domingo, 6 de abril de 2014

O encontro

          Eu a vejo pela primeira vez na fila do caixa. Tão linda que se abre espaço ao redor, como em torno de uma escultura. Move-se com toda a graça que há, nada sobra para outras. Exibe a forma que, no roteiro original do Universo, foi registrada como corpo perfeito de mulher.
          Cabelos ondulados acariciam os ombros nus. Ao mover-se, o vestido tomara-que-caia, quase transparente, desliza sobre suas curvas e acentua os seios, as coxas. Tem pernas divinas, pés graciosos emoldurados por sandálias de tiras finíssimas. Ninguém fica indiferente. Cabeças masculinas, em todos os cantos do banco, balançam ao ritmo de seus passos, olhos ávidos deslizam junto com o tecido que mal separa o ar daquela pele.
          Esqueço o que vim fazer aqui, na outra fila. Seguro com força o maço de contas, como se me agarrase à concretude para escapar da libido delirante. A lerdeza do atendimento nos caixas jamais foi tão bem-vinda, prolonga o prazer de olhá-la da cabeça aos pés, de onde retorno devagar pela contramão para recomeçar a viagem. No caminho, advinho tudo o que mal se esconde dos olhos. Uma cliente atrás de mim sussura, irritada – enciumada?: “a fila andou...”.
          Estou com sorte, tanto ela como eu precisamos resolver pequenos problemas na gerência. Aguardamos lado a lado em um sofá desconfortável. Sequer me incomoda, porque a todo momento nossas pernas se tocam. Percebo que ela sorri discretamente e desvia o olhar. Conversamos, aprecio sua voz instigante. Ela conta que é cliente há pouco tempo e, assim, me permite exibir domínio da agência ao apregoar minha intimidade bancária com os funcionários. Aprendemos nossos nomes, profissões, bairros em que moramos. Comentamos brevemente os livros que temos nas mãos e descobrimos uma afinidade que reforça a atração.
          Hoje o serviço na plataforma está mais eficiente do que o costume e, infelizmente, logo chega sua vez. Senta-se à mesa da gerência e eu me perco outra vez no contorno de suas pernas. Depois de atendida, retira da bolsa dois cartões de visitas. Dá um ao gerente e anota algo no verso do outro cartão. Levanta-se, agradece e, ao passar por mim, deixa o outro cartão no qual leio o número de um celular e o recado: “Quero te encontrar. Liga para mim?”. Os pingos nos “is” são dois coraçõezinhos juvenis, que me fazem morder os lábios.
          O gerente me chama. Ele retribui meu largo sorriso, sem entender tanta alegria. Mas recebe-me com a gentileza habitual: “Boa tarde, Dona Flávia, em que lhe posso ser útil?”.

Rafael Linden


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