sábado, 7 de setembro de 2013

Nada como um erro depois do outro


          - Chico, capricha na azeitona! Você lembra de mim, né? Minha família morava aqui por perto, antes do meu pai se dar bem. Pois é, meu chapa, até que enfim o velho se convenceu de que eu não nasci pra colégio. Me botou na firma e agora eu tô no pregão todo dia. Beca bacana e o escambau. Faz nem um ano e já comprei aquele Karmann Ghia zerinho, vermelhaço, parado aí em frente.
          Ouço esta bazófia na padaria do bairro modesto onde moro com meus pais. Na parte da frente do estabelecimento há uma fileira de banquetas de fórmica ao longo de um balcão. É o que há de melhor por ali, em matéria de lanchonete. O rapaz tem uns vinte anos de idade. Veste um terno elegante, gravata italiana e exibe um ar de dono do pedaço. Está sentado lá na outra ponta e conta a história do carro novo para o arremedo de mestre cuca que, invisível dentro da cozinha, esbanja seus modestos dotes culinários empilhando fatias diversas dentro de pão francês e espremendo frutas. De pé entre o balcão e a cozinha o Manoel, um atendente, olha para ontem. Não está interessado no assunto e se desloca preguiçosamente na minha direção.
          - Vai querer o que, garoto?
          Em uniforme de escola pública, boto minha pasta de couro sintético na cadeira vazia ao lado, peço um sanduíche e um refresco e, disfarçadamente, acompanho a conversa. Lá de dentro, Chico se espanta.
          - Nem um ano e já comprou carango?
          - É isso mesmo, bolsa de valores é tiro e queda. Vou ganhar uma grana legal.
***
          Chego da faculdade e paro na padaria. Tiro a mochila das costas e logo reconheço o dono do Karmann Ghia, de terno e gravata, mas com rugas precoces no rosto. Peço um lanche e, sem olhar para os lados, ouço calado as novidades.
          - Entrei pelo cano, Chico. Perdi uma nota preta com as ações daquela siderúrgica de merda e, agora, o velho me tirou do pregão e me enfiou atrás de uma escrivaninha. Podes crer, vou sair pra outra corretora.
          - Mas seu pai não vai ficar chateado?
          - Já era. Se eu ficar batucando em máquina de escrever a vida toda, vou morrer durango. Eu quero mais é morar numa cobertura na beira da praia, andar de Mercedes e me encher de mulher boazuda.
          - Ué, e a noiva? Vai casar ou não vai?
          - Sei não. Posso arrumar coisa melhor. Tô fazendo a cabeça da filha do dono da outra corretora, sacou?
***
          Chove muito, justo no dia que escolhi para visitar meus pais. Resolvi dar uma volta pelas redondezas e tenho de pular uma poça d’água enorme por causa de um fusca velho parado em frente à lanchonete. Solto um palavrão e entro, todo molhado. Afrouxo a gravata, tiro o paletó e enxugo o rosto com o lenço. Faz tempo que não ando por aqui e pergunto ao balconista:
          - Tudo bem com você, Manoel? E o Chico? Ainda trabalha aqui?
          Nem bem termino a frase ouço o Chico, de dentro da cozinha, perguntar para alguém em voz alta.
          - Que foi que o advogado disse?
          O homem na outra ponta do balcão ainda é o mesmo, mas perdeu a arrogância de outrora. O terno está amarrotado, a gravata manchada, o rosto tem um ar cansado.
          - A barra pesou. Ele vai pegar uns cinco anos por causa daquele bode com as ações.
          - E você?
          - Tá maus, tô procurando outro emprego. Mas logo, logo me acerto.
          - E as crianças?
          - Vão pra escola pública. Minha mulher tá me enchendo o saco por causa disso. Não se conforma que o pai acabou com a fortuna da família e vai em cana, enquanto o maridão aqui não tem mais como manter aquele conforto.
***
Deixei minha filha na casa dos avós depois da aula de ballet. Lembro da lanchonete. Faz bem uns cinco anos que não volto lá.
          - Dotô, há quanto tempo!
          - Pois é, Manoel, pede pra mim um misto quente, daqueles de antigamente, e um suco.
          Do outro lado da parede, soa a voz do Chico:
          - Já ouvi, deixa comigo! Mas como foi que ela descobriu?
          - Ela quem? Descobriu o que?
          - Desculpe, eu perguntei para outra pessoa.
          Só então reparo no sujeito mal-ajambrado, encolhido na outra ponta do balcão e tomando uma cachaça. É apenas uma sombra daquele rapazote que se via fadado ao sucesso e à fortuna. Foi ele quem respondeu, com uma voz rouca, arrastada e muito mais fraca do que da primeira vez que o vi.
          - Voltou mais cedo da viagem e me pegou no flagra.
          - E aí?
          - O que você acha? Saiu de mala e cuia, levou as crianças e, no dia seguinte, o advogado me ligou.
          - Deu no que?
          - Pensão, meu camarada. Pensão. Vai quase tudo que eu ganho na firma. E eu não consigo ser promovido desde que entrei. Vendi o fusca e tô contando as moedas pra fechar o mês.
***
          Hoje, minha filha teve prova na faculdade e não pode levar meu filho temporão para visitar os avós. Fui eu mesmo e bateu, de novo, saudade do bairro onde passei minha infância. Saí pelas redondezas e entrei na padaria, já bem decadente. O Manoel, grisalho e curvado por décadas de balcão, nem me reconheceu. Depois de refrescar-lhe a memória, pedi o mesmo lanche de sempre. Afrouxei a gravata e, sem me dar conta da coincidência, retomei o hábito de ouvir a conversa do cidadão que estava, como sempre, na outra ponta do balcão, o ex-dono do reluzente Karmann Ghia. Já faz um tempão que não se fabrica mais esse automóvel, só sobrou meia dúzia na mão de colecionadores. Será que o dele ainda existe?
          - Pois é, Chico. Ontem, eu queimei meu filme de novo. Reclamei de mau jeito que não era promovido, falei umas besteiras e aquele mala do patrão me disse que eu já estava na firma há muito tempo sem progredir, que não tinha procurado me qualificar e que eles não precisavam mais dos meus serviços. Tô na rua de novo.
          - E agora?
          - Sei lá. Tá difícil.
          Fez-se silêncio. O outrora esfuziante dono do carango toma, com parcimônia, uma pinga barata. Chico prepara meu lanche. Com a idade, está muito mais lento - esse sanduíche vai demorar a sair pela janelinha da cozinha. Manoel, como sempre, olha para ontem. Eu disfarço, mas fico atento esperando a retomada da conversa. Até que ouço, lá da outra ponta do balcão.
          - Sabe, que coisa incrível, eu venho aqui há mais de trinta anos e você tá sempre escondido aí dentro. Eu nunca te vi!
          E o Chico, resignado, resmunga baixinho.
          - Era só ele se olhar no espelho.


10 comentários:

  1. Ei Rafa. Um desafio(rsrs): Que tal vc fazer uma crônica com o outro lado da moeda? Existe pessoas que não se adaptam ao ensino formal, escolar e universitário. Tipo, fulano não gosta de estudar. No entanto muitas destas pessoas conseguem construir suas vidas de forma assertiva, ao passo, que outros, vivem da formalidade do diploma e levam uma vida, por assim dizer, burocrática.
    Os exemplos são frequentes, nem é necessário falar de Jobs e Gates, ou do gênero. Você certamente conhece vários, cuja curiosidade e vontade de conhecer torna-se motivação suficiente para construir uma vida significativa.

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    1. Um dia, quem sabe. Mas já que você se interessa pelo assunto, já leu o livro "The Element: How Finding Your Passion Changes Everything", de Ken Robinson? Ele tem uma palestra, gravada na TED, muito interessante, que foi seguida por esse livro. http://www.ted.com/talks/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html

      Acho que você vai gostar.
      abs
      R

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  2. Gostei muito da proposta do seu blog, meu caro! Acompanhando e me maravilhando. Sabe que um dia perguntaram pro Bertrand Russel se ele acreditava na possibilidade de vida inteligente em outros planetas. Ele respondeu algo como "Minha filha... Já está tão, mas tão difícil encontrar vida inteligente NESTE planeta aqui..."

    Vou recomendar seu blog a meus amigos, Rafael. Se puderes, me ajude na divulgação de minha página também, sim? http://www.culturabrasil.org/

    [ ]s

    Lázaro

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    1. Obrigado, Lázaro. VOU lá ver sua página.
      abs
      Rafael

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  3. É, quanto maior o topo, maior o tombo!

    Bjs

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