domingo, 13 de março de 2016

Planetas gasosos na capital federal

          Muitas vezes fui à cidade imperial de Brasilia, a trabalho. E voltei incólume, creiam. Com frequência, em espera nos aeroportos e durante a viagem de avião, avistei políticos que se deslocavam para lá ou cá. Como não sou do ramo, raros nomes me ocorrem para um número bem maior de fisionomias mais ou menos conhecidas. É, no entanto, fácil perceber quem, dentre os passageiros das pontes aéreas da capital federal, possui algum poder. Trata-se daqueles cujas insossas piadas são recebidas, invariavelmente, com sonoras gargalhadas dos que gravitam em torno deles. Quanto mais altas as risadas, mais poder existe no centro das atenções. Há, é claro, os que apenas acham ou fingem que têm poder mas, em torno desses, aquela alegria toda não costuma durar muito.
          Pois, numa destas viagens, li uma das muitas reportagens que tem sido publicadas sobre descobertas de sinais da presença de água em planetas extrasolares, também chamados de exoplanetas. Esses corpos celestes giram em torno de estrelas outras que não o Sol, a muitos trilhões de quilômetros de distância da Terra. Suas características físicas estão em estudo, por exemplo, através do telescópio espacial Hubble, um megatelescópio acoplado a um satélite que há vinte e seis anos circula na órbita terrestre a mais de quinhentos quilômetros de altura. Esse equipamento tem tecnologia suficiente para detectar sinais eletromagnéticos a longas distâncias. E alguns destes sinais correspondem à presença de água.
          Há alguns anos, um estudo publicado na revista científica Astrophysical Journal deu conta de sinais robustos e convincentes da presença de água em exoplanetas. Água fora da Mãe-Terra é sempre uma boa notícia em Astrofísica e Astrobiologia. Infelizmente, não se trata de lugares com um mínimo de condições de abrigar nossas frágeis e exigentes vidinhas humanas. E por que estes planetas não nos serviriam pelo menos para passar as férias de verão, se alguns aventureiros obstinados são capazes até de acampar na praia de Marobá? Porque são insuportavelmente quentes e não dá sequer para fincar as estacas da barraca, já que são gasosos. É isso mesmo, em lugar dos solos arenosos, calcáreos e outros a que estamos acostumados, há no Universo uma infinidade de planetas gasosos.
          Nada demais, pois há mais coisas entre o céu e a Terra do que sonhava o príncipe da Dinamarca – aquele -, não é mesmo? Mas isso não é tudo: imaginem que há exoplanetas em cuja superfície se encontram oceanos de gelo quente. Não é mentira, gelo quente mesmo, que congelou não pelo frio, mas pela pressão. A Natureza é cheia de truques incomuns, porém hoje o que nos interessa mesmo são os planetas gasosos.
          E interessa porque nos permite exercitar o saudável hábito de associar disparidades. Pois a notícia sobre os planetas gasosos imediatamente se funde com os seres que giram em torno dos políticos. Vez por outra se encontra um destes puxassacos – respeitemos o acordo ortográfico - dotados de algo a dizer. Mas esse tipo de frequentador de rodas palacianas anda em dolorosa falta, nesses tempos bicudos nos quais, como disse outro dia um colunista de jornal, o debate político produz muito calor e pouquíssima luz. A maior parte dessa turminha que fica rodeando os poderosos, feito moscas de padaria, não tem nada de sólido. Assim como os gases, dispersam-se ao menor sinal de queda na fatia do poder que sua estrela venha a sofrer, para se reagruparem em torno de outra, suficientemente próximos para suas gargalhadas serem ouvidas e atribuídas à boca que as emite, mas não tão perto que não possam escapar da força da gravidade do centro de seu minúsculo universo, pouco antes da estrela apagar e se transformar em um buraco negro, de onde nada sai.


Rafael Linden

2 comentários:

  1. Certamente 'há mais coisas entre o céu e a Terra do que sonhava o príncipe da Dinamarca'.

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