quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tornados e estatísticas


          Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas a população de Moore, no estado americano de Oklahoma, perdeu a fé nesse ditado popular. Na tarde de 20 de maio de 2013, um tornado arrasou uma extensa área da cidade, deixando pelo menos 24 mortos e destruindo mais de duas mil casas, duas escolas e boa parte do hospital local. O tornado caiu praticamente no mesmo lugar de outro que, em 1999, causara 11 mortes e destruira centenas de casas, além de outras mortes e danos severos em cidades vizinhas.
          Um tornado, ou ciclone, é um funil de ar giratório que ocupa o espaço entre uma nuvem e o solo, com ventos que podem atingir velocidades de até quinhentos quilômetros por hora. Forma-se nas nuvens e fica visível quando toca o chão e levanta poeira e destroços. Sua força é medida numa escala que vai de zero a cinco, dependendo da velocidade dos ventos e, principalmente, dos danos resultantes. Nos dois casos, em 1999 e 2013, os tornados que cairam sobre Moore foram classificados como EF-5, o grau máximo.
          Uma extensa faixa do território dos Estados Unidos, que vai do nordeste do Texas ao oeste da Georgia e do golfo do México até o extremo norte do país, é chamada de “alameda dos tornados”. Nesta região ocorrem ciclones com frequência muito maior do que em qualquer outro lugar dos EUA, causados pelo encontro de massas de ar frio e seco vindas do Canadá com outras de ar quente e úmido vindas do golfo, sem grandes obstáculos como montanhas altas, que não existem na “alameda”. Estima-se que ali ocorram cerca de três quartos de todos os ciclones na Terra, principalmente na primavera. Mas tornados também acontecem em outros países, incluindo boa parte da Europa, o sul da Ásia, a China, Austrália, Filipinas, África do Sul e, perto daqui, o leste da Argentina, Uruguai e o extremo sul do Brasil. Dentre os mais destrutivos da história, Bangladesh registra cerca da metade.
          Todas estas informações técnicas são muito educativas, mas a população de Moore não apenas está em choque pelas vítimas e pela destruição, mas deve estar se perguntando por que uma tragédia desta magnitude se repetiu ali mesmo num intervalo de apenas quatorze anos. Afinal, tornados EF-5 são raríssimos, menos de um a cada mil, porque dependem da incomum coincidência de vários fatores ligados às correntes de ar, umidade, condições do tempo ao longo de grandes distâncias e, ainda, da topografia e da concentração urbana na região onde o ciclone toca o solo. É minúscula a chance desse conjunto de coincidências, que amplificam o poder destrutivo dos ciclones, se dar exatamente no mesmo lugar. Moore tem cerca de cinquenta mil habitantes e ocupa menos de cinquenta e sete quilômetros quadrados, enquanto Oklahoma tem área três mil vezes maior. Mesmo considerando que é o estado com maior frequência de ciclones de grau alto, ainda assim Moore, que fica coladinha à capital do estado chamada Oklahoma City, detém agora uma fatia desproporcional das tragédias deste tipo.
          Por que essa malfadada predileção pela pacata Moore? É plausível que, com base nas séries históricas de massas de ar, temperaturas, tempestades e outros fenômenos naturais, bem como através de novas pesquisas de campo, os cientistas venham a concluir que as condições meteorológicas fazem do entorno de Moore um local mais propício ainda do que o resto de Oklahoma à formação de tornados destrutivos. Por outro lado, não faltará quem atribua as agruras da cidade a desígnios sobrenaturais, a uma retribuição tardia pelas antigas crueldades de algum habitante malévolo, ou a alguma outra causa esdrúxula. Meus fiéis leitores sabem qual seria minha escolha entre essas explicações, mas a crônica não é sobre isso, e sim sobre probabilidades, para não usar o nome – falem baixo para não atrair o bicho - es-ta-tís-ti-ca.
          A improvável repetição da tragédia de Moore lembrou-me um livro extraordinário. Trata-se de “O andar do bêbado”, de Leonard Mlodinov, publicado no Brasil pela Zahar, e em Portugal pela editora Bizâncio sob o título “O passeio do bêbado”. Neste livro, que ostenta o subtítulo “Como o acaso determina nossas vidas” o físico Mlodinov, que já escrevera outros livros de divulgação científica, explica para leigos a teoria das probabilidades e desmistifica a estatística. Entre outras coisas, comenta a dificuldade que tanta gente tem de aceitar a aleatoriedade de certos eventos os quais, por vezes, parecem regidos por uma relação causa-efeito simples. No caso de Moore a questão é aceitar ou não que, às vezes, catástrofes naturais podem se repetir no mesmo lugar por mero acaso.
          Senão, vejamos. A região em torno de Oklahoma City foi atingida por cerca de cem tornados nos últimos cem anos, cinco dos quais atingiram Moore. Pela raridade dos tornados EF-5, depois do terrível ciclone de 1999 certamente a maioria da população da cidade acreditou que não veria algo assim outra vez. Pois aconteceu. E, agora, muitos devem estar seguros de que logo os cientistas conseguirão explicar a razão pela qual a chance de um ciclone atingir o grau EF-5 naqueles parcos sessenta quilômetros quadrados é muito maior do que em qualquer outro lugar. Deixando de lado explicações sobrenaturais, é óbvio que basta mais estudo e equipamentos mais sofisticados para chegar, inevitavelmente, a esta conclusão, certo? Errado.
          Na verdade pode ser, mas apesar de todo o carinho que o abaixo-assinado nutre pelo determinismo nas ciências naturais, é perfeitamente plausível que a repetição da história de Moore seja obra do acaso, ou melhor, de uma nova, porém casual, conjunção de múltiplas coincidências improváveis. Em outras palavras, qualquer cidadão, cientista ou não, estará em pleno gozo de suas faculdades mentais se admitir que, mesmo levando em conta possíveis efeitos de mudanças climáticas recentes, a chance desta tragédia ter ocorrido pela segunda vez em tão pouco tempo era tão pequena quanto, em 1999, de acontecer pela primeira vez. E continua a mesma, ou seja, pode acontecer de novo na próxima primavera, sem ferir as leis da estatística.
          Acreditem, um acaso não nos exime de outro igual e um raio dificilmente cai, mas pode cair duas vezes no mesmíssimo lugar. De modo geral, embora o velho barbudo tivesse boas razões para dizer que a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa, em se tratando de catástrofes naturais a repetição pode ser uniformemente trágica. Se a gentil leitora não acredita, leia o livro do Mlodinov. Na pior das hipóteses não vai se convencer, mas é diversão garantida. A menos, é claro, que a mera menção da palavra estatística lhe seja suficiente para provocar uma crise alérgica.

Rafael Linden


12 comentários:

  1. trágico.... a natureza é algo imensamente mais forte do que o homem se quer pode imaginar!

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    1. E é imprescindível entende-la o mais possível.

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  2. Já lí e concordo com você: é muito interessante!
    []dr

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    1. Eu achei um dos melhores livros que li nos últimos anos.

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  3. 100 tornados nos últimos 100 anos... pô! média de 1 por ano... é louco hein!

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  4. A natureza é fantástica, imprevisível, indecifrável, inimaginável... indescritível!

    Excelente texto... uma visão de mundo sem igual!

    Abraço!

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  5. Magnífico o texto....

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    1. A natureza é sempre impressionante.
      abs
      Rafael

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