sábado, 21 de setembro de 2013

Descartáveis


          Não tenho ninguém, não saio de casa e tudo que me resta se acumula ao meu redor, como moldura de uma vida vazia.
          Você não me conheceu antes. Eu era a jóia mais rara, de beleza luminosa, encanto irresistível. Era a alma da festa, o brilho nos olhos dos outros, a noite de sonho dos homens que me viram e me amaram intensamente. Eu os fazia acreditar que me possuiam enquanto os guiava a meu bel-prazer, usufruía do que tinham a oferecer e os descartava como objetos usados, no lixo dos amantes exaustos e inúteis, antes de me lançar de novo, revigorada e ainda mais bela, ao centro de todas as atenções.
          Esse poder durou toda uma juventude e, de súbito, ambos acabaram. As festas prosseguiram, os homens não deixaram de cobiçar a mais linda de todas as que frequentavam os salões, a bela da vez não deixou de brilhar. Fui eu que deixei de fazer parte deste mundo que tanto me servira. Daquela que era vista, tornei-me a que via, a que era levada ao bel-prazer alheio, a que, quando muito, era usada e desprezada no lixo das amantes exaustas e inúteis.
          Eu não tinha vida interior longe dos salões iluminados, dos olhos cobiçosos, do centro das atenções. Estar lá fora, assim, deixou de ter sentido. Encerrei-me num mundo de recordações cada vez mais amargas, acordando pela manhã com um fio de esperança que logo se esvaía ao olhar ao meu redor, ao perceber o novo dia, ao sentir o tempo que passara e o nada que me restara.
          A herança acumulada dos homens que, outrora, me cobriram de jóias e engordaram minha conta bancária, serviu para sustentar minha nova existência, solitária e carente, sitiada por paredes e ligada ao mundo apenas pela televisão, pela internet. E pela janela, de onde eu olhava, desolada, para a rua onde andei descalça, embriagada, sempre na companhia de um tolo que escolhera, naquela noite, para me alegrar e amparar. A mesma rua onde agora todos passam, onde tudo passa diante de mim.
          Benditas as janelas que me deixam ver o mundo, incógnita, bendita a chance de entulhar a casa com tudo o que me apetece a cada momento, sem ter que exibir nas ruas minha estampa decaída, uma sombra infeliz da juventude perdida. Bendita a chance de usufruir de tudo e descartar as sobras, as embalagens, os trastes usados. Bendita a chance de manter o mundo à minha volta para não esquecer que, um dia, eu o fazia do lado de fora deste apartamento.
          Assim, por muitos anos ensaiei uma honrosa decadência, consolando-me com a proximidade de tudo que era meu e dos restos do que possuíra, da forma como tive o que quis em tempos que já se foram.
          Entretanto, quando menos esperava, surpreendi-me ao ser obrigada a me desfazer do meu mundo, das posses e das sobras que juntara em minha casa para preencher o vazio de minha existência. Tudo o que eu tinha desapareceu, embalado em sacos plásticos negros e lúgubres empilhados na frente do prédio, onde eu ainda pude vê-los por vários dias protegidos pela nevasca que paralisara minha cidade.
          Passei aqueles dias à janela, por horas a fio contemplando a lenta agonia de minha memória, recolhida por ordem da saúde pública, arrancada de mim, assim como minha juventude fora de mim arrancada pelo tempo. Minha vida empacotada, que aguardava remoção.
          E foi da janela que testemunhei o vôo solitário de um homem, desesperado como eu, de seu apartamento no oitavo andar até pousar com estardalhaço sobre o meu lixo, de onde populares apressados o tiraram, ferido no corpo e na alma; o primeiro dolorido, porém a salvo; a segunda, tal como a minha, estraçalhada e condenada ao vazio.


11 comentários:

  1. Muito bem escrito ( Os Descartáveis), argumentos sólidos ,Português nota 10.....em suma digo Gostei.....Manda mais....

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  2. O Rafael dá um show, semanalmente me deparo por aqui... parabéns ao cara, um exímio conhecedor das palavras!

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    1. Muito obrigado pelas palavras, Adriano. Volte sempre.
      Rafael

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  3. Sensacional, Rafael, Sensacional!!!

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  4. Show de bola o texto! Parabéns!

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  5. Com a simples mudança de algumas variáveis, vi-me retratado em seu texto. Não sei se o cumprimento pela brilhante descrição ou se o xingo por acabar com meu dia!

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