domingo, 25 de agosto de 2013

Um amor mediterrâneo


          Vim para retomá-la. Cinco anos sem uma carta sequer. Mas, na despedida, eu disse “adieu” e você me corrigiu: “Pas adieu. Au revoir”.
          Deixo a bagagem na casa alugada, a mesma. Subo a colina no parque onde nos conhecemos. As trilhas arborizadas, a vista do mar e do telhado das casinhas, que serpenteiam nas ruas antigas, são de fato o cenário perfeito para um encontro casual. Sento-me no banco em que você estava quando riu de mim, o clássico turista atrapalhado com a câmera, a mochila, a sacola de presentes, o sanduíche e a garrafa de Evian. Desejo que, agora mesmo, você apareça e dê de cara comigo.
          Tolice. Já me basta a sorte daquele dia. Folheio o catálogo para surpreende-la com minha voz ao telefone. Talvez você tenha alguém, ou nem me queira rever depois de tanto tempo. Encontro seu número, ligo e voilá - é assim que se fala? -, a voz cristalina diz alô e me enche de expectativa e medo. Apenas balbucio meu nome.
          É um alívio ouvir a resposta. Você fala depressa, muito. Mal consigo interrompe-la para lembrar que não entendo quase nada de francês - uma das poucas frases que aprendi a dizer corretamente, ao menos para poder pedir informações na rua. Você acha graça e isso é bom. Foi assim da primeira vez.
          Agora bem devagar, me ajuda ao traduzir algumas palavras para o inglês e pergunta onde estou. Quase não acredita que consegui novamente alugar a casa de esquina, na cidade velha, tão romântica e acolhedora. Num impulso peço-lhe que venha. Mal termino a frase fecho os olhos, com receio da resposta. Mas você me diz que espere até o fim da tarde.
          Abro uma garrafa de vinho, encho uma taça e sento-me no topo da escada que dá para a rua estreita. Bebo de olhos fechados, em antecipação, como se beijasse sua boca. Logo ouço o barulho da corrente, a trepidação de uma bicicleta no chão de pedras redondas. Quero muito que seja você. Ainda não. Um jovem desconhecido surge da curva da esquina e pedala apressado em frente à casa.
          Passa-me pela cabeça a idéia maluca de que algum dia vi uma fotografia deste jovem, nesta mesma esquina. Deve ser apenas minha ânsia de reconhecer uma bicicleta familiar. Sei que será a próxima, que você a deixará cair na calçada do outro lado da rua e subirá correndo a escada. Tudo vai dar certo.


Rafael Linden




14 comentários:

  1. "Passa-me pela cabeça a idéia maluca de que algum dia vi uma fotografia deste jovem, nesta mesma esquina."

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  2. ...E realmente passa pela mente a ideia de algo já visto mesmo! kkk

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  3. Um fascínio esse texto... adorei!

    Bkjosss

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  4. Nossa! quanta criatividade, amei o texto!

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  5. Gostei! Principalmente porque é apenas um momento!
    Beijo, Rafael!

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