quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Sempre haverá uma Inglaterra


          Coisas que só acontecem na Grã-Bretanha me lembram uma seção da revista The New Yorker, chamada “There’ll always be an England” (Sempre haverá uma Inglaterra). Os textos, em geral, fazem pilhéria com esquisitices dos britânicos garimpadas em jornais provincianos. É uma saudável gozação dos ianques para com os antigos colonizadores, a começar pelo título, copiado de uma canção patriótica inglesa. Porém, outras coisas que se passam na velha ilha são emblemáticas. A descoberta do esqueleto do rei Ricardo III é uma delas.
          Uma das primeiras peças do dramaturgo William Shakespeare trata deste monarca. O personagem está entre as mais marcantes representações da maldade na história do teatro. Tanto que a primeira versão da peça, publicada em 1597, teve o título “A tragédia do Rei Ricardo terceiro, contendo os planos traiçoeiros contra seu irmão Clarence, o assassinato de seus inocentes sobrinhos, sua usurpação tirânica [do trono inglês], a trajetória completa de sua detestável vida e merecidíssima morte”. Isso sim, é título bacana para uma biografia.
          Para completar o sumário, basta acrescentar que um dos sobrinhos mencionados era o herdeiro legítimo do trono que, junto com o irmãozinho menor, era tutelado pelo tio. As crianças foram encarceradas na Torre de Londres e, de repente, sumiram. O tio é o principal suspeito destas mortes e, uma vez proclamado rei da Inglaterra, teria continuado a praticar toda sorte de crueldades, inclusive assassinar a própria esposa para casar com uma sobrinha. Como dizia minha mãe, Ricardo III era “mau que nem um pica-pau”. Não bastasse tudo aquilo, ainda seria corcunda e manco. Esse paradigma da maldade foi revivido também no cinema, através da interpretação de Lawrence Olivier, em 1955, e de Ian McKellen em 1995, além de um documentário de Al Pacino em 1996. Porém...
          Pois é, porém...sempre haverá uma Inglaterra, onde existe uma Sociedade com milhares de filiados do mundo inteiro, destinada exclusivamente a defender a memória de Ricardo III. Não estranhe, caro leitor, pois a agremiação tem lá suas razões para questionar a pecha de criminoso cruel atribuída ao monarca. Neste caso o aforismo “a História é escrita pelos vencedores” se aplica como uma luva. Ricardo III reinou por apenas dois anos até ser morto em 1485, no campo de batalha, por seu inimigo Henry Tudor, o qual inaugurou a dinastia que leva seu sobrenome ao ser designado o rei Henrique VII. Daí em diante, restava no século XVI pouca oportunidade para contestar a versão oficial dos Tudor. Entre os sobreviventes dos massacres que aconteceram na Inglaterra por décadas a fio na segunda metade do século XV, não sobrou quase nenhum amigo de Ricardo III. E, cem anos depois, quando Shakespeare escreveu sua peça, ainda reinava a última representante da linhagem dos Tudor, Elizabeth I, aliás magistralmente interpretada por Cate Blanchett num filme de 1998.
          E é aí que entra o esqueleto. Há poucos dias foi confirmado, por exames de DNA, que são de Ricardo III os restos mortais encontrados debaixo de um estacionamento municipal próximo à catedral de Leicester. Perdoem a interrupção mas devo advertir, aos que quiserem ler esse texto em voz alta, que o nome da cidade se pronuncia “Lésstâh”, uma das armadilhas dos britânicos contra quem se atreve a aprender sua língua. A descoberta é memorável e premia, entre outros, a obstinação da cineasta Philipa Langley, participante da Sociedade Ricardo III, que vem lutando há tempos pelo resgate da verdadeira história deste rei. Mas, acima de tudo, representa a coroação do trabalho extraordinário de uma equipe de especialistas em arqueologia, bioarqueologia, genética, história e genealogia da Universidade de Leicester, liderados pelo arqueólogo Richard Buckley.
          Os cientistas conseguiram não apenas encontrar e recuperar os restos mortais, como identificar uma família da décima-sétima geração de descendentes de Anne de York, irmã de Ricardo III. Isso permitiu a comparação do DNA mitocondrial, que passa continuamente das mulheres para seus filhos. A sorte ajudou, pois a única mulher entre os três descendentes vivos não tem filhos e a linhagem ricardiana de DNA mitocondrial será extinta quando ela morrer.
          Com a confirmação, o debate sobre o caráter do rei ganhou fôlego e a rede CNN divulgou as opiniões contraditórias do presidente da Sociedade Ricardo III, o médico Phil Stone, e do historiador Dan Jones. O Dr. Stone defende que, embora o rei não tenha sido santo, também não foi culpado por muitas das crueldades a ele atribuídas, como o assassinato dos sobrinhos e da mulher. Por seu turno, Jones reconhece que há um certo exagero nos crimes atribuídos ao monarca e até na descrição de suas deformidades, já que o esqueleto encontrado revelou pouco mais do que uma forte escoliose. Também reconhece que ele se esforçou para promover justiça social, estabilizar as finanças e conter a desordem pública. No entanto, Jones reafirma a usurpação do trono e outras barbaridades cometidas durante o reinado. A polêmica não se resolverá tão cedo, mas a descoberta dos restos mortais vai estimular a revisão da história, mesmo que o vilão não seja, afinal, reabilitado.
          Mas, e depois dele? Aqui o problema é inverso, já que depois dos vinte e quatro anos de reinado de Henrique VII, a dinastia dos Tudor ainda se manteve no poder por quase um século e, naturalmente, escreveu sua história. Consta que, nos primeiros anos, Henrique VII restaurou a estabilidade política na Grã-Bretanha, para o que contribuiu seu esperto casamento com Elizabeth de York, a tal sobrinha que Ricardo III queria abiscoitar. O matrimônio uniu as duas mais fortes dinastias da época e, assim, extinguiu a oposição. No entanto, consta também que, no decorrer do seu reinado, a Inglaterra foi tomada por uma roubalheira sinistra, que só terminou com a morte de Henrique VII e, durante a qual, a corte se apropriou indevidamente da riqueza de boa parte da população da Inglaterra. Ou seja, crueldades as há de todo tipo e feitio e talvez venha a ser necessário, eventualmente, criar uma Sociedade para defender a memória de Henrique VII também.
          Eu ia terminar com alguma piadinha, mas, relendo o que escrevi acima, me parece que esta crônica, de certa forma, se resume à esperança de que, agora, a Grã-Bretanha terá motivação e talvez novos subsídios para reavaliar um período conturbado de sua história. Na época, os feitos e os desmandos de seus monarcas se embaralharam em versões de vencedores e vencidos, alianças de ocasião e esmagamentos mútuos de dinastias derrotadas, tudo temperado pela dificuldade de separar o mal verdadeiro da demonização oportunista dos inimigos. E, cá pra nós, não resisto ao apelo da frase ampliada “sempre haverá uma Inglaterra...em algum lugar”, que me ocorre quando, ao reler o texto, sou invadido pela estranha sensação de que, não fosse pelo sotaque, estaria eu a ler notícias locais.

Rafael Linden

7 comentários:

  1. Você abdicou da piadinha no final, mas sua conclusão foi impecável... Simplesmente excepcional!
    Texto incrível... parabéns ao autor!

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  2. Queridissimo, gostei muito do texto e tive que rir ao ler “Lésstâh” porque estive lá recentemente para um congresso e é exatamente assim a pronuncia. Cheguei a perguntar para uma pesquisadora da Universidade de “Lésstâh” porque era falado com essa forma tão contracta e ela me respondeu, "we also sometimes wonder why..." :))))))

    Beijo

    CG

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    1. Eu ainda acho que eles plantaram essas pronúncias para identificar quem se finge de inglês. Lembra do filme "Bastardos Inglórios", quando um comando americano que falava alemão fluente foi identificado porque fez um gesto diferente do que os alemães fazem para indicar o número 3?...
      :-)
      Beijos
      R

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  3. :)))) assisti o filme, mas não consigo lembrar da diferença no gesto... mas é bem por ai :)
    Felicidades e muita inspiração pra você!!!!!
    Bjs
    CG

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    1. Ele levantou o indicador, médio e anular, enquanto os alemães levantam o polegar, indicador e médio para significar 3.
      bjs
      R

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    2. muuito legal, ja tinha perguntado para todos aqui em casa e ninguém lembrava :))) obrigada!!!!! Bj

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