sábado, 21 de junho de 2014

Noites

          Preciso comprar um aparelho de ar condicionado. Está um calor insano, já me livrei de quase tudo que havia sobre a cama. Sobramos apenas três itens: o corpo inerte num calção frouxo, o travesseiro molhado de suor e a angústia. Já amanhece e não preguei o olho, tomado pela exaustão que alimenta essa vigília delirante.
          O juiz indeferiu minha petição e o cliente vai pagar uma fortuna em indenizações. Minha mãe está no CTI há dois meses e meu pai, que era só esperança, pressente o fim. Assim que cheguei em casa, minha irmã telefonou para contar que o namorado foi novamente internado para desintoxicar. E Sônia saiu de casa dizendo que era definitivo.
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É a terceira vez este ano. Ela sempre volta, não sei porque ainda perco o sono com suas fugas impulsivas. Estamos juntos há cinco anos, desde uma quarta-feira no McDonald’s da Rua Uruguaiana. Costumávamos nos ver por ali, mastigando com pressa. Dois advogados recém-formados, sempre em trânsito do escritório para o Forum, dali para o cartório ou voltando rápido para ouvir um cliente. Cabeças cheias, bocas ocupadas demais para sorrir, apenas olhares trocados de longe, até o dia em que entramos na fila ao mesmo tempo. Tenho a noite inteira para lembrar de cada frase da nossa primeira conversa.
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          O dono da firma é um daqueles juristas celebrados, amigo do prefeito, do senador, do ministro, do bispo, do patrono da escola de samba, da puta que o pariu. Cria jurisprudência nos salões da burguesia. Enquanto isso a base da pirâmide, solidamente pousada sobre meus ombros e de duas dúzias de colegas, redige, refuta, replica e rebola feito minhocas, distorcendo cada fibra do tecido legal para ajudar o medalhão a ganhar as causas. Aberratio ictus, Ad judicia, Concilium fraudis, Meritum causae, uma enxurrada de termos jurídicos, em Latim, inunda meus olhos arregalados.
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          Antes de voltar para casa estive no hospital. No começo da semana o médico me disse que os remédios de minha mãe já não fazem mais efeito. A pressão cai progressivamente, os rins enfraquecem, é uma questão de dias. Não tenho coragem de contar para meu pai, que lá está confiante, velando pela esposa. Isso me atormenta, alguma hora ele tem que saber.
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          Não sei o que fazer pelo moleque. Dezessete anos e já está na quinta internação. Minha irmã diz que ele precisa de apoio, senão vai voltar a usar. O infeliz já levou uma surra por dívida com traficante, ela vive apavorada que o garoto seja assassinado. E eu temo por ela. Não preciso de nada do que ele usa para ficar acordado, com os olhos esbugalhados.
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          Quando Sônia me aprovou no vestibular para namorado, logo percebemos que praticamos o sexo mais intenso, trocamos os beijos mais quentes e dizemos as mais belas frases de paixão. Depois de uns seis meses, entabulamos planos conjugais. Casamento nem pensar, somos advogados e sabemos no que dá quando a linha tênue que une um casal se rompe com estardalhaço. Basta-nos uma união reconhecidamente instável desde que, ao fim do dia, possamos nos entrelaçar sobre um colchão confortável, testemunha muda e macia de nosso vigor erótico. “Como foi o seu dia” não passa de dez minutos, eu falo de empresas em apuros, ela de investigações de paternidade. Tudo, é claro, protegido pelo sigilo profissional: até os vetustos presidentes das corporações são descritos com tarja preta nos olhos. Nos primeiros anos funcionou muito bem, não fazia esse calor no quarto. De uns tempos para cá, com frequência me acontece de suar em bicas enquanto decido qual de dois qualificativos, do mais baixo calão, melhor se encaixa na personalidade de minha companheira. Dilema difícil, deve ser por isso que não consigo relaxar.
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          Mamãe ficou doente há um ano, justo quando eu estava para ser promovido. No começo não parecia grave, não se preocupe, uma dorzinha aqui, outra ali, não é nada, vai passar. Foi ao médico emburrada, exames, consultas, inoperável, só radioterapia, segunda opinião, outro médico, exames, radioterapia, agora um médico recomendadíssimo, radioterapia. Melhorou bastante, sim. Tem que voltar para consulta daqui a três meses, quimioterapia, os cabelos eram lindos, meu pai se entristece. Eles precisam de mim, o velho não dirige. Os colegas são compreensivos, cobrem as ausências, mas minha promoção foi para as calendas. Sinto falta do olhar interessado, daquela mulher alegre, outrora tão forte. Minha irmã não se abala com o declínio da própria mãe, só tem olhos para o namorado - um garoto muito esquisito, foi internado, agredido, internado de novo, saiu, internado, saiu, de cada vez ele jurou que nunca mais. Mãe vai para o hospital pela sexta vez. A última. Meu velho implora, em silêncio, que eu diga está tudo bem, ela está estável, os médicos estão confiantes, ela vai reagir dentro de poucos dias e sairá do coma, logo estará em casa. Cozinhar, só para o Natal, mas isso se dá um jeito, não é, filho? É, pai. Ele sorri. Minha mãe dorme. Eu, não.
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          Sônia reclama o tempo todo que eu só penso no trabalho, que só me preocupo com a saúde de minha mãe, enquanto ignoro que ela mesmo tem um caroço no seio e vai ter de operar, que não ligo para o problema do irmão dela, que é o mesmo do namorado de minha irmã. E se ela não voltar, desta vez?
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Trabalho feito mouro para o elegantíssimo causídico ajeitar tudo entre um magret de canard e um Bordeaux e, logo, celebrar as sentenças com talagadas de Courvoisier L’Esprit e baforadas de Cohiba, sempre acompanhadas de alguma piadinha infame sobre o Fidel. Se a causa envolve uma grande empreiteira, a comemoração se eleva ao nível de um Remy Martin Louis XIII, edição limitada, o conhaque mais caro que existe, e que só existe para me sacanear enquanto eu tomo uma cerveja comum, caso tenha ouvido algum comentário de que contribuí para o sucesso do chefão. Hoje nem isso, pisei na bola e posso receber, amanhã cedo, um discreto chamado à sala do diretor da minha divisão, de onde sairei diretamente para o ostracismo jurídico, no qual nunca mais conseguirei dormir.
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          O garoto foi esfaqueado dentro da clínica e tive de levá-lo para o pronto socorro. Ele não resisitiu. Enquanto tentava consolar minha irmã, o diretor da divisão passou a tarde me procurando para saber o que diabo tinha acontecido na véspera. Fui informado, agora à noite, de que não preciso mais voltar ao escritório, a não ser que queira pegar uns poucos pertences que eu mantinha sobre a escrivaninha. O relógio marca quatro da madrugada e meus olhos estão bem abertos. O calor está insuportável. O telefone toca. Do outro lado da linha, meu pai balbucia palavras ininteligíveis.
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          Sônia pode voltar a qualquer momento e esse calor não me deixa dormir. Preciso comprar um aparelho de ar condicionado.

Rafael Linden

4 comentários:

  1. O mais divertido é que o texto é tão envolvente que só no final volta na memória "ah, é mesmo...Sônia havia saído de casa" :))) gratulacje

    Beijo grande
    CG

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