2018, na revista Nature Communications, de um artigo no qual um grupo de cientistas chineses liderado por Sheng Li e Shuai Zhan descreveu em detalhes o genoma da barata Periplaneta americana, uma das mais comuns aqui no Brasil. O trabalho chamou a atenção principalmente por revelar pistas sobre a resiliência das bichinhas, que desafiam inúmeros métodos, procedimentos, venenos e tecnologias diversas que se usa no mundo inteiro na tentativa de exterminá-las. Certas manobras resultam no sumiço temporário da praga mas, em que pese o efeito positivo de boas práticas de higiene e de limpeza doméstica, eventualmente os insetos retornam e, volta e meia, deixam até de sucumbir a venenos que antes eram eficazes.
          O estudo é de fato interessante. Para começo de conversa, o genoma das baratas contém mais de vinte mil genes, noventa e cinco por cento deles capazes de codificar a produção de proteínas. Pois esse número é muito parecido com o número de genes identificado no genoma dos ilustres leitores desta modesta obra prima da literatura nacional os quais, é claro, acabam de se enfurecer com a pretensão besta do abaixo-assinado. Mas se eu mesmo não me paparicar, quem o fará? Voltando ao que interessa, carxs leitorxs, é isso mesmo: em termos meramente quantitativos, vosso genoma não é mais impressionante do que o de uma reles barata. Ainda mais interessante, ou preocupante, é a quantidade enorme de genes “baratais” asociados à detecção olfativa de alimentos, principalmente fermentados ou apodrecidos, bem como genes ligados a sistemas de detoxificação, imunidade, reprodução da espécie e regeneração de perninhas das baratinhas jovens que porventura tenham sido arrancados por predadores ou danificadas de alguma forma. Ou seja, o bicho tem um DNA preparadaço para se virar perante ameaças de bichos mais recentes, como nossa jovem e imperfeita espécie animal.
          Conformem-se, estamos em franca desvantagem nessa guerra. Não admira o apelido da barata em chinês: “xiao qiang”, que no Nordeste do Brasil se traduz mais ou menos como “baixinha arretada”. Com todas as honras. Também não é à toa que os chineses, práticos que são, já há muito tempo moem baratas e usam o pó em práticas de Medicina tradicional e, não senhora, não sei quais são e desconfio que poucos ocidentais se sentiriam à vontade para usar o remédio ao ler a bula.
          Agora chega. Podem descer da cadeira, que aquela baratinha que surgiu do nada já foi expulsa a chineladas por alguém mais valente. Ah, sim, o título acima parece uma perfeita metáfora da curiosidade científica acerca dos insetos, mas é apenas uma estrofe legítima de uma canção de sucesso dos Titãs, composta nos anos 1980.


Rafael Linden