quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O bistrô dos arqueólogos

          Depois do desvario gastronômico das festas de Natal e da virada, não há nada melhor para começar o novo ano do que uma boa crônica sobre…como disse, minha senhora? “Boa” seria um milagre natalino? Tá bem, vá lá, uma crônica. Como de hábito a motivação vem do noticiário, temperada com uma pitada do nosso delírio indispensável para diluir a fieira de tragédias do cotidiano. Isto posto, é hora de falar de batatas.
          Por que não tomates, pergunta o rabugento. Pois falemos destes também. A gentil leitora pondera que uma manteiguinha por cima cairia bem com a batata assada, mas é rudemente interrompida pelo rabugento que, por sua vez, não dispensa um gratinado com queijo ralado no topo dos tubérculos. O marombeiro acrescenta que gosta mesmo é de muita proteína e pergunta se não vai junto um filé mal passado ou um belo peixe frito. Por fim manifesta-se o Juquinha, de olho na sobremesa que, é claro, há de ter chocolate. Menu completo, calam-se todos à espera do convite para jantar. Nada feito. Trata-se de Ciência. Coisa mais fora de moda, comentam certos políticos às gargalhadas, a ponto de sufocar com as baforadas de seus caríssimos charutos Gurkha Black Dragon ou afogar-se em legítimo uísque escocês, poucos minutos depois de gualdripar a verba pública para aplicá-la generosamente no bem-estar daqueles com quem compartilham a privada.
          Arre égua, está difícil bem-humorar sem digressionar. Não obstante, fá-lo-emos – oba, mesóclise! - pois esse blogue é para relaxar mesmo. Dizíamos, então, que era hora de batatas, mas acedemos às súplicas de nossos fiéis leitores e acrescentamos outros ingredientes, já que há uma fartura de descobertas arqueológicas de comida velha. Velha mesmo, fora da validade, bem mais do que aquele leite em pó que a senhora quase levou do supermercado, mas descobriu a tempo e passou uma descompostura no gerente. Muito velha mesmo, milênios além da validade, que tal?
          Arqueólogos cansados de desenterrar ruínas, efígies, armas e ossadas andam, com toda a razão, celebrando descobertas intrigantes sobre a alimentação de nossos antepassados. Às vezes trata-se de fezes petrificadas, como no badalado caso do palácio de um bispo dinamarquês do século XVII. Outras vezes a sorte lhes sorri e acham alimentos intactos. Agorinha mesmo foi noticiado que pesquisadores da Universidade da Pensilvania encontraram, na Argentina, dois exemplares de tomatillos, um primo do tomate. Diz a notícia que esses frutos são mais parecidos com cerejas do que com tomates, e que o gosto não é dos melhores, mas já dá uma satisfação ao rabugento. Só tem um detalhezinho, a datação dos tomatillos fossilizados foi estimada em mais de cinquenta milhões de anos. É possível que tenham passado da validade. Caso contrário, podem ser usados para fazer uma saladinha com dúzias de tipos distintos de frutos, legumes e grãos encontrados, junto com restos de ossos de animais e artefatos variados, por um grupo de cientistas de quatro Universidades israelenses. O achado foi em um sítio arqueológico de quase oitocentos mil anos de idade, localizado no vale do Rio Jordão, numa região que foi usada como corredor para a dispersão dos ancestrais dos humanos modernos a partir da África. Essa descoberta está fazendo sucesso, pois desafia a idéia de que naquela época a dieta era quase exclusivamente à base de proteina de origem animal. De fato, indícios do consumo de carnes são muito mais fáceis de encontrar do que das guarnições, já que ao longo de milhares de anos restos de ossos são, em geral, melhor preservados do que resíduos de vegetais e não fazem justiça à variedade de acompanhamentos das refeições de antanho.
          Voltando às batatas, pesquisadores canadenses descobriram, na região da Colúmbia Britânica, uma estrutura de pedras organizadas de modo a delimitar um espaço contendo mais de três mil exemplares de um tipo de batata, chamada wapato – pronuncia-se “uápatuu”. A wapato é o tubérculo da raiz de uma planta com folhas em formato de ponta de seta, que cresce e floresce em locais pantanosos e costuma servir de alimento para patos, daí seu outro nome duck potato. É nativa do noroeste das Américas, e foi também naturalizada em muitos países da Europa, mas em alguns é considerada uma praga. E o que há de interessante nisso se, só no Peru, existem três mil e oitocentas variedades de batatas? É que o tal sítio arqueológico tem quase quatro mil anos e, embora haja relatos documentados de jardins muito mais antigos no Egito, o “parquinho das batatas” é celebrado como a mais antiga estrutura artificial encontrada em uma escavação, que parece verdadeiramente destinada à produção de um alimento. A construção do cercadinho foi feita com pedras de formato regular, muitas das quais aparentemente moldadas a fogo, e contém pontas de lanças que podem ter sido usadas para cavucar o fundo de forma a soltar os tubérculos, que é o jeito de fazer flutuarem as wapato. Isso é um sinal claro de que o jardinzinho pantanoso foi propositalmente destinado à alimentação humana. Para os interessados, no Youtube há vídeos nos quais exímios naturebas mostram como colher wapato e garantem que a batatinha é comestível quando devidamente assada.
          De quebra, podemos acrescentar um aglomerado de manteiga maior do que uma bola de basquete, desenterrado de um pântano na Irlanda, e cuja idade foi estimada em dois mil anos. As reportagens dizem que a tal manteiga ainda seria comestível, porém de nossa parte não há a menor intenção de experimentar a iguaria. Ainda assim enriquece o menu, assim como os restos de queijo torrrado identificados no fundo de um pote com três mil anos de idade, que foi encontrado na península da Jutlândia, em território da Dinamarca.
          Juntando tudo isso já dá para preparar uma batatas gratinadas no forno de pedra de mil e seiscentos anos de idade, que o arqueólogio Bob Dawe encontrou em 1990 na encosta de um morro na provínicia de Alberta, no Canadá. Recentemente o trambolho foi cuidadosamente transportado para o Museu de Alberta para ser examinado, e Dawe acha que lá dentro há uma refeição completa, que estaria assando quando foi abandonada às pressas, quiçá porque algum invasor botou o cozinheiro para correr. O cientista crê que pode haver nesse forno um belo bife de bisão, o qual cairia bem com batatas gratinadas e uma saladinha. Já para os que não comem carne vermelha, sempre se pode fritar naquela manteiga irlandesa os restos de peixes de água doce que pesquisadores de Universidades britânicas encontraram em potinhos desenterrados de um sítio arqueológico com mais de seis mil anos de idade. Essa descoberta também foi considerada muito importante, por indicar que mesmo quando nossos ancestrais sairam do estágio de caçadores-coletores para inaugurar a agricultura e a pecuária, não deixaram de pescar seus peixinhos.
          E assim, o menu do bistrô está quase completo, com exceção da sobremesa do Juquinha. Mas o guri ficará feliz em saber que, diferente da idéia de que antes da invasão espanhola o cacau era usado na América Central apenas para preparar bebidas, cientistas do Instituto Nacional de Antropologia e História do México encontraram na península de Yucatán traços de cacau em um prato de dois mil e quinhentos anos de idade, o que sugere o uso antiquíssimo de um “molho de chocolate” numa refeição sólida. Coisa essa que faz parte da culinária mexicana até hoje, com seus moles poblanos que acompanham carnes variadas. Daqui ouvimos o garoto reclamar que isso não tem nada a ver com a torta de chocolate da vovó ou o brownie da titia, mas foi o que se pode arranjar. Quem sabe em breve não será descoberta, em algum sítio arqueológico nos Alpes ou esquecida num canto de um depósito do Laténium de Neuchâtel, uma barra inteira do melhor chocolate suíço com mais de dois mil anos de idade, esperando apenas ser catalogada por um cientista guloso.
          Bon apétit.


Rafael Linden


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