sábado, 23 de novembro de 2013

Nada mais que a verdade*

          Já estamos, os três, no bar há umas cinco caipirinhas. Cada um. Começo a flutuar no vapor do álcool e desembarco num silêncio contemplativo. Eles, não. Quanto mais bebem, mais falam. Agora, discutem vigorosamente alguma coisa que ele ouviu dizer e ela não acreditou. Não lembro o que era.

          - O Eugênio é de confiança. Se foi ele que disse, pode ter certeza de que é verdade.
          - Sua confiança nele é comovente. Mas o que é a verdade?
          - Como assim?
          - Eu perguntei: o que é a verdade?
          - Ué...é aquilo que...existe, que você pode provar, ora!
          - O Eugênio provou isso aí que ele contou?
          - Isso não, mas...
          - Então, como você sabe que é verdade?
          - Porque eu confio nele. Conheço o cara desde o ginásio. Ele nunca mentiu.
          - Isso não me convence. O problema é a natureza da verdade.

          Pronto. Agora é que a vaca vai para o brejo. Quando ela engrena na metafísica, o primo se desgoverna. Vai ser divertido. Pena que eu não consiga articular uma boa piada sobre o Eugênio no momento certo, depois de tanta caipirinha. Os dois terão que se digladiar sem mim.

          - Você bebeu? Quer dizer, eu sei que você bebeu. Você... você... pombas, sua maluca, que diabo é isso de natureza? Verdade é verdade!
          - Não, primo. Por exemplo, os niilistas não aceitam a existência de uma verdade, para eles é sempre um ponto de vista escolhido por um sujeito e a verdade de um não é a do outro...
          - Eu não estou discutindo Filosofia, estou apenas dizendo a você que o Eugênio não mente. Se ele disse que aconteceu, é porque aconteceu!
          - Só porque você diz que o Eugênio não mente, não é motivo suficiente para que eu acredite que é verdade.

          O primo dá os primeiros sinais de impaciência, está ficando vermelho, tamborila na mesa, começa a bufar, isso ainda vai dar bode.

          - Essa mania de debater qualquer besteira em profundidade ainda vai levar você pro manicômio. Não dá para esquecer um pouco a sua pós-graduação na PUC e lembrar que está num botequim?
          - Minhas angústias, minhas crenças e minhas certezas não mudam durante a viagem de ônibus.
          - Ah, é? Então, você não admite mudar de idéia quando se depara com outras pessoas, outras realidades, outros momentos? Nasceu sabendo tudo e antes da primeira comunhão já tinha decidido no que acreditaria na vida inteira? E vem com esse papo de que - como é mesmo - niilistas não reconhecem a existência da verdade?
          - Não foi isso que eu disse, pelo contrário, eu mudo de opinião quando há argumentos convincentes. E eu não fiz primeira comunhão, porque não acredito em Deus, nem em religião, sou agnóstica, você sabe muito bem disso. Voltando ao assunto, aquilo em que se acredita não é, necessariamente, verdade.
          - Mas não foi você que, semana passada, disse exatamente aqui nesse bar, que...como era mesmo? Ah, que os cartesianos consideram a certeza como a premissa necessária e suficiente da verdade? Putz, eu tinha esquecido que uma vez nós já gastamos um tempão discutindo isso...
          - Já discutimos sim, mas certeza e convicção não são a mesma coisa. Eu tenho convicções e elas mudam quando ouço argumentos persuasivos, mas certeza é outra coisa e...o que é, de fato, a verdade?

          Ainda bem que eu estou mudo. Ela acabou de perguntar o que, na verdade, é a verdade. Vai dar um nó na discussão. A propósito, que fim levou o Eugênio?

          - Ah, garota, tem juízo! Se o Eugênio contou a sério, pra mim é verdade.
          - Mas, primo, pensa bem, o que é hoje pode deixar de ser amanhã.
          - Besteira! Se deixa de ser é porque não era, ora!
          - Veja, antigamente as mulheres se conformavam com um papel subalterno na sociedade porque acreditavam numa suposta superioridade dos homens. Naquele tempo, isso era aceito como verdadeiro. Com o tempo, o bom senso, a luta das sufragistas e os movimentos feministas, deixou de ser aceito, pelo menos no Ocidente. Hoje em dia, mesmo os recalcitrantes, que ainda acreditam em superioridade masculina, não conseguem mais sustentar o argumento de que isso seja verdade.
          - É porque não era antes também, pô!
          - É claro, mas havia uma convicção generalizada de que era!
          - Isso não tem nada a ver com a história que o Eugênio contou, guria!
          - Tem sim, porque você quer me convencer que a história que ele contou é verdadeira simplesmente porque você acredita nele. Seu argumento é a sua convicção, não tem sequer o peso das provas científicas que sustentam o que se considera verdade no mundo físico.
          - O que se considera?! Você vai relativizar o conhecimento científico também?
          - Claro que vou, os dogmas da Ciência são frequentemente desfeitos pelo advento de novas técnicas e métodos. Para problemas complexos, o conceito de prova irrefutável é meio nebuloso. E os cientistas, muitas vezes, mudam radicalmente suas conclusões. Que dirá nossas meras convicções.
          - Daqui a pouco você vai querer me convencer de que a verdade é sempre provisória.
          - O que eu quero dizer é isso mesmo, que a verdade é provisória e, a qualquer momento, passível de contradição.
          - E a mentira?
          - A mentira, quando é percebida, deixa de existir.

          Opa, intervalo. Depois da mentira deixar de existir ao ser percebida e da verdade ser, por natureza, contraditória, a indignação do primo se transformou em estupefação e ele emudeceu. E agora? Estará na hora de romper meu silêncio, lembrá-los de que também estou aqui e dizer “Tá tudo muito bom, mas está ficando tarde e amanhã...” – parece que não, ele entornou o resto da sexta caipirinha, pediu outra e voltou ao assunto.

          - Acho que não vamos chegar a um acordo.
          - Nós dois, certamente não. E você, o que acha, Eugênio?


Rafael Linden

* Este texto foi premiado em 3o lugar na categoria contos no Concurso Literário "Affonso Romano de Sant'Anna" da Câmara Municipal de Nova Friburgo, RJ, em novembro de 2013.

22 comentários:

  1. Parabéns! Esse estou enviando a minha filha Samira, profunda socióloga.
    Bom final de semana.
    Keyla

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  2. Muito ótimo Rafa! Parabéns pelo prêmio e pelos 100 anos, digo, centésimo conto ... Rsrs.

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    1. Obrigado, Paulinho. Nunca pensei que fosse chegar a 100 textos...
      Abs
      R

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  3. Elisângela Sobrinho25 de novembro de 2013 11:12

    Magnífico!!!

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  4. Grande Cientista no telhado, vi seu link no Facebook, aqui https://www.facebook.com/Geralinks/posts/652423294797371 vim ver e fiquei maravilhado com o que vi seus textos são de estrema sapiência... parabens!!!!

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  5. Ô Eugênio, meu filhoooO... hushushus

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  6. E que venham mais 100, 200, 300... textos excelentes como esse. Parabéns Rafael.

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    1. Muito obrigado, Carlos Alberto. Volte sempre.
      abs
      R

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  7. Que bárbaro Rafael!!!! O texto é muito rico e o final, inesperado! ADOREI!

    Muita inspiração querido e parabéns pelo merecido prêmio e pelos 100 contos.

    Beijos
    CG

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  8. Muito, muito bom Rafael! Parabéns pelo prêmio, bem merecido. Você é um grande cronista!
    [x]dr

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    1. Obrigado, querida. O que eu tenho mesmo é uma porção de grandes leitores.
      Bjs
      Rafael

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