sexta-feira, 10 de maio de 2013

Lena e o fado


          Lena, Leninha, que pena, peninha, feia, feinha, tão tola, tolinha...e ela disparava atrás de mim, chorando com raiva. Dobrávamos a esquina de nossas ruas, à toda em louca perseguição. Uma vez atirou-me a boneca com tamanha força e tão pouca pontaria que quebrou a vidraça da varanda da velha vizinha. Eu adorava contar essa história na esquina e dobrava-me em gargalhadas ao cantarolar, esganiçado, Lena, Leninha, a vidraça da varanda da velha vizinha. Eu dez, onze, doze, ela sete, oito, nove, varanda vidraça, velha vizinha, Lena, Leninha...
          Quando foi mesmo? Quinze anos depois, que então ainda se dizia três lustros. Lena, Leninha, linda, lindinha, deixou a boneca e caiu nos meus braços como só se fazia antigamente. A velha vizinha dizia que ódio de criança só podia tornar-se paixão, e que já o era quando quebraram a vidraça de sua varanda. Quando quebraram, vidraça varanda, velha vizinha, e Lena ria a mais não poder de meus versos de pé quebrado, que eram só aliterações, memória e devaneio.
          Poesias rabiscadas em guardanapos de papel ganharam melodias arrancadas do fundo do peito, canções que eu sonhava fossem flechas certeiras no coração de Lena. E ela, enlevada, fazia que sim e nem precisava, eu sentia que o amor crescia a cada verso, a cada canção, a cada dia em que mais se curvava a velha vizinha, enquanto eu e Leninha nos agigantávamos de paixão e desejo.
          Torno-me compositor conhecido e, ato contínuo, meu peito sangra. Ela, que nunca enxergara outro, encontra novo amor e o que se estilhaça desta vez é meu coração. Fico de fora da vida de Lena, Leninha, que desfila alegre, cantarolando minhas melodias nos braços de outro. Exibe-se feliz, como se outra felicidade houvesse que não a nossa, que dividimos por dois e multiplicamos por muito mais, num quando que insiste em ficar no passado.
          Deixo de dobrar a esquina. Queimo por dentro em ciúmes, em saudades, em luto sentido, varro desordenadamente as cinzas secas da paixão que dura desde menino, espalho restos calcinados que me envolvem como poeira soprada pelo vento. A cada noite em claro, meu pensamento volta um dia, menos um dia, sempre para trás, na direção de Lena, Leninha, que pena, peninha, feia, feinha, não mais. Tão tolo, tolinho sou eu, desolado percebo.
          Encerro-me por semanas a fio, a tentar destruir a memória de cada lustro de outrora, desperdiço minha energia, procuro inutilmente a saída, a estrada à frente que me levará para longe do abismo do passado que quero esquecer. E, assim como compus para construir a paixão, componho para desconstruí-la. Mas falta-me inspiração e tudo que consigo é reproduzir no papel o plágio rasgado de um fado com o qual, ao ouvir pela primeira vez, desgostei-me porque não me era dado entender o quanto carece esquecer quando a lembrança insiste em nos aprisionar.
          A estrofe que roubo e finjo compor diz “saudades são fé perdida, são folhas mortas ao vento, e eu piso sem um lamento na tua rua ao passar”. Não é, não será minha essa estrofe, mas torna-se, de súbito, a chave que abre a janela. E o caminho se descortina no verso seguinte “e ainda que me custe a vida, não há-de ver-me chorar”.
          Lena, que pena. A vidraça opaca se quebra em canção. Encontro, afinal, minha estrada.

Rafael Linden


8 comentários:

  1. Gostei, Rafael! Mas ainda estou esperando o conto da "escada"...

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  2. Lindoooooo... “saudades são fé perdida, são folhas mortas ao vento, e eu piso sem um lamento na tua rua ao passar”!
    Bjo!

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    1. Obrigado, mas quem me dera ser o autor desta estrofe. É, como diz o texto, roubada mesmo, do fado "Na rua dos meus ciúmes", de Frederico Valério e Nelson de Barros.
      bjs

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  3. Magnifico texto... sem palavras pra descrevê-lo! Amei...

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