domingo, 13 de abril de 2014

Duas xícaras


         A carta chegou por via aérea num envelope branco abarrotado de selos coloridos. Deixo-a sobre a mesinha de centro da sala. Há trinta anos, as duas xícaras do café da despedida ficaram esquecidas naquela mesa por alguns dias. Antes de ser aberta, a carta precisa descansar da viagem.
***
        Nosso encontro se dá com um aceno protocolar de cabeças durante uma festa de convidados desinteressantes, incluindo nossas próprias companhias. Disfarçadamente, trocamos telefones. Dias depois sequer nos lembramos de antes. Por quase dois anos somos um só corpo.
          Ela é a mais encantadora, a mais espirituosa, a mais brilhante de todas as criaturas. Bela, sensual, um jardim de felicidades diversas, do qual eu colho a qualquer hora uma nova alegria, um carinho inédito, um prazer distinto. Ao fim do episódio uma sensação indelével, mistura de exaustão física com um desejo latejante de recomeçar. Ela retribui cada gesto, cada carinho, cada movimento com arrebatamento e, ao menor descuido de minha parte, oferece espontaneamente o primeiro gesto, o primeiro carinho, o primeiro movimento a iniciar mais um doce festival de carícias.
          A intimidade cresce como incêndio na mata seca. Crescem também a insegurança e o ciúme. Eu a vejo como a mulher mais cobiçada, o mesmo que ela nutre por mim. Em meio à obsessão receamos que tudo acabe, que o fogo se divida com outros. Nossa entrega ganha pitadas de ódio preventivo, sem razão que não a de nos ferir mutuamente.
          Quando nos damos conta tentamos entender, abafar, pulverizar o ovo da serpente. Quem sabe – ela sugere - uma mudança de ares? Mas eu resisto, antecipadamente nostálgico e saudoso de minha cidade. No meu provincianismo não enxergo, e estou convicto de que jamais enxergarei em outro lugar qualquer, um mundo aceitável e conhecido. Ela, ao contrário, é universal, sabe línguas, admira culturas, anseia por ver coisas novas e se espalhar como o ar pelo planeta. Aqui estou em casa, ela assim estará em qualquer canto.
          A dor lancinante da perda súbita não é nada, comparada ao distanciamento inexorável, à sucessão de sinais inequívocos de que a luz está se apagando. Confinados em um pequeno apartamento, parece que um de nós já se foi.
          A notícia cai suavemente, amortecida pelo arrefecimento da paixão. Mesmo assim, soa como a sentença da morte afetiva, prelúdio da melancolia que me invadirá para sempre. Ela conseguiu a tão sonhada transferência para a matriz da empresa na França. Tem todas as qualificações necessárias, é a mais encantadora, a mais espirituosa, a mais brilhante de todas as criaturas. Foi escolhida com sobras entre os candidatos.
          Nos últimos dias procuramos nos convencer de que é provisório, fará bem darmos um tempo, usar o afastamento para recalibrar nossa relação, aliviar o ciúme. Qual nada, sequer ouvimos nossos próprios argumentos. Sonho que sou eu o viajante. Eu fico, não é ela quem vai. Afinal, que diferença faz? A distância é igual nos dois sentidos, ainda que um único movimento nos separe um do outro. A viagem é única - uma jornada para bem longe de tudo o que tínhamos em comum.
          Chega o dia da partida, da nossa partida. Combinamos não nos corresponder, para sepultar a sensação de nossos erros. Antes de chamar o taxi ela faz um café, como todas as tardes. Olhamo-nos sem palavras, com ternura, a serpente domada, paralisada pela iminência da perda. Esvaziadas as xícaras, despedimo-nos com o mesmo aceno protocolar de cabeças que nos aproximou da primeira vez. É preciso não chorar, imprescindível não sentir.
          Partimos, cada um para seu lado. Ela para longe, eu para onde sempre estive.
***
          Trinta anos se passaram. Em uma esquina do centro de Paris, a poucos passos da estação do metrô de Saint-Germain-des Prés, a mão delicada, pálida, gélida, carente da luva recém removida, ficou no ar, hesitante, por alguns segundos antes de deixar o envelope branco, abarrotado de selos coloridos, deslizar suavemente pela abertura da caixa de correio.
          Logo adiante fica a brasserie Lipp, com suas paredes em cerâmica da Belle Époque e grandes espelhos decorados, mesinhas elegantes e atendimento acolhedor. No frio daquela tarde de inverno, ela entrou para se aquecer. Tomou um café e, pensativa, pediu outro ao garçom. Quando ele fez menção de retirar a xícara usada, ela pediu que a deixasse também na mesa.

Rafael Linden


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