sexta-feira, 1 de julho de 2016

Canção que provoca arrepio...

          Queiram perdoar mas, sem a devida vênia, nosso título de hoje é um plágio descarado – ou quase – de um verso da canção “Menino do Rio”, que Caetano Veloso compôs, a pedido de Baby Consuelo, em homenagem ao surfista Petit. Porém, como tudo que se faz aqui no blogue, esse deslize de nossa parte é por uma boa causa. Fazemo-lo para falar do arrepio que nos causam trechos marcantes de certas músicas. Isso mesmo, querida leitora, aquele frisson que lhe dá quando ouve The long and winding road, Jumpin’ Jack Flash, As rosas não falam, Cálice, a Sonata Kreutzer, a Polonaise heróica, a Quinta Sinfonia…nenhuma delas? Tudo bem, algumas dessas arrepiam alguém, a gentil senhora tem as suas e, quem sabe, até o rabugento tem lá sua lista particular. Mas nem todo mundo se arrepia ao ouvir obras musicais, mesmo suas preferidas. Se perguntarmos por aí, haverá quem diga que sente muito prazer, fica hipnotizado, enlevado, feliz, de paz com a vida, mas só uns poucos poderão garantir que ficam arrepiados, no duro, com os pelinhos do braço eriçados e aquele tremelique que sobe e desce pela nuca.
          Esse arrepio é uma manifestação emocional objetiva, uma das mais fortes que o prazer de ouvir boa música é capaz de provocar. Mas não em qualquer um. Muitos se deliciam com suas canções prediletas, porém não chegam a se arrepiar. Já outros se arrepiam ao ouvir algumas das músicas de que gostam, mas só algumas em meio à coleção de CDs que compraram a peso de ouro para desfrutá-los no sacrossanto recesso de seus lares. Curioso, não? Pois não se trata apenas de um factóide moderadamente interessante. É uma observação que atiça o espírito científico de quem se dedica a estudar a Neurociência da experiência estética. O rabugento já resmunga que o que ele quer mesmo é ouvir em paz o seu pagode sem ser incomodado com minúcias sobre o funcionamento do cérebro. Deixemo-lo em paz. Mas saibam que há motivos fortes para cientistas sérios se dedicarem a descobrir os fundamentos biológicos do prazer estético.
          E é isso que faz uma jovem cientista da Wesleyan University, nos EUA. A moça, filha de imigrantes chineses, Bacharel em Psicologia, PhD em Cognição e Comportamento Humano, ex-Instrutora de Neurologia em Harvard e hoje Professora de Psicologia, chama-se…Psyche Loui. Para evitar piadinhas com essa curiosa coerência entre nome próprio e profissão, acrescente-se que Psyche é também Bacharel em Música, exímia violinista e deu aulas de piano e violino em uma escola particular quando era aluna de graduação universitária. Um Curriculo desses explica direitinho seu interesse na Psicobiologia aplicada à estética, não é mesmo? Pois ela resolveu estudar os fundamentos neurobiológicos do tal arrepio causado por músicas em alguns seres humanos.
          Mais precisamente, ela está interessada em saber por que é tão variável a resposta emocional de seres humanos à música. Acreditem, há quem não sinta prazer algum em ouvir música, embora reaja normalmente a outras formas de arte, como a pintura. Já se sabia que o prazer estético associado à música depende de certas conexões entre áreas cerebrais relativamente bem delimitadas, uma parte delas dedicada à sensação auditiva e outra envolvida com diferentes formas de recompensa. Para entender melhor a razão da variabilidade entre pessoas distintas, Psyche e um grupo de colaboradores da Harvard University selecionaram, dentre um grande número de voluntários com reações as mais variadas à música, dois grupos: um de pessoas que se arrepiavam com suas canções prediletas - o “grupo do arrepio” - e outro que, embora tivesse suas predileções musicais, nunca se arrepiava - o “grupo sem arrepio”, é claro. O trabalho foi publicado em março de 2016 na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience.
          O estudo consistiu em apresentar aos participantes trechos de músicas identificadas pelos próprios voluntários como suas prediletas, e registrar para cada indivíduo o relato de suas sensações, bem como a ocorrência ou não de arrepios, o ritmo dos batimentos do coração e a condutância elétrica da pele, essas duas últimas respostas normalmente usadas para detectar alterações de cunho emocional. O resultado mostrou uma relação estreita entre a ocorrência de arrepios e a intensidade da resposta fisiológica à música. Além disso, os pesquisadores examinaram o cérebro dos participantes por uma técnica poderosa de imagem, chamada Ressonância Magnética Nuclear por Tensor de Difusão, detalhes da qual, acreditem, ninguém aqui quer saber. Basta acreditar que é usada para mostrar a estrutura de conexões cerebrais de indivíduos vivos. E o resultado foi interessante, porque o “grupo do arrepio” mostrou um volume muito maior de conexões entre a àrea auditiva e as áreas de recompensa do cérebro do que os “sem arrepio”. Bacaninha, né? Uma porção maior do cérebro é usada por quem apresenta respostas emocionais tão mais intensas que chegam a arrepiar o cidadão! A coincidência com os resultados do ritmo cardíaco e da condutância da pele demonstrou um engajamento fisiológico mais intenso no “grupo do arrepio”, compatível com a diferença de resposta individual à música.
          Pois taí o que a jovem Psyche faz na vida. Persegue com a Neurociência as razões pelas quais uns se emocionam mais do que outros com a música e, agora, já pergunta se uma relação análoga àquela entre a anatomia do cérebro e a experiência estética musical também se aplica a outras formas de arte. Os autores sugeriram que seus resultados podem ser importantes tanto para teorias científicas quanto filosóficas acerca da evolução da estética humana, em particular no caso da música, um elemento cultural heterogêneo porém universal.  De quebra, o trabalho pode dar pistas sobre outros mistérios do cérebro humano como, por exemplo, as causas das diferenças entre pessoas dotadas de alta empatia emocional e indivíduos portadores de distúrbios sócio-emocionais. como no autismo.
          Por fim, ainda podemos saborear a poesia embutida no nome da jovem cientista, Psyche, palavra que em grego significa “alma”, e nome da heroína de uma das mais belas narrativas da mitologia grega, a do amor verdadeiro entre Psyche e Eros. Sabe-se lá, talvez a primeira noite de amor dos protagonistas daquele mito tenha sido a inspiração para o apelido de “orgasmo da pele”, que alguns pesquisadores usam para definir o arrepio provocado pela apreciação estética da música.

Rafael Linden
         

           

8 comentários:

  1. Isso sempre me interessou, já que sou do grupo do arrepio...

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  2. Excelente artigo, Rafael! Resta saber se o "grupo do arrepio" já nasceu com mais conexões, ou se as adquiriu mediante a continuada audição de música. É um velho problema para quem trabalha com neuroplasticidade, e que só pode ser resolvido com os estudos chamados "longitudinais", isto é, que acompanham os mesmos indivíduos ao longo do tempo.

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    1. É verdade. Antes de mais nada, em que idade começam os arrepios? A educação musical influencia a apreciação estética e nesse caso "nature" e "nurture" provavelmente sofrerão influência mútua, não acha? Afinal, a polêmica entre o ovo e a galinha já nasceu insolúvel...
      😀

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  3. Artigo divino, Rafael. Parabéns, pelo que vejo seu blog é fantástico!

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  4. E os arrepios "metafísicos", tão propalados com almas do outro mundo? relacionados com área mais ampliada do cérebro?... da imaginação?

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