sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Os eus e as futuras gerações


          Durma-se com um título desses. Mas esperem e verão.
          Comecemos pela antiga crença de que o boletim meteorológico não era confiável. Hoje em dia, os métodos e instrumentos usados para previsão do tempo avançaram tanto que é muito grande a probabilidade de acerto para o dia seguinte e subsequentes. Eu, pelo menos, dificilmente me arrependo de carregar ou não um guarda-chuva conforme a localização dos risquinhos oblíquos no mapa do jornal ou da TV.
          Mais polêmica é a previsão de longo prazo, é claro. Essa, mesmo com todo o avanço da Ciência, por definição só se confirma…a longo prazo. Porém, todos nós carregamos uma parcela de culpa pelas contribuições involuntárias ao aquecimento global e pelos danos causados ao meio ambiente por materiais de decomposição lenta. Em minha defesa, há tempos fui condecorado pelo porteiro do prédio onde moro com a observação de que, desde que me mudei para cá há quase 13 anos, meu apartamento foi pioneiro na separação sistemática dos lixos orgânico e reciclável, coisa que hoje é rotina entre os vizinhos. A falsa modéstia nos impele a dizer que se trata de contribuição modesta que não custa nada.
          E, assim, chegamos ao busílis. Onde? Busílis, caro leitor, o xis da questão ou, para simplificar, o assunto desta crônica: o custo de salvar o planeta ameaçado pelas emissões descontroladas de carbono, pelo uso excessivo e descarte irresponsável de materiais resistentes à degradação e outros desatinos fartamente denunciados por ambientalistas e meio ambientalistas. Sim, sim, sabemos todos que proteger a Terra não tem preço, que as futuras gerações sofrerão se não houver mudanças drásticas de atitude, e outros argumentos contrários ao comportamento abominável desta malfadada espécie animal que, desgraçadamente, dominou as outras ou assim pensa. Mas o assunto é outro. É o custo propriamente dito, porque há um preço a pagar para evitar a tragédia ambiental que se anuncia. E porque este custo tem impacto na efetivação de medidas necessárias para a salvação de Gaia.
          Mas, afinal, do que se trata, pergunta o leitor apressadinho prestes a trocar este manancial ímpar de informação e cultura por outra bobagem equivalente. O cronista, por acaso, é a favor do aquecimento global? Tá louco, sô! Aqui no Rio de Janeiro o calor já é demais, não precisamos de nem mais dois graus de temperatura. Trata-se, isso sim, de um artigo científico publicado na prestigiosa revista Nature Climate Change por uma equipe internacional de pesquisadores, os quais testaram empiricamente o quanto o comportamento de um grupo é influenciado pelo tempo previsto entre a cooperação e a recompensa por atingir um objetivo comum. Ou seja, o que acontece com a disposição de alguém participar de um esforço coletivo quando a recompensa vai demorar. Entre os psicólogos isso tem nome: gratificação retardada. E tem tudo a ver com a contribuição do bicho homem para as mudanças climáticas.
          Os pesquisadores recrutaram quase duzentos voluntários, todos estudantes da Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Os jovens foram dividos em grupos de 6 e receberam a informação de que no dia do experimento não se comunicariam, mas teriam de tomar decisões cooperativas com consequências futuras. Cada estudante recebeu 40 euros e, em cada uma de dez rodadas, tinha de investir zero, dois ou quatro euros em uma “conta do clima” destinada a pagar um anúncio em favor da proteção contra mudanças climáticas. O investimento era anônimo, mas o valor investido era do conhecimento de todos. Se, ao final das dez rodadas, a conta acumulasse pelo menos cento e vinte euros - em média vinte euros por estudante -, cada um deles teria direito a um bonus além do que restava de seus quarenta euros originais. Se o alvo não fosse atingido, a probabilidade de receber o bonus era de somente dez por cento. Foram testadas 3 condições e em cada uma os participantes sabiam, no caso de atingirem a meta, qual seria o bonus e quando seria pago: (1) a quantia de 45 euros paga em dinheiro no dia seguinte ao experimento; (2) a mesma quantia paga sete semanas após o experimento; ou (3) a mesma quantia não seria paga aos estudantes, e sim investida no plantio de árvores capazes de sequestrar carbono, por conseguinte beneficiando as futuras gerações. Em qualquer caso, o que cada um tinha deixado de investir ficava para si.
          Como os estudantes sabiam de antemão qual seria a recompensa por atingir a meta, tinham toda a informação necessária para decidir se arriscariam ou não seu dinheiro pingando investimentos. Sabem qual foi o resultado? Na condição (1) sete de dez grupos atingiram a meta de investimento; na condição (2) quatro de onze grupos atingiram a meta; na condição (3) nenhum – nenhum! – dos onze grupos atingiu a meta dos cento e vinte euros. Ou seja, quando havia uma recompensa pessoal, mesmo que retardada em até sete semanas, parte dos estudantes se engajou no esforço coletivo. Já quando a recompensa era para as gerações subsequentes, neca de pitibiriba. Nenhum dos grupos foi levado a cooperar para atingir uma meta ambiental de longo prazo que não beneficia os “eus” e sim os “outros” no futuro. E isso na Alemanha, onde o movimento ambientalista é um dos mais importantes da Europa.
          A interpretação dos autores foi de que, no caso do benefício restrito às futuras gerações, o impulso individual para economizar os 40 euros originais, investindo pouco ou nada, foi forte demais para acomodar a generosidade esperada dos jovens com vistas a combater o efeito estufa associado ao desflorestamento. Cônscios dos resultados pífios obtidos até hoje à custa de conferências festivas e acordos ineficazes, os autores sugeriram que negociações internacionais para um esforço global pelo clima do planeta terão pouca chance de êxito enquanto os únicos benefícios de curto prazo para cada país se limitarem a deixar de gastar dinheiro. Tudo indica ser preciso recompensa ou punição imediata.
          O leitor resmungão esbraveja do lado de lá porque trata-se de uma sugestão muito ampla para um estudo experimental limitado. É possível, mas os resultados são compatíveis com o senso comum sobre a natureza humana. Convenhamos, a generosidade do Homo sapiens está longe de ser a regra. Note-se que o trabalho foi liderado pela insuspeita pesquisadora Jennifer Jacquet, professora do Departamento de Estudos Ambientais da New York University, conhecida por seu trabalho sobre os dilemas da cooperação aplicada à conservação de recursos marinhos e às mudanças climáticas. Trata-se, ao que consta, de uma cientista respeitada e ativista ambiental, cujo alerta sobre a perspectiva real de sucesso dos esforços atuais para evitar as mudanças climáticas parecem dignos de atenção.
          Afinal, se jovens estudantes de uma das mais importantes universidades alemãs se comportam desta forma, o que esperar dos dignitários de países com interesses divergentes ou conflitantes? O estudo ressalta a fragilidade da aposta na gratificação retardada. Em outras palavras, o problema é que, como dizem os cínicos, a longo prazo estaremos todos mortos.

Rafael Linden


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