sábado, 30 de novembro de 2013

Caca de dinossauro

          Há uns trinta anos passei uma temporada como pesquisador visitante na Purdue University, no meio-oeste dos EUA. É uma das grandes universidades americanas e, na época, uma de suas áreas de pesquisa mais fortes era a de Ciências Agrárias. Aproveitando os equipamentos e a tecnologia disponíveis nos ricos laboratórios e nas fazendas experimentais, lá estavam muitos cientistas e técnicos brasileiros, a maioria da Embrapa. Fiz amizade com vários, entre os quais o Augusto, um mineiro grandalhão, bonachão e sempre bem-humorado. Ele era aluno de doutorado em Zootecnia e voltaria ao Brasil depois de defender sua tese. Para isso, entre outras coisas, coletava amostras de fezes bovinas para analisar efeitos de diferentes regimes alimentares sobre o melhoramento do gado.
          Não, gentil senhora, o cronista não sucumbiu à escatologia, fique tranquila. Pois, entre outras histórias da família, Augusto gostava de contar que seu avô, já bem idoso, ao saber a quantas andava o neto predileto lá pelas bandas da América do Norte observou “tantos anos de estudo naquela lonjura pra cavucar bosta de vaca? Podia fazer isso aqui mesmo no interior de Minas, ora essa!”. Apesar da decepção do velhinho, o fato é que se trata de um nobilíssimo objeto de pesquisa científica. E o caro leitor pensava que algo ser uma caca era apenas uma desqualificação do “algo”. Todos sabemos, é claro, que verminoses e outras doenças, algumas muito mais graves, são diagnosticadas através do velho e prosaico exame de fezes. Mas não se resume a isso o charme dos restos de refeições, sejam essas as mais sofisticadas Saint-Jacques et ravioles à la truffe d'Alba do Tour d’Argent em Paris, ou os impiedosos croquetes do bar do Seu Agostinho, lá na velha Faculdade de Medicina da Praia Vermelha. Pelo contrário, o interesse pela malfadada bosta recua até o tempo dos dinossauros.
          Esta semana a revista Scientific Reports publicou um artigo de uma equipe  liderada pelo geobiólogo argentino Lucas Fiorelli, demonstrando que não apenas mamíferos, mas gigantescos herbívoros pré-históricos defecavam em áreas restritas, e isso mais de duzentos milhões de anos antes do que se pensava. O assunto ganhou notoriedade na imprensa mundial, em geral apresentado como a descoberta do banheiro coletivo mais antigo do mundo. Mas, como foi a pesquisa e o que significa para a Ciência, o cotidiano, o cronista e seus leitores? Afinal, é para isso que serve este blog.
          Os cientistas encontraram, em oito locais diferentes no noroeste da Argentina, um número enorme de peças chamada coprólitos, que são nada mais nada menos do que pedras compostas por fezes, nesse caso endurecidas por cinzas vulcânicas, que preservam tudo o que está no seu interior, como cadáveres de microorganismos, restos de vegetação e outros materiais ingeridos na alimentação do bicho produtor daquelas fezes. Quando se trata de um carnívoro encontra-se, em geral, fragmentos de ossos. A análise cuidadosa destes coprólitos, sua composição, quantidade, distribuição e tamanho das peças individuais, bem como a identificação de ossadas de animais encontradas nas proximidades, aliados a conhecimentos geológicos e muitos outros dados permitem entender aspectos da evolução de ecossistemas na região estudada, bem como inferir quais foram os produtores, seus hábitos alimentares e sociais.
          Sabe-se que várias espécies de mamíferos selvagens, principalmente grandes herbívoros, costumam defecar em áreas restritas - conhecidas como latrinas comunitárias -, não o fazendo na maior parte de seus territórios. Isto tem vantagens visto que ajuda na prevenção de reinfestação por parasitas, na defesa contra predadores e, presume-se, também na reprodução e comunicação entre os animais. Mas esses "aposentos" são muito raros em registros fósseis: os mais antigos eram datadas de menos de 3 milhões de anos atrás e correspondem a carnívoros. Os pesquisadores argentinos descobriram grande concentração de coprólitos em cada sítio e a análise do material indica que veio de animais vegetarianos de grande porte – provavelmente dinodontossauros de até três toneladas de peso - e com comportamento gregário, isto é, que vivem em bando. E, mais importante, mostraram que latrinas comunitárias existiam, para certas espécies animais, há mais de duzentos e vinte milhões de anos.
          Nesta área de pesquisa, a datação de alguma característica tão mais antiga do que se pensava é uma descoberta importante. Não é, portanto, de se estranhar a publicidade que ganhou, embora a tentação de escrever qualquer coisa sobre “o banheiro mais antigo do mundo” deva ser irresistível para um reporter ou editor de jornal. Mas, como de hábito, um cronista destrambelhado não resiste à tentação de dizer alguma coisa inoportuna. Pois lá vai.
          Para começar não é novidade nenhuma, mas não custa ressaltar que animais vegetarianos com três toneladas de peso de certa forma absolvem os gordinhos que gostam de visitar uma boa churrascaria de vez em quando, não é mesmo? E para terminar, cá para nós, a reiterada demonstração de que animais exibem, instintivamente, a capacidade de fazer suas necessidades em lugares restritos e devidamente designados para isso, agora acrescida de bicharocos que viveram há tanto tempo, condena definitivamente humanos presumivelmente normais, bem barbeados e vestindo roupinhas de grife que, conscientemente, insistem em – sejamos finos e educados - despejar seus resíduos orgânicos de comida ou bebida pelas ruas e becos, coisa que nem os dinodontossauros faziam com sua caca há mais de duzentos milhões de anos.

Rafael Linden


14 comentários:

  1. Muito interessante, esta crônica me fez lembrar de um cartum sensacional que vi há algum tempo, que retrata muito bem o que você comenta. Chama-se: Os animais e seus rastros.

    http://www.blogcaicara.com/2013/07/os-animais-e-seus-rastros.html

    Bjs
    CG

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  2. Sim senhor, o cronista sucumbiu sim à escatologia! shushus

    Muito bom Rafael, você é O cara das palavras.

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  3. Adooorei Rafael. Muito bom! <3
    Bjosss

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  4. Texto muito bom, parabéns ao autor.

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  5. Muito bom, amei o texto, principalmente a parte final.

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  6. Adorei, Rafael. Vivendo e aprendendo!

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    1. Obrigado, Janda. Quem mais aprende sou eu...
      R

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