sábado, 5 de outubro de 2013

O ônibus


          Carlito não tira os olhos da garota sentada do outro lado do corredor. Que vontade de beijar aquela boquinha carnuda, de um jeito bem suave, uma, duas, dez vezes com todo o carinho. Mas é interrompido quando o celular dela toca e aqueles lábios incríveis se perdem numa torrente de meu amor, já estou chegando e o inevitável te adoro, que lhe apaga mais uma esperança ocasional.

          Dona Ernestina sofre com o desconforto dos bancos surrados, com o sacolejo nos buracos da estrada e maldiz a arrogância do genro milionário que se limita a visitar o interior duas vezes por ano. Páscoa e Natal. E ele acha muito. O resto do tempo, ela que se arranje para ver os netos. Tem uma linha de ônibus, não tem? Claro que sim, meu bem, e a mamãe pode ficar no quarto de hóspedes de frente para o mar, aproveitando o sol e a companhia das crianças. Bem sabe que a gentileza da filha é pretexto para que o casalzinho possa ir ao cinema, ao teatro, jantar fora com os amigos, cadê que ficam contentes com a visita. E ainda por cima, o velho não a acompanha nas viagens à capital, fica em casa aborrecido, queixa-se da comida de pensão, quer a mulher sempre lá. Só para cozinhar. Afeto que é bom, nada.

          No entanto, Ernestina diverte-se com os olhares insistentes que o jovem do outro lado lança em direção à guria na poltrona da frente, linda mesmo, uma pintura. O encantamento dele é o mesmo do rapazote que, envergonhado, há mais de quarenta anos, a convidou para dançar quase no fim do baile de sábado à noite na Associação Comercial. Lá é de lei se fazer difícil e ela cumpriu o ritual de boa moça. Deu-lhe um trabalhão e assim conseguiu o tipo de homem que queria. Casou na igreja local, toda enfeitada, no branco da pureza e sete meses depois deu à luz a filha prematura que, apesar disso, nasceu tão grande e forte quanto qualquer outra. Reprime a ironia e pensa – será que esses dois vão repetir minha sina? Fecha os olhos para recordar e, justo quando imagina o que teria levado sua paixão a murchar e afinal se dissolver, desperta com a campainha do celular e se entristece com o desfecho de ambas as histórias.

          A rotina de Ana Rosa se arrasta em agonia. Pega sem vontade aquele ônibus a cada duas semanas, para passar dois ou tres dias com o namorado. Esse, o primeiro, o único, objeto de uma ilusão de amor eterno que se acabou em poucos meses e a acorrentou antes às convenções do que aos sentimentos. Aos pais e irmãos comunica supostas viagens de trabalho. Aos vizinhos parece um pouco  rechonchuda, vai ver é comida de lanchonete ou então, né? Resta-lhe a cureta mágica para raspar a vergonha. O celular toca, como a pancada do teatro, sinalizando o primeiro ato. Atende como previsto no roteiro. Assim que desliga faz o cálculo das perdas e ganhos e resolve que a única alternativa ao desespero é um novo guarda-roupa.


Rafael Linden


8 comentários:

  1. Muito interessante Rafael. Deu para visualizar as pessoas!
    Quando você vai juntar estas crônicas novas em outro livro?
    [x]

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    1. Doris, querida. Obrigado, que bom que você "viu" os personagens. Quanto a livro, quem sabe uma hora dessas aparece uma editora pouco exigente, que não esteja abarrotada de best-sellers...
      :-)
      Bjs
      R

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  2. Dar pra até imaginar mesmo... Ô Ana Rosa, sai dessa! rsrssr

    Muito bom o texto......... abç

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