sábado, 8 de fevereiro de 2014

A mãe


          Berenice chega atrasada, oi papai, demorei por causa das crianças, um com nariz entupido, outra com dor de ouvido...não faz mal, agora não falta ninguém...para que é essa reunião de família, cadê a mamãe, oi mano, tudo bem, e como vai a...ei, Afonso, não me deixe falando sozinha, o carro continua dando aqueles solavancos, num desses eu vou acabar perdendo meu bebê...eu ouvi, Beatriz, mas nossa irmã chegou, não está vendo?...mamãe está na cozinha?...acho que sim...meu mecânico saiu de férias, quando voltar eu falo com ele sobre o seu carro, esqueci porque ando de cabeça quente, minha filha finalmente passou no vestibular, mas eu não vou pagar faculdade, ela que estudasse mais para entrar numa universidade pública...e a mamãe que não vem aqui para a sala...bem que ela podia fazer um café...é mesmo, eu saí direto do escritório e nem almocei...meus filhos, a mãe de vocês está muito doente...o que?!
          O pai explica.
          Afonso se deixa cair na poltrona de vime. Cabisbaixo, pensa que sua filha pode vir direto da faculdade, pelo menos umas duas vezes por semana para ajudar, pois vai estudar perto dali. Subitamente, até a mensalidade deixa de ser um problema. O pai precisa de apoio, parece tão envelhecido, muito mais do que da última vez. Quando foi? Há oito meses, é claro, na Páscoa. Pensando bem, o jantar foi um desastre. Aquela galinha caipira, que sua mãe fazia tão bem, estava salgada demais, o arroz meio cru e a torta de banana tinha queimado pelo menos uns dez minutos antes de sair do forno. Agora lembra. O pai estava triste, a mãe desorientada, perguntou umas quatro vezes pela neta, que tinha ficado em casa estudando para provas. Por que ele não percebeu?
          As irmãs murcham no sofá. Berenice morde o lábio inferior, contendo a lágrima solitária que, se caisse, abriria comportas. Mistério resolvido, afinal que avó perde assim o interesse nos netos se não estiver doente? E o casaco de crochê, inacabado, jogado no fundo da cesta, a netinha já nem caberá na peça de roupa se, porventura, a avó terminar de tece-la. Aos poucos volta no tempo e sucumbe à culpa, deveria ter sido uma filha melhor, menos rebelde. Não precisava, por anos a fio, ter desafiado a autoridade materna, relacionando-se ostensivamente com quem menos agradasse aos pais, largando os estudos sem terminar o segundo grau, fazendo questão de esperar até o quinto mes de gravidez para exibir a barriga e humilhar a mãe perante as amigas no casamento. Não há mais tempo para apagar a mágoa estampada no rosto dela, que aflora nas raras ocasiões em que se encontram.
          A caçula olha desconsolada para o próprio ventre, molhado de um choro sentido, pensando se o filho, que vai demorar dois meses, ainda terá alguma chance de se aninhar no colo da avó. Quem sabe, se o irmão esquecer de vez de ligar para o mecânico, um bondoso solavanco disparará o trabalho de parto mais cedo e a criança trará um dos últimos sorrisos ao rosto da avó. Aquele sorriso que ela ama, que a recebia todo dia ao acordar, que emoldurava a ida e a volta do colégio quando o ônibus abria a porta em frente à casa, que saudava suas boas notas, que foi inundado de emoção e alegria quando a ouviu dizer, no altar, um sim tão entusiástico que assustou o padre.
          Nenhum dos três vai ao quarto. Olham para o pai, encolhido na cadeira de balanço e, pela primeira vez, enxergam lágrimas num rosto desesperado, um homem ainda relativamente novo, mas derrotado, que chora mudo como todos. Ainda há pouco, em meio ao alvoroço do reencontro depois de tantos meses, cada um dos irmãos perguntou pela mãe, que demorava a aparecer. Em poucas semanas não haverá mais por que. Foi-se o som. Foi-se a fúria.
          A notícia suga toda aquela energia de poucos minutos antes. Os filhos não se conformam com o pai demorar tanto a alertá-los, deixá-los distantes por longos meses, enquanto o tempo da mãe se esvai. E o pai se arrepende de tentar protege-los da inevitável tristeza, mais uma vez da forma canhestra que a esposa contornou durante tantos anos e, agora, não pode mais consertar.
           No quarto, ela apenas repousa por não haver mais o que a Medicina lhe possa oferecer. A sala, no silêncio profundo de uma família agoniada, escurece ao por do sol.


Rafael Linden


6 comentários:

  1. Muito bom, real e reflexivo.

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    1. Obrigado pelo comentário e pela presença frequente, Vania.
      R

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  2. Oi, Rafael! Quanto tempo! Gosto muito deste estilo do fluxo de consciência e de emendar uma fala na outra, mas vou lhe dar uma sugestão: pontue discretamente a mudança de voz. Pode uma letra maiúscula, um itálico, uma aspa. Pense nisso. Fica mais fluente. ;) Saudade de vc!

    Viu que abri minha empresa? Visite a página do facebook: facebook.com/artesanatodapalavra

    Vou lançar meu primeiro livro de poesias em breve. :) Sinto falata das suas visitas no meu blog!

    Beijo grande,
    Raquel.

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    1. Oi Raquel

      Obrigado pela dica e pela presença. Também estou com saudade de você, mas eu achei que você tinha parado com o blog porque não recebi mais os avisos de postagem que vinham por email! Vou lá ver as novidades. Parabéns pela empresa, entrei na fan page e vejo que você engrenou de vez em editoração. Boa sorte!

      Mande para mim o convite ou um lembrete da data de lançamento do livro.

      Beijos
      Rafael

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    2. Não tenho mais enviado por e-mail, só convite no facebook mesmo. Entrou lá na página? Então, aproveita e curte pra mim! :) Você pode curtir como "Um cientista no telhado". Na verdade, meu foco é preparação de textos.

      Se puder, curte também a página do blog no face: https://www.facebook.com/APuraEssenciaDoSer

      Pode deixar que envio por e-mail o convite para o lançamento.

      Beijos

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    3. Já curti, inclusive no blog propriamente dito e deixei um comentário sobre uma certa poeta laureada...
      :-)
      beijos
      Rafael

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