quarta-feira, 30 de julho de 2014

Noturno de Acari


          O último freguês se despede do dono da birosca, que fecha o caixa. A porta sanfonada já está quase toda arriada. São dez horas da noite, rua deserta, raramente se ouve um ônibus ao longe. Rivaldo anota a féria, recolhe o dinheiro e pensa que sua mulher nem desconfia quando volta para casa de madrugada dizendo que o boteco estava cheio. Aliás, hoje mesmo mais cedo, na hora em que ela passou para deixar a marmita, havia vários fregueses. Então, há tempo para uma visitinha ao boudoir da Marialva. Dá um rápido telefonema, arruma as mesas e cadeiras e vai ao lavatório. Limpa as mãos, o rosto e os sovacos, corta as unhas no capricho, troca de camisa, olha-se no espelho e, apesar da azia e de uma leve tonteira, dá-se por satisfeito. Ao sair do banheiro percebe que tem companhia.
***
          O investigador de terceira classe Gervásio Ornelas está de plantão na delegacia quando o telefone toca. O detetive já passou dos cinquenta anos, está prestes a se aposentar e nunca foi promovido, desde que saiu direto do artigo noventa e nove para a Polícia Civil através de um concurso meio maroto. Vem rodando pelo interior do estado, atuando na solução dos mais diversos crimes, invariavelmente a reboque de um superior. Queixa-se de discriminação por ser gordo, mas nem por isso se priva da sardinha frita, que devora aos cardumes, lubrificados com volumes industriais de cerveja preta.
          Quem leva os louros quando se pega o malfeitor é sempre mais graduado, porém nem sempre mais antigo, coisa que o incomoda mais do que unha encravada. Acaba lotado na minúscula delegacia de Acari, um dos bairros mais pobres do Rio de Janeiro e, é claro, só pega o que sobra da escala, fins de semana, feriados, expedientes noturnos. Ainda assim espera tornar-se uma celebridade ao resolver um mistério espetacular que ocupará as páginas policiais por várias semanas.
          Será hoje? Respira fundo, fecha os olhos antecipando as letras garrafais “DETETIVE ORNELAS DESVENDA O CRIME DA DÉCADA!”, pigarreia e atende o telefone com voz de locutor de baile de debutantes:
          - Delegacia de Acari, em que lhe posso ser útil?
          - Aê, ô cara, a birosca do Rivaldo, na Travessa Piracambu, tá com a porta meio levantada, luz acesa e o melado escorrendo pra calçada. Tem um presunto lá dentro, morou?
          - Quem está falando?
          - Né ninguém não. Vai lá.
          - Alô! alô! Fiadaputa, desligou.
          E lá vai ele, depois de acordar o escrivão que dormia numa sala dos fundos “Fica de olho, Jurandir”, e de deixar um bilhete na porta da delegacia com os dizeres “Antonio, saí numa diligência. Quando terminar passo aí de volta. Tem café na garrafa, mas está com gosto de Neocid”.
          Chega em menos de dez minutos ao local indicado e confirma a ocorrência. Não há mais ninguém na rua àquela hora. De repente, uma patrulhinha da Polícia Militar passa em marcha lenta. Ornelas acena para o veículo, identifica-se e explica a situação.
          Saltam do carro dois meganhas corpulentos, o primeiro sargento Bezerra e o soldado Aragão, impecavelmente fardados – apesar da hora - e comportando-se com deferência um tanto excessiva. O detetive, no entanto, acha tudo muito natural e saboreia o momento antes de iniciar os trabalhos. Ergue um pouco mais a porta sanfonada para entrar e examina o cadáver. É de um homem alto, forte, um pouco menor que o sargento, e a esta altura completamente defunto. O “melado” encharcou a camisa da vítima e se espalhou até pingar na calçada. Ornelas telefona para o legista.
          O velho doutor chega meia hora depois, dirigindo um fusca velho e vestindo sobre a blusa do pijama um paletó ainda mais rodado do que o automóvel. Traz na mão uma pasta de couro puído e na cara um ar entendiado e cínico. Depois de um rápido exame, o médico se levanta das cócoras com grande dificuldade em meio a gemidos e imprecações.
          - O felizardo levou sete facadas. Pelo menos três fatais, uma no coração, mais uma no pescoço e outra que vazou a aorta. Levou também uma porrada na cabeça que fez um baita estrago. E tem uma gosma suspeita saindo do canto da boca. Ah, antes que eu me esqueça, o morto é fresquinho, menos de duas horas.
          Ele ainda acrescenta um comentário irônico sobre a elegância da camisa que o falecido veste, comparando-a com sua coleção comprada na Ducal, uma loja há muito extinta. Missão cumprida, retira-se com uma risadinha, zombando da perícia:
          - Agora tá na hora de chamar o “ciéssái”, detetive...
          Na terceira tentativa consegue dar partida no fusca e se vai.
          Os policiais militares se oferecem gentilmente para proteger a cena do crime e manter afastados os curiosos que já se aglomeram. Ornelas anota o nome dos populares e pergunta se viram ou ouviram alguma coisa...não, ninguém, nada...conhecem o morto?...claro, é do bairro...tem família?...tem, casado, dois filhos...a esposa já sabe? O Jorjão, um malandro forte, perfumado e vestido com esmero, cabelo engomado, diz que Rivaldo morava bem pertinho e ele pode avisar a viúva. O sargento Bezerra, solícito, oferece-se para ir junto. O soldado fica por lá mesmo, paquerando a Marialva, que acaba de se juntar aos circunstantes.
          Gervásio consulta o relógio. Meia noite e meia. O Antonio Fernandes, investigador de primeira classe, chega na delegacia sempre por volta das dez da manhã e o delegado só depois do meio-dia. Até lá Ornelas já terá dominado a situação e o caso será seu. Está tudo dando certo, pensa.
          O perito chega pouco depois, num furgão mal-ajambrado, portando uma mochila que em nada lembra a imponente maleta dos personagens do programa de televisão que ele assiste, religiosamente, na versão dublada exibida por um canal de TV aberta. Ouve do detetive as informações do legista, examina o cadáver, fotografa a cena do crime de vários ângulos, coleta uma amostra da baba espumante, “parece veneno”, e em menos de quinze minutos pede ajuda para enfiar o Rivaldo num saco impermeável e botá-lo no furgão, a fim de transportá-lo para o Instituto Médico-Legal.
          Gervásio intervém:
          - E as impressões digitais?
          - Num lugar desses? Olha que merda de limpeza esse cara faz...fazia aqui. Tem poeira acumulada de uns três anos. Você quer interrogar todos os fregueses que já pisaram nessa birosca?
          O detetive se exalta:
          - Pelo menos na porta, no entorno do cadáver, em algum lugar deve ter o dedo do assassino, porra! Deixe os interrogatórios comigo! E veja se tem resíduo de briga nas unhas do cadáver!
          O perito resmunga entre dentes “merda, deviam proibir a TV de passar aquele programa...” e sai espalhando pozinho preto, coletando digitais por todo o estabelecimento. Tenta, mas não consegue encontrar nada nas unhas do morto, cortadas muito rente. Meia hora depois dá o trabalho por terminado e ainda ridiculariza o legista, que não percebeu uma fratura no tornozelo do morto, compatível com um rabo-de-arraia o qual, prossegue triunfante, provavelmente causou a queda que levou à fratura do crânio.
          O tempo passa e nada do Jorjão e do sargento voltarem com a esposa do falecido. Finalmente, aparecem quando já passa das cinco. Os homens amparam a mulher, que chora baldes, grita que quer morrer, o meu Rivaldo, o que foi que fizeram com ele, eu quero meu marido...lamento minha senhora, mas vocês demoraram tanto que o corpo teve de ser removido para o IML, a senhora vai lá para reconhecer...eu quero meu Rivaldo...pode deixar, detetive, que o Aragão leva ela na patrulhinha, eu fico aqui para qualquer coisa. Então tá. E lá vai o soldado, contrariado, levando a viúva no carro. Os circunstantes resolvem ir para casa dormir.
          O sargento Bezerra pendura uma fita para isolar o local e parte na patrulhinha assim que o Aragão volta do IML. Pouco antes das seis horas o detetive volta à delegacia e fica surpreso ao encontrar Antonio, aboletado na cadeira do delegado com os pés em cima da mesa.
          - E aí, Gervásio, onde você se meteu?
          - Ué, você já chegou? Nunca te vi aqui antes das dez! Caiu da cama?
          - É, insônia. O Jurandir me disse que você saiu apressado de madrugada.
          - Pois é, apagaram o dono de uma birosca e alguém denunciou por telefone.
          - Quem morreu?
          - Rivaldo das Luzes.
          - Foi roubo?
          - Não parece, o cara tinha uma boa grana no bolso.
          - Quem denunciou?
          - Não deu nome, desligou na minha cara.
          - Quem matou?
          - Ainda não sei, mas tenho fortes suspeitas. De manhã vou começar a chamar todo mundo para interrogar.
          - Eu ajudo.
          - Escuta, Antonio, esse presunto é meu, tá certo? Se você quiser acompanhe, mas eu preciso ter uns bons casos na minha conta senão vou ficar na terceira classe a vida inteira.
          - Tá bom, tá bom, não precisa ficar nervoso. A ocorrência é sua, só vou acompanhar porque minha agenda está livre. Agora vá dormir, que o dia já clareou.
          - Eu volto daqui a pouco. Tem café...
          - Já sei, eu li o bilhete. Pode ir que eu me viro.
          Dormir, coisa nenhuma. Antes das nove o intrépido Gervásio Ornelas já está de volta, barba feita, banho tomado, com sua melhor roupa, pronto para o trabalho. Manda chamar a viúva. Conceição Agostiniano das Luzes vem, toda de preto, acompanhada pelo sargento Bezerra, à paisana. A roupa dele parece apertada.
          - Que merda é essa, tá fazendo o que aqui?
          - Dona Conceição pediu escolta. Está com medo.
          - Medo? Por que?
          - Ela não sabe quem matou o marido, nem se querem exterminar a família toda.
          - E os filhos?
          - Com a vizinha.
          - Certo, mas você espera aqui fora que eu vou conversar a sós com a viúva.
          Gervásio leva Conceição para a sala ao lado. Dispensa-a uma hora depois e, enquanto ela se retira com o sargento, vai falar com Antonio.
          - Quase desmaiou de tanto chorar, não sabe quem, não sabe o motivo, o marido não tinha inimigos, blá, blá, blá. Mas pra mim esse presunto tá com cara de obra de viúva negra. E quem foi que chamou aquele foca?
          Ele agora se refere ao jovem repórter policial Claudino da Fonseca, do jornal “Notícias populares” que, nauseado, acaba de jogar no lixo o copinho de plástico com café e tudo. Gervásio se apruma e cumprimenta o rapaz, que prepara um relato do homicídio para a segunda edição do jornal. Tudo nos conformes, pensa nosso herói, agora vou ficar conhecido. Solícito, conversa com Claudino, que anota tudo e fica fascinado pela teoria da viúva. Gervásio, naturalmente, diz que é cedo para divulgar sua suspeita porque pode atrapalhar as investigações, e pede sigilo. Claudino concorda plenamente e, ao sair, garante que o assunto dará uma manchete e tanto debaixo da fotografia do cadáver in loco, que ele recebeu por correio eletrônico do perito, seu amigo de infância. Aproveita para tirar com o celular uma foto do detetive.
          Gervásio tenta se concentrar na investigação porém, pouco tempo depois, a edição online do jornal estampa a manchete em letras garrafais: “BIROSQUEIRO ASSASSINADO - DETETIVE SUSPEITA DE VIÚVA!”. O detetive gela, porra, eu disse que não era pra publicar.
          Não deu outra. Dona Conceição logo aparece, histérica, junto com um sujeito elegante, de terno de linho e gravata italiana, empunhando uma pasta de couro impecável. A mulher grita que o advogado dela vai acabar com a raça desse detetive de merda...desculpe, foi um mal-entendido, amanhã haverá um desmentido formal...ainda bem que o Antonio consegue botar panos quentes. Os dois filhos que, desta vez, acompanham a mãe possessa, confirmam que ela estava em casa quando o Jorjão acordou todo mundo dando a notícia da morte do Rivaldo, às quatro e meia da manhã. Eles viram a hora no despertador, sim senhor.
          Claudino reaparece acabrunhado e culpa o editor a quem confidenciara a hipótese da viúva e que, sem seu conhecimento, mexeu no texto e mandou aquela manchete para o ar. Pede todos os perdões, que ele não tem intenção de desmoralizar um detetive tão competente, o escambau. Feitas as pazes Gervásio, novamente com o ego inflado por ser ele, e não o Antonio, o centro das atenções, prossegue com a investigação. Na falta de pistas, concentra-se nas pessoas que conheceu na Travessa Piracambu. Chama o Jorjão para saber onde ele estava até aparecer entre os curiosos. No baile funk de uma favela próxima. Bezerra e Aragão confirmam que vigiaram o evento, resgataram o malandro de uma briga e tinham acabado de deixá-lo em casa quando passaram pela travessa e encontraram o detetive chegando ao local do assassinato. Isto não impede que, após nova entrevista com Claudino, o jornal troque a reportagem por outra que incrimina o Jorjão, sob a manchete “DETETIVE ORNELAS IDENTIFICA NOVO SUSPEITO DO CRIME DE ACARI” apresentando, ao lado do texto, a foto de Gervásio que o repórter tirou com o celular. O detetive murcha mais um pouco.
          Ele ainda interroga umas duas ou três pessoas, todas inocentes, inclusive a Marialva, cujo álibi é confirmado por ninguém menos do que o investigador Antonio, sob sigilo porque ele é casado. Outras versões aparecem, sucessivamente, na edição online das “Notícias populares”, sempre seguidas por turbulentas visitas do novo suspeito na companhia de um advogado. E Antonio a botar panos quentes. Finalmente, o editor se satisfaz com o título “Beco sem saída na apuração do crime de Acari”, assim mesmo em minúsculas num canto de página. O detetive, coitado, é severamente repreendido pelo delegado, que cansou de acompanhar aquele circo dentro da delegacia.
***
          O crime acaba esquecido em meio a tantos outros no bairro. Depois de uma demorada reforma, a “Birosca das Luzes” reabre sob a improvável gerência do Jorjão. Dona Conceição se amanceba de vez com o sargento Bezerra. O casal, curiosamente, se dá muito com o investigador de primeira classe Antonio Fernandes, o qual continua frequentando a Marialva, regularmente, pelo menos duas vezes por semana.
          Quanto ao Ornelas, aposenta-se com uma pensão mixuruca e volta para a cidadezinha onde nasceu. Passa meses tentando esquecer o fiasco midiático, fundo do poço de sua lamentável carreira na terceira classe da Polícia Civil. Certa noite, depois de muita sardinha frita com cerveja preta, um pesadelo o atormenta com a cena da viúva entrando feito louca na delegacia, depois de ver a primeira manchete desmoralizante sobre o crime de Acari. No sonho, os filhos do falecido relatam a noite em que foram avisados da morte do pai e um eco inusitado repete as palavras “...quando o Jorjão acordou todo mundo às quatro e meia da manhã...às quatro e meia...às...”. O detetive desperta suando em bicas.
          Quatro e meia?!

Rafael Linden

4 comentários:

  1. Olá, sou o Alfredo do Portal Teia, lembra de mim?
    Estou passando para contar uma novidade muito boa para os blogueiros, acabei de criar um agregador de links especialmente para blogues wordpress e blogspot , assim posso voltar a divulgar as postagens dos amigos e claro que seu blog já tem vaga garantida.
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    Até mais e uma ótima semana pra você !

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    1. Que boa notícia, Alfredo. Obrigado por avisar, vou lá.
      abraços
      Rafael

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  2. Olá Rafael, Fique a vontade para enviar textos quando quiser ao nosso agregador, vc é sempre bem vindo!

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    1. Obrigado, Alfredo. E parabéns pela nova iniciativa.
      abs
      Rafael

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