quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Formigas atômicas

          “Lá vai a triônica, Formiga Atômica!!!”, era o grito de guerra do personagem de um desenho animado produzido na década de 1960 no lendário estúdio de William Hanna e Joseph Barbera, criadores de clássicos do cinema de animação como Tom e Jerry, Zé Colmeia, Flintstones, Manda-Chuva, Jetsons e, é claro, das duas dúzias de filmetes estrelados pela intrépida formiguinha alada, que volta e meia era convocada pela polícia para ajudar no combate ao crime. A Formiga Atômica usava um capacete, tinha em seu laboratório um formidável computador, suas antenas captavam chamados radiofônicos, ela voava a velocidades alucinantes e preparava-se para o combate à custa de exercícios com um par de halteres pesadíssimos. Como consequência dessa malhação, era capaz de erguer “50 vezes o seu próprio peso”, como se a estimada leitora pudesse, depois de ouvir todo o repertório da banda brega que polui o ambiente sonoro da churrascaria, tirar do chão uma van lotada com cinco casais de amigos chatos do seu marido e atirá-la ao mar.
          Cá para nós, duvido que o falecido dublador Rodney Gomes, que fazia a voz da formiga na versão brasileira, soubesse o que significa a inédita palavra “triônica” do retumbante brado do herói – que, no desenho animado, era um macho. Curiosamente, nunca se soube a razão pela qual o atlético himenóptero adquiriu tais superpoderes, embora especule-se que seja porque há cinquenta anos “atômico” era usado coloquialmente como sinônimo de forte, poderoso, ou tudo o mais que se aplicasse à formidável formiguinha. Ainda assim, o desenho animado serve-nos como uma luva para a crônica de hoje. En passant, nota o rabugento que “servir como uma luva” é um contrassenso, dada a imensa variação de tamanho da mão humana, na qual só serve luva de tamanho adequado. Voltando à vaca fria – e, a muito custo, evitando piadinhas pecuárias - o que nos interessa hoje é aquela premonitória mistura de “formiga” com “atômico”. Pois nosso assunto é exatamente uma colônia peculiar de formigas, descoberta num antigo depósito de armas nucleares dos tempos da Guerra Fria.
          O depósito fazia parte de uma base nuclear soviética localizada no obscuro vilarejo de Templewo, na Polônia, a cerca de cinquenta quilômetros da fronteira com a Alemanha. O vilarejo é difícil de encontrar até via Google, e apenas a versão em francês da Wikipedia dá um número para a população local, que seria de…sete habitantes em 2006. Também pudera, já que está nas proximidades de uma base nuclear secreta que existiu por mais de vinte e cinco anos e só foi desmantelada totalmente há menos de duas décadas. Apesar desta infausta origem, os restos do complexo militar ficam em meio a um rico ecossistema, devido aos numerosos pinheiros plantados estrategicamente para disfarçar a instalação bélica. Nessa floresta há naturalmente uma profusão de formigas disponíveis para fazer a felicidade de qualquer tamanduá que, porventura, emigrasse clandestinamente para a Europa. Na falta dos nobres mamíferos da família Myrmecophagidae – que quer dizer “comedores de formigas” – a vidinha dos insetos só vem sendo perturbada pela atividade científica de biólogos como o polonês Wojciech Czechowski e o finlandês Kari Vepsalainen, especialistas em comportamento e ecologia de formigas.
          Os dois lideraram o grupo de pesquisadores que descobriu a tal colônia da espécie Formica polyctena, e os achados foram publicados na revista Journal of Hymenoptera Research em agosto de 2016. Tudo começou quando os biólogos desrespeitaram os sábios ensinamentos de suas respectivas mãezinhas, e entraram por um buraco escavado clandestinamente através das grossas paredes de isolamento do depósito subterrâneo. Não, senhora, não sei qual o nível de radiação que sobrou e também estimo sinceramente que todos os que lá estiveram continuem com saúde. Dentro do bunker, em um cômodo estreito com dois metros e meio de altura, encontraram um formigueiro com centenas de milhares de formigas vivas e cerca de dois milhões de cadáveres de formigas mortas. Examinando detalhadamente o ambiente e comparando com o lado de fora, os pesquisadores descobriram que há um enorme ninho dessa mesma espécie de formiga, habitado por milhões de insetos, bem em cima de uma tampa metálica, a qual deveria servir para vedar um tubo de ventilação localizado exatamente no teto do quartinho, mas que estava toda corroída por ferrugem. Durante as expedições, eles flagraram formigas subindo pelas paredes e caindo do teto, e concluiram que as que caiam do ninho de superfície através da tampa de ventilação não conseguiam retornar à superfície e acabavam por se juntar à colônia que, na ausência das lanternas dos pesquisadores, permanecia na escuridão, ao contrário das formigas normais que pegam um solzinho maneiro quando saem para passear fora dos ninhos.
          E o mais estranho foi que, por mais que procurassem, os pesquisadores não encontraram no depósito desativado nenhum sinal de larvas nem de uma rainha, indicando que ali não há procriação, apenas repopulação por formigas que caem do grande ninho de superfície e compensam a morte de muitas das habitantes da colônia subterrânea. Ainda assim, os insetos, todas fêmeas trabalhadoras, se comportavam como previsto na célebre fábula de La Fontaine, incessantemente em ação construindo e reconstruindo partes do ninho e buscando alimento, como se fosse uma colônia normal que não morasse num buraco escuro, com um histórico macabro, sabe-se lá com que nível de radioatividade residual e a poucos metros da nababesca colônia da superfície. Qualquer semelhança com a organização social de inúmeras cidades por aí é mera coincidência, não acha, minha senhora?...
          O rabugento, que beberica um refrigerante geladinho, confortavelmente instalado em sua chaise longue, está a matutar sobre esse trabalhão todo que formigas sem futuro encaram sem parar, abstraídas da inutilidade de todo seu esforço. E entre um gole e outro pensa “mas que bicho estúpido”. Porém, o sabidinho ignora que essa mesma espécie de inseto foi, em 1996, protagonista de outro artigo científico, dos cientistas russos Zhanna Rezhikova e Boris Ryabko, da Universidad de Novosibirsk, na Sibéria, e que foi traduzido para o inglês na revista Neuroscience and Behavioral Physiology. Nesse estudo os pesquisadores, que são especialistas consagrados, respectivamente, em comportamento de insetos sociais e em matemática aplicada, relataram indícios de que formigas desta espécie são capazes de estimar números de objetos e transmitir essa informação para outras da mesma colônia, coisa essa que pode ajudar o exército de trabalhadoras a encontrar o necessário para manutenção do ninho e alimentação da colônia. Durma-se com um barulho desses!
          Ou seja, perto da Formica polyctena, a Formiga Atômica de Hanna e Barbera é fichinha…
         
Rafael Linden



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