sábado, 22 de junho de 2013

O crítico


          Lucas mora longe e, por isso, é entrevistado por telefone. Apresenta-se e conta que acabou de obter o mestrado por uma universidade de prestígio. Sabe tudo, descreve e comenta todos os filmes clássicos, cita diálogos marcantes, conhece de cor e salteado os ganhadores dos principais prêmios. É simpático, articulado e mostra-se ávido por uma oportunidade na imprensa. O diretor do semanário não titubeia. Contrata-o imediatamente para a coluna de cinema, que está órfã desde quando seu titular se recusou a assistir “A saga crepúsculo - parte 7: a cárie”, aposentou-se e foi criar galinhas na chácara que herdou de um tio.
          É um sucesso desde o primeiro dia. O rapaz escreve bem, num estilo elegante e ágil, mas sem gírias. Seu texto conquista leitores de todos os tipos. A avó da minha vizinha, de oitenta anos de idade e devota Filha de Maria, adora discutir a coluna com uma sobrinha-neta adolescente, que usa um piercing no nariz e três brincos com pequenas caveiras na orelha esquerda. A coluna semanal circula entre estudantes de Comunicação antes das aulas e entre os comerciários na hora do almoço.
          O diretor está satisfeitíssimo. Sua única queixa é de que Lucas não dá a menor importância ao convívio social com cineastas, não é visto nas estréias, não frequenta os festivais e sequer comparece às cerimônias de premiação. Porém, não é o primeiro crítico excêntrico no plantel e o que interessa mesmo é que muita gente diz comprar a revista por causa da coluna de cinema.
          Já Dona Jurema, a mãe de Lucas, não podia estar mais feliz. Desde que ele conseguiu ser contratado a vida melhorou muito. O marido sumiu há anos e o posto de escriturária que arrumou ao chegar do interior mal dava para sustentá-la e ao filho único. O computador, que o patrão lhe deu quando renovou os equipamentos do escritório, foi providencial. É de onde as críticas do jovem são enviadas direto para a redação, por correio eletrônico, devidamente remuneradas por depósitos na conta corrente do rapaz.
          Até a contratação de Lucas, a pacata senhora vivia de casa para o trabalho e de volta para casa. Grudava na televisão e só falava de novelas. Quando Lucas arrumou o emprego, no entanto, ela começou a ver todos os filmes apresentados no shopping do bairro. Chega ao cúmulo de viajar mais de duas horas de ônibus para ir ao centro da cidade ou a um bairro afastado, assistir aos filmes que não passam no subúrbio. Amor de mãe é assim mesmo, né? Se o Lucas tivesse entrado para o Exército, a mãe seguramente se interessaria por combate na selva.
          E o cinema, de fato, se torna a grande paixão de Dona Jurema. Ao voltar para casa, depois de cada filme, reconta tudo em detalhes para o rapaz. Entusiasmada, lê para ele as críticas que encontra nos jornais. O jovem ouve a mãe, com um sorriso benevolente nos lábios. Parece pagar com sua paciência o preço do carinho materno. Quando ela esgota o discurso, Lucas vai para o quarto e lá fica por algum tempo. Ao sair, entrega o gravador para a mãe e esta, abnegada, transcreve a crítica pronta para um arquivo, que envia para a redação da revista em nome do filho cego.

Rafael Linden


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