sexta-feira, 5 de julho de 2013

Como explicar o medo


          Há alguns anos, um jovem garçom chamado Connor Lawless limpava mesas numa lanchonete de Bristol, na Inglaterra, quando encontrou um bilhete escrito em um guardanapo de papel. Dizia, apenas “I am not afraid of tomorrow”, que se pode traduzir como “eu não tenho medo do amanhã”.
         Tempos depois o rapaz, que hoje em dia cursa uma universidade e pretende tornar-se escritor, divulgou a foto do guardanapo na Internet, dizendo não saber se quem escreveu aquilo o fez para si, ou para os que eventualmente encontrassem o bilhete. Seja como for, quem deixou a mensagem não a assinou nem, que eu saiba, se apresentou como autor até agora.
          A estimada leitora, por acaso, tem medo do amanhã? E aquele leitor rabugento, que sempre reclama do diversionismo do cronista? Tem? Com o inestimável auxílio do sempiterno Google, descobri que pelo menos um compositor gospel garante, em letra e música, que não tem. Mas eu não acredito. A emoção que conhecemos pelo nome de medo é um conjunto de reações comportamentais e biológicas de defesa contra ameaças e exerce um importante papel evolutivo. Muitas destas respostas são inatas e precedem ou prescindem da conscientização do perigo.
          O medo é muito mais complexo do que se imagina. Controvérsias sobre este assunto são muitas e, às vezes, contundentes. E não é à toa pois, por exemplo, o psiquiatra Isaac Marks, experiente no tratamento de pacientes com ansiedade e fobias, lembra que, na língua inglesa, há mais de trinta palavras para descrever variantes de medo ou ansiedade.
          O cientista Ralph Adolphs, da Caltech, sumariou na revista científica Current Biology pesquisas de laboratório, incluindo estudos de atividade cerebral em voluntários saudáveis e pacientes neurológicos, mostrando que diferentes tipos de medo estão associados a atividade em regiões distintas do sistema nervoso central. Seus mecanismos funcionais são, porém, muito conservados evolutivamente e, no cérebro de mamíferos, parecem sempre envolver as amígdalas. Não, madame, não são as amígdalas palatinas, que foram removidas de sua garganta quando a senhora era criança, através de uma pequena cirurgia seguida de muito sorvete. Estas amígdalas de que falo são partes do cérebro, que ficam mais ou menos na altura das suas orelhas, só que por dentro do crânio e bem profundas. Pacientes neurológicos com lesões nesta região cerebral, estes sim, perdem o medo, como aconteceu com uma senhora portadora da chamada doença de Urbach–Wiethe, que resultou na degeneração das amígdalas dos dois lados do cérebro. Esta paciente sequer é capaz de reconhecer o medo estampado na face de outras pessoas, quando as vê ao vivo ou em fotografias.
          Entretanto, o que mais nos interessa nesta crônica é um artigo publicado na revista Trends in Cognitive Sciences, pelo neurocientista Joseph LeDoux, da New York University. LeDoux é um especialista de alto nível em memória e emoção, especialmente no estudo do medo. Ele chama atenção sobre uma certa confusão no emprego da palavra “fear” (medo) para descrever tanto as respostas de defesa induzidas por ameaças, quanto o sentimento consciente a elas associado. E não se trata de mero preciosismo acadêmico, pois não são a mesma coisa. Embora em pessoas saudáveis as respostas automáticas e a conscientização do perigo ocorram em conjunto, há mecanismos distintos e partes diferentes do cérebro envolvidas nestes dois aspectos do medo.
          Quem escreveu o tal bilhete na lanchonete parece confiante de que não tem nada a temer do amanhã. Mas o futuro é o desconhecido e, convenhamos, ignorar o medo do desconhecido não passa de fanfarrice. Ou, talvez, o autor da frase não soubesse que, além das respostas inatas, não só humanos mas também animais como ratos e camundongos aprendem reações de defesa contra suas próprias adversidades, ou incorporam comportamentos defensivos através de interações sociais com seus respectivos grupos. Algumas destas respostas podem permanecer desconhecidas pelo resto da vida, por não se repetirem as ameaças, ou por escaparem de nossa consciência mesmo quando em plena atividade subliminar. Então, frente a ameaças, reações comportamentais e biológicas de medo são inevitáveis, embora nem sempre se manifestem conscientemente.
          Ao contrário do que muitos pensam, medo não é motivo de vergonha para ninguém. É um legado da evolução e um instrumento de defesa. Pode até, em certos casos, se contrapor à ousadia do ser humano, prejudicando sua criatividade ou impedindo o progresso. Mas a coragem necessária para ousar não se confunde com uma presumível ausência de medo. Dela, talvez o melhor que se pode pensar é atribuído a Mark Twain, o qual teria dito que coragem é a resistência ou o domínio do medo. Este sempre estará presente. A biologia é implacável.

Rafael Linden


14 comentários:

  1. Muito bom Rafael

    Abs
    Paulo

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  2. Muito oportuno Rafa!
    Medo como a dor são indispensáveis à sobrevivência. Embora, não necessariamente desejáveis rsrs.
    (No Erro de Descartes, o Damásio tb aborda este tema, sendo de leitura acessível)

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    1. Nada desejáveis...
      :-)
      Pois é, eu deixei o Damasio de fora para não alongar muito a parte científica. Esse assunto dá muito pano para manga...
      Abs, obrigado

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  3. Rafael,a crônica´foi muito ilustrativa, de grande saber.
    Muitíssimo interessante.

    Carlos Olguin Naschpitz

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  4. Perdi o medo... rs! Muito bom texto!

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  5. OLá Rafael.
    Há quanto tempo hein? Será que você ainda se lembra de mim?
    Muito interessante a tua crônica.
    Aprendi hoje contigo sobre esta sindrome Urbach-Wiethe. E fiz uma associação de idéias
    imediatamente, ou seja, acho que vários parlamentares e governantes brasileiros tem
    esse dodói. Nenhum deles tem medo nem do presente nem do futuro....rsrsrsrs.
    Grande abraço.
    Mauricio Chveid

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    1. Olá Mauricio, obrigado por passar pelo blog! Claro que me lembro, apesar da idade avançada ainda não sucumbi à Alzheimer. Pelo menos não totalmente...

      De fato, parece haver uma epidemia desta síndrome nos palácios e gabinetes. Os cirurgiões devem ter removido as amígdalas erradas desses políticos...
      :-)

      grande abraço, volte sempre!
      Rafael

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  6. Olá Rafael.
    Adorei o texto, publiquei no Portal teia.
    Até mais meu amigo!

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  7. Excelente crônica amigo, meus parabéns!

    O medo é reconhecido só como a ameaça, a algo bem perto, seja em relação a distância, como em relação ao tempo. Impossível prever quando se tem medo, pela sua saúde, pelo que pode ocorrer de uma dia pro outro, pela mudança de suas situações. O medo por você, o medo pelos outros. O medo de perder alguém querido, por exemplo.

    Se amanhã o amor da sua vida puder morrer se você fizer uma escolha errada, isso não vai gerar medo? O receio também é medo. Sentimento relativo esse, e tá presente em TODOS, e é IMPREVISÍVEL. Não adianta dizer que não tem. Uma hora você vai ter. Aliás, várias horas.

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