domingo, 12 de julho de 2015

Retrospecto

          Desta parede vejo tudo sem interferir. A sala do pequeno apartamento é, afinal, o palco oficial das tragédias familiares. Onde quer que sejam urdidas, a conclusão se dá em frente ao meu retrato, pintado por um artista medíocre, a pedido de Heloisa para comemorar nosso primeiro aniversário de casamento. Exatamente dezessete anos antes dela rechear meu ravióli com uma dose cavalar de meu próprio remédio, que descompensou meu combalido coração e acabou com a agonia de um engano.
          Minha filha toma café junto com a mãe, as duas recém-chegadas do funeral. Evento marcante, com dezenas de hipócritas presentes ao velório realizado, para economizar, em minha própria casa. Meu sogro esbanjou talento simulando tristeza. Até o padre reitor do colégio onde, a duras penas, completei o secundário, compareceu para testemunhar a excelência de minha vida acadêmica, outrossim limitada a anotações na caderneta, suspensões e uma quase expulsão, quando eu e Heloisa fomos flagrados pelo inspetor Dionísio, no banheiro, a meio caminho do orgasmo. Não fossem os pais dela, carolas beneméritos de estatura senatorial, estaríamos a caminho de outra escola, cuja reputação trataríamos de manchar assim que possível.
Ainda assim, ex-colegas de nossas respectivas turmas, acompanhados de suas excelentíssimas e abastadíssimas famílias, prestigiaram o velório e escoltaram meu esquife à penúltima morada. A última, é claro, será para sempre a sala de estar, onde resido eternizado em tinta a óleo na parede da qual observo minha viúva e minha órfã. Francamente, não é surpresa vê-las saborear o café sem uma lágrima sequer nos olhos.
          No velório, rostos pesarosos disfarçavam o péssimo caráter de muita daquela gente. Dois anos antes, um de meus mais próximos amigos dos tempos do colégio, filho de um notável da República, seduzira minha filha. Descobri por acaso, mas, ao confrontá-lo, fui instruído que se tratava de mera retaliação pelo tórrido caso amoroso que eu mantivera com sua esposa, do qual o traído não ousara tirar satisfações por estar, na mesma época, alegrando os finais de tarde de Heloisa.
Assisti, da parede, minha indignada surpresa quando, ao exigir de minha filha revelar o nome do canalha que a seduzira, ela me desafiou, petulante, atestando seu consentimento e mencionando a relação lasciva que eu mantivera com uma colega sua de colégio, também de quinze anos. Constatei que nos comportávamos, todos, como uma dúzia de coelhos, de ambos os sexos e todas as idades, encerrados em uma gaiola comum. Daí em diante, desistimos do quesito pudor, enquanto um aborto clandestino livrou-me de ser um avô precoce.
          Pensativo na moldura, eu atribuía toda essa sordidez ao clima insuportável de meu casamento, que deteriorara lenta e inexoravelmente desde o início, e especialmente quando tornei-me caixa no banco e Heloisa se viu desempregada e incapaz de arrumar uma ocupação decente, por ter abandonado a escola sem terminar o colegial para se dedicar aos preparativos de nosso retumbante casamento. Tudo o que conseguiu foi um cargo de secretária numa das empresas familiares. Meus cunhados toleravam a presença da irmã, que assim como eles dividiria eventualmente a herança parental, mas negavam-se a aceitar que ascendesse na carreira. Tudo com respaldo do patriarca, particularmente incomodado comigo, um genro que cursara a escola com uma bolsa da cúria metropolitana, órfão, pobre e, portanto, indesejado.
Antes de secretária, Heloisa foi empresária de moda. Com investimento paterno abriu uma butique no shopping mais sofisticado da cidade, onde vendia roupas importadas e promovia desfiles protagonizados pelas próprias vendedoras. Nessa época, toda noite eu assistia aos intermináveis monólogos da pretensiosa estilista enquanto, lá da parede, ruminava a humilhação de meu emprego como escriturário de um banco de terceira linha. Meu currículo não ajudava e o único consolo era enfileirar as recepcionistas da agência no meu álbum de adultérios.
Toda quinta-feira eu me gabava junto aos amigos, convencido de que Heloisa ignorava minhas escapadas. Ela, fingida, parecia concentrar-se unicamente em seu negócio, entremeado com pitadas de sexo casual com fornecedores e publicitários. De nada adiantou, no entanto, tanto empenho. Soterrada em injustificável confiança e incapaz de perceber o mundo em torno de si, em pouco tempo acumulou decisões equivocadas e dívidas impagáveis. O patriarca perdeu a paciência e fechou a torneira, levando minha mulher à bancarrota em poucas semanas.
Criar uma filha durante a própria adolescência fora difícil. Ao fim de cada dia, exaustos, Heloisa reclamava de tudo e eu mal me reconhecia estendido no sofá em frente a minha moldura. Observava-me, incrédulo, e agradecia à medicina, por ter detectado precocemente minha insuficiência cardíaca. Meu coração, que jamais cumpriria seu destino romântico, sequer preenchia sua função orgânica, propiciando faltas de ar e desmaios ocasionais. O médico de meu sogro comunicou o diagnóstico e, após longa e severa palestra sobre os perigos de overdose, prescreveu o tratamento necessário que, anos depois, acabaria por servir à redenção de Heloisa.
          Quanto a minha encantadora cara-metade, perdera o adjetivo poucos dias após pendurar-me na parede da sala, de onde passei a assistir o conflito diário de um casal inepto para a vida em comum. A afinidade se resumia aos sete minutos regulamentares na cama e se dissolvia por completo em todos os assuntos, em particular no que se referia à criação da menina barulhenta e insuportável, que a presença constante dos avós maternos, ainda por cima, tornava mimada e inconsequente. Objetos domésticos que não se escondia em armários trancados, em pouco tempo passaram a voar, aterrissando ruidosamente no chão ou, ocasionalmente, na minha testa, enquanto a criança já planejava outra maneira de infernizar nossa vida.
          O sogro, cheio de razões morais e ávido por punir a filha e o malfadado genro, comunicou que já nos dera de presente o quarto-e-sala, que achava de bom tamanho dadas as circunstâncias do matrimônio, e que não ajudaria a contratar uma babá, muito menos pagar uma creche. Com isso penalizou devidamente a filha que nunca adquiriu competência maternal e que, de tabela, perdeu rapidamente o viço que atraíra aquele sujeito que se parecia tanto comigo e que eu via, aos poucos, desesperar ao passo que tela, moldura e tintas preservavam em mim uma vaga lembrança dele. Apesar disso, ou por tudo isso mesmo, resistíamos como um casal. Não sabíamos viver a dois, muito menos individualmente.
Meu casamento com Heloisa, que se originara no banheiro do colégio unido pelas virilhas e isolado em todos os outros departamentos, só ocorrera porque a comunidade dos barões carolas já sabia de nossas estripulias, lamentava que a pureza da moça evaporara e, portanto, só restava o caminho do altar, com o brilho habitual acrescido do exagero necessário para sufocar os comentários sobre a impropriedade do branco no vestido de noiva.
O glamour era tanto que mal se notava a discreta protuberância no ventre de Heloisa, de onde seis meses depois saiu minha filha, prematura, segundo minha sogra fez saber às baronesas de seu círculo de amizades.
          Dia das mães. Nublado. Triste. Meu sogro tivera de viajar de surpresa, a trabalho, e não estaria presente ao almoço em meu apartamento. Minha sogra tinha falecido no início do ano, mas, estranhamente, Heloisa e minha filha estavam alegres, chilreando na cozinha, enquanto eu, carne e osso, fitava distraidamente a moldura onde eu, testemunha, me encontrava paralisado e onisciente.
          O vestido novo, meu presente cabível no orçamento estreito, lhe caíra bem, enfeitado pelo colar artesanal que nossa filha comprara na feira da praça. Heloisa estava linda, emagrecera, retomara uma postura elegante à custa de exercícios de manhã cedo, na praia, dirigidos por um atleta com o qual, vez por outra, praticava outros esportes.
          Pela primeira vez celebraríamos a maternidade a sós. Uma família que parecia subitamente capaz de recuperar a felicidade de que cada um de nós talvez tivesse desfrutado um dia.
          Minha filha, sorridente, abriu caminho para uma salada chique, cheia de hortaliças premiadas, nozes variadas, queijos exóticos e lantejoulas, que chegou à mesa para satisfazer ao apetite das duas mulheres. Duas sim, pois a adolescente já era feita, desde os infaustos acontecimentos de dois anos atrás. A exemplo da mãe, seguia rigorosa dieta para manter-se linda e desejável aos olhos de todos os homens, inclusive os que não lhe cabiam.
          Eu desprezava o verde nas tintas, nas árvores e, particularmente, na comida. Mas era meu dia de sorte. Heloisa surgiu logo atrás, usando as luvas de cozinha, presente do ano anterior, e carregando uma travessa fumegante.
- Querido, é pena que papai tenha viajado. Hoje eu fiz aquele ravióli que vocês adoram.



Rafael Linden


4 comentários:

  1. Muuuuito bacana, Rafael. Nota 10 pra você e pro seu blog repleto de textos espetaculares...

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