sábado, 21 de dezembro de 2013

Como ficar bem na foto

          Há poucos dias, cinco Presidentes do Brasil embarcaram para participar do funeral de Nelson Mandela na África do Sul, todos no mesmo avião oficial. Tratemo-los todos assim, como Presidentes. Quem o foi, quem o é, em que circunstâncias ou ocasiões e para que fins não nos interessa pois, como é de conhecimento geral, este cronista não desperdiça seu precioso tempo a escrever comentários sobre a política nacional. Já nos basta aturá-la.
          Pilhérias à parte, a tal viagem rendeu diversas fotografias grupais, entre as quais uma que, segundo o jornal, foi postada por um dos Presidentes numa rede social. Nessa imagem estão não apenas os cinco, exibindo seus mais amplos sorrisos, mas também um cidadão de sobrenome Mosca. O que se há de fazer, tem sempre mosca voando em torno dos doces poderes. Mas os bravos leitores que até aqui chegaram não devem se desesperar, porque o assunto em pauta não contempla ideologias, discursos, decretos, intrigas, hipocrisias, disse-me-disse ou coisas que tais. Trata-se, tão somente, de ficar bem na foto.
          Não é de se admirar que tantos escritos deste blog misturem coisas desconexas pois, volta e meia, a vida nos oferece gratuitamente tais oportunidades. Vejam que, há poucas semanas, a prestigiosa revista científica Psychological Science publicou um trabalho de uma estudante de doutorado e de seu orientador na Universidade da California, em San Diego, os quais testaram empiricamente se pessoas em grupo parecem mais atraentes do que individualmente. E não só mostraram que isso é verdade, mas sugeriram explicações interessantes.
          Não fique chocada, cara leitora, o fato é que, para o bem ou para o mal, seu rostinho encantador parece ainda mais atraente na foto de família do que se for recortado e mostrado sozinho. E como foi que os pesquisadores demonstraram isso? Eles recrutaram dezenas de estudantes, de ambos os sexos, e lhes apresentaram uma bateria de testes nos quais os voluntários tinham que dar uma “nota” para rostos femininos ou masculinos, apresentados em grupos ou individualmente. A nota deveria ser tanto maior quanto mais atraente parecesse o rosto. Os resultados da avaliação de centenas de faces mostraram que, em geral, as notas para cada rosto eram maiores quando estavam em meio a outros do que quando o rosto era apresentado sozinho.
          A interpretação dos autores foi baseada em demonstrações anteriores de que a percepção de cada objeto apresentado num conjunto é distorcida no sentido da média de todos os objetos do conjunto. Ou seja, quando se olha um rosto numa foto tendemos a acha-lo parecido com um rosto “médio” dentre todos os demais na foto. E, curiosamente, uma “média” dos atributos fisionômicos das faces em uma foto é avaliada como mais atraente do que cada uma das faces. Poupe-me de insultos, caro leitor, a culpa não é minha, foram os experimentos que mostraram isso. A coisa é tão forte que os voluntários deram notas mais altas a rostos nas fotos coletivas mesmo quando as imagens foram alteradas por meios eletrônicos de forma a deixar as faces borradas! Ou seja, nem mesmo tirando a nitidez dos traços fisionômicos desapareceu a preferência pelos rostos nas fotos coletivas.
          Há, como sempre, questões não respondidas no artigo científico e os próprios pesquisadores lá reconheceram que nem todas as suas hipóteses foram comprovadas. Porém, a demonstração de que rostos são melhor avaliados em fotos coletivas do que individuais foi muito robusta. Talvez uma explicação simples seja de que, ao ver um conjunto de faces, tendemos a ignorar detalhes pouco atraentes.
          Voltando aos Presidentes trata-se, convenhamos, de fisionomias que a esta altura da vida já não fazem lá muito sucesso no campo da boniteza. Por isso, é melhor ser fotografado sempre na companhia de outras pessoas. E ao contrário do que poderia parecer, se a média dos atributos é o que conta, de preferência com gente bem bonita. E na falta de gente bonita serve até mosca, desde que mais jovem, como parece ter sido o caso da tal foto postada nas redes sociais.
          Mas isso os marqueteiros já sabiam, nem que fosse por intuição ou experiência. E para evitar malediscências encerro por aqui, antes que alguém resolva repetir o trabalho dos cientistas americanos examinando comparativamente a estética e a fotogenia dos cinco Presidentes, em conjunto ou isolados, e daí divulgue conclusões que venham a ter sérias consequências para a política nacional.

Rafael Linden



4 comentários:

  1. Caríssimo " cientista" ,ótima divulgação desta pesquisa! Acredite , só tirarei agora fotos em "grupos" ,por ex. o da FNM 1975, mas claro de preferência ,com filhos e netos dos respectivos membros deste seleto grupo!!!!

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  2. Ótimo texto, muito amei.

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