domingo, 23 de março de 2014

Luvas de tricô

          Max soube da morte da mãe por um lacônico telegrama do irmão mais velho Richie. Caminhou pelo jardim de sua casa, num subúrbio de Dortmund, e esforçou-se para verter uma lágrima. Ainda não, quem sabe um dia. Desde que deixara os Estados Unidos, há trinta anos, ele praticamente cortara os laços com sua família.
          Richie permanecera a vida toda na cidade natal, Houlton, enquanto a irmã do meio morava em outra cidade próxima. Max trocava com eles apenas cartões de Natal. Às vezes Richie adicionava alguma notícia sobre a saúde dos pais, que residiam perto dele em uma casa de repouso desde que o pai sofrera um derrame, há onze anos. Peggy, a mãe, limitava-se a tricotar. Todos os dias, o dia inteiro, há décadas. Não tinha tempo para o marido inválido que, no entanto, era bem cuidado pela equipe do asilo.
          Situada no Maine, um dos estados mais frios dos Estados Unidos, a cidade de Houlton passa boa parte do ano com temperaturas abaixo de zero e até mesmo em pleno verão há dias gélidos. Peggy dedicara os últimos quarenta e sete anos a fazer milhares de luvas, gorros e cachecóis para as desafortunadas crianças que dependiam da caridade alheia para se aquecer.
          O passado de Max se apagara, exceto por uma tarde de setembro que ele trazia bem viva na memória. Tinha cinco anos de idade. Naquele dia, como faziam com frequência depois do almoço, Peggy levou o filho pequeno para brincar no amplo parque comunitário. O verão estava no fim e a tarde de Max começou agradável, em meio à algazarra de dezenas de meninos e meninas de todas as idades.
          Ao entardecer, o vento mudou de direção e as outras crianças foram chamadas pelos pais ou babás para vestir um agasalho a mais, um cachecol, luvas. Max olhou em volta, mas não achou a mãe. Continuou, mesmo assim, a brincar e correr enquanto a temperatura caia rapidamente. Depois de mais de uma hora no vento frio, o menino sentiu as mãos geladas. Olhou de novo em volta, inutilmente.
          Os outros se foram pouco a pouco, restando apenas mais dois meninos, bem agasalhados. O pai destes perguntou a Max se não estava com frio. Ele fez que não, mas tiritava. Sua pele já estava ficando azulada e as mãos enregeladas. O homem, preocupado, perguntou-lhe o nome de sua mãe e começou a chamá-la, gritando em todas as direções, até que Peggy surgiu corada, resfolegante, acompanhada à distância por um jovem ressabiado que logo se afastou. Ela correu para o filho e abraçou-o. Max não dizia nada. O pai dos outros meninos chamou atenção para as mãos da criança, pálidas, com um tom azulado na ponta dos dedos. Peggy aqueceu-as como pode e levou o menino embora.
          Max ficou no hospital por dois dias. Apareceram bolhas em seus dedos. Ele não chorou. Só perguntava se seus dedos iam cair, tal qual aquele mendigo que não tinha dedos nas mãos ou nos pés e morava de favor nos fundos da igreja. O pai e os irmãos mais velhos garantiam que não, evitando trair preocupação. O caçula teve de voltar com frequência ao hospital por várias semanas, para que os médicos examinassem suas mãos, tratassem das bolhas, administrassem medicamentos. Perdeu o tato nas pontas dos dedos de sua mão direita e passou a sofrer de dores que jamais o abandonaram.
          Sua mãe, ainda antes do filho ter alta, começou a tricotar luvas. Fez um par para cada membro da família. Depois, continuou a fazer luvas coloridas para crianças. Em pouco tempo encheu dois cestos e levou-os à igreja, onde pediu ao pastor que as distribuísse sem jamais revelar quem as fizera. O pastor, agradecido, prometeu que o segredo seria respeitado. Daí em diante a “Santa do Inverno”, como era chamada, passou a doar anonimamente cestos e cestos daqueles objetos.
          Ao voltarem do colégio no meio da tarde, a filha tinha de lavar a roupa e cozinhar, enquanto Richie arrumava a casa. Quando o pai chegava do trabalho, impressionava-se com o cansaço dos filhos mais velhos e o silêncio do caçula. Tentou, várias vezes, convencer a esposa de que Richie e a irmã precisavam se dedicar mais aos estudos, mas ela respondia secamente que tinha de fazer mais luvas, pois as crianças pobres passavam frio e ela tinha que ajudá-las. Max a tudo observava, inexpressivo. Não se interessava por amigos, falava pouco e mantinha-se, a maior parte do tempo, trancado em seu quarto estudando ou, simplesmente, contemplando a paisagem da janela.
          Os anos passaram e os filhos mais velhos se viram com médias insuficientes para admissão na maioria das universidades. As economias da família não bastavam para pagar as taxas escolares. Encontraram emprego na vizinhança enquanto Max, ao menos, mantinha boas notas. O pai, orgulhoso, dizia que o caçula conseguiria uma bolsa para ser o primeiro da família a estudar na Universidade do Maine. O menino ouvia calado. Assim que completou o ensino médio conseguiu de fato uma bolsa, porém para estudar na Alemanha. Despediu-se dos irmãos e do pai com afeto e disse um adeus sem emoção à mãe, que tricotava.
          Os que ficaram pareciam conformados com a negligência de Peggy. Mas Max, o último a permanecer sob seus cuidados na tenra infância, ficara marcado pelas muitas vezes em que se viu com fraldas sujas, com o joelho ralado, com fome ou sede, ou simplesmente solitário e triste, em frente à porta fechada do quarto da mãe. De onde, a custo, ela surgia afogueada, apressada, fechando rapidamente a porta atrás de si.
          Três dias depois da morte da mãe chegou outro telegrama de Houlton, dando conta da morte do pai. Desta vez, Max chorou.

Rafael Linden


6 comentários:

  1. Texto que dispara emoções!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado! Seu comentário também emociona o autor.
      R

      Excluir
  2. Bem imaginado. Quantos dramas familiares ocultos, não definem tragicamente a vida das crianças que os vivem!

    ResponderExcluir

Seu comentário será respondido aqui mesmo neste blog.