sábado, 15 de março de 2014

Um gerânio

          Em um dia cinzento, navego no silêncio de uma rua tranquila. Um longo trecho de calçada é ladeado por um muro branco, alto, no topo do qual, pela primeira vez, reparo nos cacos pontudos de vidro fixados com cimento, ali dispostos para evitar invasores. Nunca pensei encontrar tais defesas em cidade tão pacata. Para atravessar o muro, há um portão largo para veículos e uma porta menor para pedestres. Ambos maciços, sempre fechados. Anseio por saber quem são os moradores daquela fortaleza, o que fazem, o que dizem, por que vivem enclausurados.
          O portão largo tem uma abertura circular a meia altura. Pouco maior que meu punho, deve servir para o caso da chave emperrar, quando é preciso alcançar a fechadura do outro lado. É o único meio de ver o que se esconde ali. Mas, desde pequeno falta-me coragem para observar, por alguns minutos que seja, a vida atrás do muro impenetrável.
          No horário habitual assisto, de longe, à saída do automóvel que leva um homem e uma criança. Eu quero chegar mais perto para, ao menos, ver os rostos com nitidez. À distância, só consigo perceber que o homem tem o cabelo grisalho e parece estar de terno, enquanto sua acompanhante é uma menina ruiva, que deve ter uns dez anos de idade. Quando o carro se vai, o silêncio volta. Enfim, tomo coragem, aproximo-me e olho para dentro da propriedade através da pequena abertura do portão.
          Luto contra a impressão de ouvir a voz de minha mãe a censurar minha bisbilhotice. Bobagem, dali já não se vê minha casa e a rua está deserta. Ainda assim, sinto-me culpado por olhar furtivamente através daquela espécie de buraco de fechadura. Dura pouco a culpa, logo sou atraído pela imagem do gramado impecável que atapeta o solo, dos dois lados do acesso pavimentado para o automóvel. Estou a ponto de mover a cabeça para ver mais daquele jardim, mas ouço vozes abafadas do outro lado e, a passos largos, sigo meu caminho. Discretamente olho para trás, pronto para correr se houver alguém no meu encalço, mas não há.
          Passam os dias e confirmo a rotina do automóvel, que sai sempre à mesma hora levando o homem grisalho e a menina ruiva. Um dia, aguardo sua saída e volto ao portão, prendendo a respiração para evitar qualquer ruido. Desta vez chego mais perto da abertura e vasculho o terreno. De um lado vejo árvores espaçadas, aquela é uma mangueira, outras não reconheço. Percorro com os olhos o amplo gramado e, do lado oposto, longe do portão, um vulto de branco conduz suavemente uma cadeira de rodas ao longo da trilha que serpenteia em meio à grama. Na cadeira há alguém que move a cabeça desordenadamente, como se procurasse encontrar quem o empurra. Tenho a impressão de que o vulto de branco me avista e, rapidamente, disparo rua acima. Chego resfolegante em casa.
          Custo a vencer, outra vez, o misto de culpa e medo. Afinal, volto a assumir diariamente meu posto de observação. Descubro bancos de ferro pintados de branco, entre as árvores. Do lado oposto, canteiros floridos. Procuro, em vão, pela cadeira de rodas. Vejo apenas o vulto de branco, que está de costas para o portão. Move-se graciosamente no gramado, colhe com delicadeza um gerânio cor de sangue, o vermelho mais vivo que já vi. De súbito, se detém e faz menção de virar-se na direção do portão. Fujo mais uma vez. Agora, porém, estou certo de que se trata de uma mulher. Anseio pela visão de seu rosto.
          Uma angústia começa a tomar conta de mim. A semana inteira de tempo ruim atrapalha-me olhar pela abertura do portão segurando o guarda-chuva. De nada adianta, pois o jardim está deserto. Tento de todas as formas imaginar o rosto daquela mulher que, diariamente, é deixada para trás cuidando de um enfermo. Um ser misterioso, que se move graciosamente num jardim oprimido por um muro branco, que só tem seus próprios pensamentos para se distrair, que pilha seus próprios canteiros, escolhendo a flor mais brilhante e colorida para sentir o calor da vida em suas mãos vazias. A que horas retornam os outros moradores? Que diferença faz?
          O jardim murado torna-se obsessão. Mal consigo dormir, esperando cada nova manhã para correr ao portão, mal o carro some na curva. Homem grisalho, menina ruiva - não me importam. Vivo atormentado por não vislumbrar os traços daquela mulher que me fascina. Ela empurra a cadeira de rodas ou colhe uma flor, nada mais, caminha devagar, traindo cansaço, desalento, solidão.
          Desconsolado, sem resposta, volto para casa. Num único vaso, pousado no parapeito da janela, um gerânio vermelho definha.



Rafael Linden


Um comentário:

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