sábado, 3 de maio de 2014

Moral da história

          A tarde cai sobre o grande lago ao sul de Uganda. A partir dali o Rio Nilo Vitória flui para o norte, enriquecendo a paisagem. Sequer se percebe a proximidade da capital, a menos de oitenta quilômetros. A região abriga inúmeras espécies animais, desde elefantes e rinocerontes a seres microscópicos. É destino frequente de exploradores, sempre extasiados com a variedade da vida animal e da vegetação, num continente que abriga extensas terras desertas, tanto naturais quanto fruto da devastação humana.
          O dia passa devagar, movimentado por turistas levados pelas mãos seguras de guias nascidos e criados nas redondezas, sempre dispostos a dividir seu conhecimento e brindar os visitantes com as histórias e as lendas da savana. Narrativas como a de Mwaka, um ugandense de meia-idade que garantiu ao seu grupo de boquiabertos estrangeiros ter, num final de tarde como este, ouvido seu dialeto nativo de uma língua bantu servir para o diálogo entre uma lombriga e um verme achatado que causa esquistossomose, que se encontraram ao nadar, preguiçosamente, em movimento lentos e sinuosos, num cantinho calmo bem próximo da margem do rio.

          - Olha quem chegou toda lampeira! Lolô, há quanto tempo! Mas você está linda, esse seu corpo longilíneo me mata de inveja. É impressão minha ou você cresceu?
          - Pois é, Esquissa, cresci mesmo, passei meses na merda mais maravilhosa da minha vida.
          - É mesmo? Conte tudo pra mim, amiga, não me esconda nada.
          - Você sabe, nosso povo se esforça tanto para entrar no bucho da alta sociedade, mas em geral só infecta pobre, né? Pois eu achei um executivo de uma multinacional, que me pegou bebendo a água de um riacho que encontrou numa excursão por aqui. A água parecia limpinha, mas estava contaminada pelo esgoto daquele hotel chique que fica logo ali. Eu era um ovinho de gente, mas fiquei de olho e pulei para dentro da concha da mão daquele homem encantador, todo paramentado, parecia o Indiana Jones. Ele me engoliu de um jeito tão suave e carinhoso que fiquei emocionada. Decidi na hora, é com esse que eu vou. Primeiro, vou me fartar de visitar essas entranhas charmosas, depois vou criar minha família feliz.
          - Que romântico, amiga! E deu certo, né? Você sumiu!
          - Se deu, passeei por dentro daquele homem lindo durante uns dois meses, estive até no coração dele, até que me mudei para o andar de baixo. Aí, olha a surpresa, dei de cara com o Lombrão, aquele pedaço de mau caminho que já deu disenteria em pelo menos três astros de Hollywood, de blusa listrada, chapéu de palha, fumando um cigarro mentolado, encostado na parede do intestino do gringo. Ele piscou o olho para mim e eu me apaixonei na hora. Juntamos as escovas de dentes e fomos morar num resort de primeira, que serve o melhor bolo que eu já comi na vida, se é que você me entende...Vida mansa, cheia de amor e o Lombrão - ui! - não negava fogo. Tem mais de duas mil lombriguinhas com a minha cara boiando por aí.
          - E por que acabou o romance?
          - Ah, amiga. Nada dura para sempre. O executivo demorou, mas acabou se dando conta de que os desarranjos dele não eram por excesso de caviar e, justamente quando voltou aqui para fechar um negócio, o médico desse mesmo hotel receitou um vermífugo. Saímos juntos, mas nunca mais encontrei o Lombrão.
          - Que pena, mas você nem parece que engravidou tantas vezes, está linda, mais de meio metro de falsa magra, toda rolicinha.
          - Eu nado muito para manter a forma. E você, minha querida? Tem espalhado muita doença? Por onde andou?
          - Ah, Lolô, eu não dou essas sortes não. Passei os últimos meses entrando e saindo de matutos de todo tamanho e feitio. Você sabe, eu não tenho essa agilidade toda, preciso esperar o otário tomar banho no rio para dar um jeito de entrar pela pele. Depois é melhor, dá para passear pelo sangue, namorar uns glóbulos vermelhos, me dá até um tremelique...
          - E depois?
          - Bom, depois a coisa fica meio aborrecida. Você sabe que eu detesto iscas de fígado, mas é tudo que tem para comer. É por isso que, assim que posso, dou tchau e me mando. Sempre que estou saindo procuro por você, mas a gente não tem tido sorte de se encontrar. É uma pena.
          - Você está linda, enxutíssima, com esse corpinho de modelo.
          - Sei não, amiga. Estou meio fora de moda, até a Vogue está se livrando das tops muito magras, não demora vocês todas vão estar rindo desse meu corpo achatado, sem peito, sem bunda nem nada.
          - Nãããão, quéiiissso! Você sempre vai ser invejada. Ou você acha que o mundo algum dia vai apreciar aquelas coisas hor-ren-das que estão saindo da água?

          Mwaka fez uma pausa, pensou bem se era apropriado continuar a história na presença de Orlando e Marisa, um casal de brasileiros gorduchos que suavam em bicas mas, assim como o resto do grupo, acompanhavam atentos a narrativa do guia. Resolveu prosseguir: “- Nesse momento, Pipa e Popó, um jovem casal de hipopótamos, sai do rio para pastar na grama próxima. O couro castanho acinzentado brilha ao sol poente, enquanto os bichos se dirigem, com a habitual pachorra, para seu restaurante predileto.”

          - Está falando de quem, Lolô, aqueles gordões ali? T’esconjuro, Deus me livre de perder minha silhueta, assim também é demais. Eu quero continuar esguia, porém roliça como você, que vai ser o new look da Vogue.
          - Ah, minha filha, você é um verme diferente, levaria milhões de anos para mudar de forma assim. Mas não se preocupe, sempre haverá boa vontade para quem não tem peito nem bunda. Mas para quem tem de sobra, como aqueles dois, não dá mesmo. Minha tia leu num jornal...
          - Sua tia lê jornal??!
          - Claro, meu bem, tem gente que usa jornal...você sabe...mas como eu ia dizendo, minha tia leu que uns estudantes, lá no Brasil, já inventaram até um rodeio em que eles agarram estudantes gordas e derrubam elas no chão, igual aos peões das festas dos boiadeiros.
          - Eu bem que gostaria de ir para o Brasil, tenho família por lá. Queria ver esse rodeio.
          - Pois é, no Brasil pode tudo. Diz no jornal que eles se divertem a valer com essa brincadeira. As gordas não gostam, mas quem mandou serem gordas?
          - Eu morreria se fosse gorda.
          - Eu também, olhe para aqueles dois, comendo aquela grama toda. E eu não sei o que passa pela cabeça desses seres humanos. Diz que agora tem comédia romântica com atores gordos na televisão! Teve uma colunista da Marie Claire que criticou à beça esse negócio de mostrar gente gorda na televisão, ainda mais se beijando, vê se pode.
          - Quem é essa Marie?
          - É uma revista, também serve para...quer dizer, minha tia também lê. Mas eu acho que isso aí é coisa de americano. Por aqui, graças a nós, é difícil achar um ugandense bem nutrido, que dirá um gordo.
          - Lá isso é. Os meus ficam barrigudos, mas as pernas ficam fininhas. E os gordos, não reagem?
          - Sei lá, eu é que não me importo com eles.

          “- E então - continuou Mwaka – foi nessa hora que Pipa e Popó, saciados, voltaram para o rio, passando bem perto dos vermes que conversavam. Popó, que tinha comido demais, não aguentou e despejou, na margem do rio, a monumental quantidade de fibra que a grama lhe fornecera poucas horas antes, no café da manhã. E foi assim que Lolô e Esquissa, atingidas em cheio no turbilhão, foram varridas cada uma para um lado e nunca mais se encontraram para conversar sobre seus corpinhos esguios e sua vidinha inglória, cuja única serventia é espalhar doenças entre os incautos.”
          Os turistas estavam embasbacados. Não conseguiam dizer nada, não sabiam se riam ou, sequer, se duvidavam da veracidade da história de Mwaka. Este encarava o grupo com um ar meio debochado, contente por ter, mais uma vez, narrado sua fábula favorita dentre todas as que aprendeu na vida. O silêncio durou mais alguns segundos, enquanto se ouvia apenas os ruídos dos pássaros e o leve rumor das águas do Nilo Vitória, movendo-se tranquilamente, alheio a tudo que se passa ou que se pensa ao seu redor. Orlando e Marisa, os gordinhos brasileiros, entreolharam-se e, em coro, encerraram a fábula com a moral da história: “- Aqui se faz, aqui se paga...”.


Rafael Linden


4 comentários:

  1. Oi querido, sua criatividade cada vez aumenta mais!! :))) saudade!!

    Beijo grande

    CG

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  2. Rafa
    Genial.Gostei muito. Q criatividade médica. O Mwaka lembra algumas pessoas da minha terra.
    Abç
    Leão

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