sábado, 9 de novembro de 2013

Mulher fatal e criativa


          Um dos ícones do cinema da década de 1940 foi Hedy Lamarr. Muito embora reconhecendo e apreciando os encantos da gentil leitora que tanto nos honra com sua presença constante neste blog, com todo o respeito, há de se convir que Hedy Lamarr era um pedaço de mau caminho. Mas a razão de sua presença nesta crônica é que hoje, dia de Santo Orestes da Capadócia, se comemora o aniversário da atriz.
          Ela nasceu Hedwig Eva Maria Kiesler, em 1914 na Austria, e só adotou o famoso nome artístico depois de emigrar para os EUA em 1937. Isso para escapar do nazismo, então em ascensão, e de um marido controlador que, ainda por cima, simpatizava com as doutrinas nacional-socialistas.
          A jovem Hedwig foi símbolo sexual muito antes de Marilyn, Brigitte, Angelina ou da musa do Professor Arquelau. Com apenas vinte anos de idade estrelou um filme chamado Ekstase, dirigido pelo cineasta tcheco Gustav Machatý. Na película a moça apareceu nua, correndo num bosque e simulando um orgasmo à beira de um lago. Pornochanchada brasileira dos anos setenta perde de goleada para os intrépidos cineastas europeus, que faziam misérias quarenta anos antes. Aliás, conta-se que a Alemanha Hitlerista proibiu a exibição do filme porque a atriz era judia, enquanto nos Estados Unidos foi vetado porque era erótico.
          Na América, o maior sucesso de Hedy, que já era Hedy, foi o papel de Dalila no épico bíblico dirigido por Cecil B. DeMille em 1949. Ela contracenou com Vitor Mature - o Sansão, é claro. Nesse filme Hedy usou e abusou do charme e do veneno da mulher austríaca e entrou para o rol das femmes fatales do cinema.
          E de que serve a verborragia desperdiçada com essa senhora, que morreu em 2000, se aqui mesmo o cinema brasileiro não carece de mulher fatal correndo pelada, esmerando-se em estripulias dentro e fora d'água e simulando orgasmos coloridos e acrobáticos? Além da efeméride – feliz aniversário, Hedy! - há uma razão muito mais curiosa. Como se não bastasse atriz e símbolo sexual, a moçoila também foi...inventora. Não, madame, não me refiro a alguma historieta que ela possa ter contado para enganar os seis trouxas com quem casou – um de cada vez. Nem à explicação para, já na década de 1960, ser detida por furto de laxantes e colírios em uma farmácia na Flórida. Muito menos aos embustes protagonizados por elevadas autoridades de republiquetas por aí e por aqui afora porque, como sabem todos, neste sagrado espaço não se pratica o violento esporte do colunismo político. Hedy Lamarr foi inventora mesmo, com patente e tudo.
          Não é que a moça, em plena segunda guerra mundial, saiu-se com a idéia de um sistema seguro de controle de torpedos, baseado em mudanças frequentes do canal de comunicação entre o aparelho emissor e o receptor, com o emprego de um rolo de papel perfurado semelhante às partituras das pianolas mecânicas? Conta-se que ela teve esta idéia ao brincar de repetir melodias em escalas variadas junto com o compositor francês George Antheil, autor da trilha sonora do filme Ballet mécanique produzido em 1923 pelo pintor, escultor e cineasta Fernand Léger, um dos expoentes do cubismo e do dadaísmo. A brincadeira teria inspirado a idéia das trocas de frequência dos sinais porque, reza a lenda, o tal marido controlador de quem ela fugiu na década de 1930 era fabricante de armas e, de conversa em conversa, Hedy teria percebido a facilidade de bloquear sinais para o lançamento de mísseis emitidos em uma única frequência.
          A idéia foi patenteada em 1942, mas só resultou na produção de equipamentos multicanal vinte anos depois. E, assim mesmo, o feito tecnológico passou quase despercebido porque a estrela tinha usado seu nome de batismo no documento da invenção. Até que, apenas três anos antes de morrer, Hedy Lamarr recebeu um prêmio da Electronic Frontier Foundation, uma entidade de direitos civis que, entre outras missões, combate abusos de patentes. Para se ter uma idéia da relevância da criação de Lamarr e Antheil, ela é uma das que serviu de base para o desenvolvimento de telefonia celular e de comunicação wireless.
          Taí, atriz famosa e inventora de uma tecnologia importante. Nada mau para uma guria que começou a carreira pelada no bosque. Portanto, da próxima vez que o prezado leitor se deparar com alguma rapariga às carreiras vestida como veio ao mundo, na tela do cinema, pense que pode se tratar da criadora da suprema tecnologia do futuro, seja ela qual for. Quem sabe um decodificador de ondas cerebrais desencontradas acoplado a um banco de dados históricos que permita descobrir a ligação cósmica entre Hedy Lamarr e Santo Orestes da Capadócia.

Rafael Linden


14 comentários:

  1. A história se repete: Há poucos dias a Adriana Calcanhoto "confessou" que um de seus primeiros trabalhos foi ser figurante no show da Rita Lee no papel de Miss Brasil 2000, peladona... Pode não ter patente, mas com certeza é uma pessoa talentosa.

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    1. Eu sou fã da Adriana Calcanhoto e de sua literatura musical. Só lhe falta inventar uma engenhoca mecânica..
      :-)

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  2. muuuuuuuuuuuuuuuito bom.... bjos!!!!

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  3. Rafael Linden, achei muito interessante e curioso. Abraços, Maria Lucia Wurm

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  4. Nossa... quanta informação, parabéns ao Rafael, incrível o texto!

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  5. Isso sim é criatividade!!!!

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    1. Obrigado, Emanuel. Mas esta çrônica ainda não guia torpedos...
      :-)
      R

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  6. Concordando com todos! Como você também sabe de outras coisas! Taí, e ela também juntou arte e ciência.

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    1. Obrigado pelo comentário. Mas, que fique bem claro, não tenho planos para o cinema...
      :-)
      Bjs
      R

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