sábado, 24 de maio de 2014

Eu vejo

          Vitor chega em casa e vai direto para a cozinha, em busca de sua cerveja. A despedida, gravada com batom vermelho na porta da geladeira, diz “Não tolero mais traição”. Um lado do armário do quarto está vazio. Sheila partiu.
           Desnorteado, ele abre a carteira e encontra o papelzinho com um nome e um número de telefone, exatamente onde o colocou. Não ligou, nem sabe se o faria, apesar do tesão que sentiu quando, na véspera, uma cliente que sequer conhecia deixou-lhe discretamente o bilhete ao fim de uma reunião.
          Ontem ele não fez nada diferente dos outros dias. Voltou do trabalho, abriu a cerveja, encomendou uma pizza, assistiu ao jogo pela televisão e foi dormir. Sheila estava fora da cidade, na casa dos pais, e só chegou hoje ao meio-dia, quando Vitor já estava no escritório. Conversaram rapidamente ao telefone sobre a saúde do sogro e se despediram normalmente.
          Sua cabeça lateja. Não houve nada. Guardou o bilhete, só isso. Talvez – talvez! - pensasse no assunto. Ela não mexeu na carteira. Como, então?
          Faz sete anos. Sem filhos, só carreiras. Interesses semelhantes, carinho, sexo. Já não se despem impulsivamente na sala, dá tempo de chegar ao quarto, pendurar as roupas e tirar a colcha da cama. Mas, depois de sete anos é assim, não? Os dois se bastam, ele nunca se interessou por outra mulher.
          Lembrou-se de que, no dia em que se conheceram, ela disse “eu vejo que você é sincero”.

***

          Poucas horas depois do acidente, o plantonista declarou a morte cerebral de ambos e dirigiu-se à sala de espera. As filhas do casal, bem como os filhos dos quatro casamentos anteriores do marido concordaram com a doação.
          A equipe do Centro de Transplantes chegou rápido e levou o coração do homem para a Beneficiência Portuguesa, onde as enfermeiras já preparavam Vitor para receber o órgão. As córneas da mulher foram para Sheila, a primeira da fila do Hospital de Olhos.


Rafael Linden


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