domingo, 3 de fevereiro de 2013

Folhetim

          Leda bateu com força a porta atrás de si e escorregou lentamente até dobrar-se em ângulo reto, pousando nas primeiras lágrimas que antecederam o choro sentido.
          Quinze anos antes, no vilarejo natal, o velório de seu pai fora tumultuado pela chegada de uma moça, em prantos. “Que será de meu filho, agora?”.
          A mãe de Leda expulsou a recém-chegada, aos gritos. “Então é você, sua vagabunda! É você o serão, o acidente no sítio, o carro enguiçado, o imposto de renda, o fiscal inesperado! É você o jantar intocado, a meia cama vazia, o café da manhã solitário! Sua cachorra! Saia já daqui com esse menino imundo de mentiras, de traições!”. Empurrada porta afora a outra, humilhada, murmurava “Fui tão traída quando ela, tão traída quanto”.
          Dias depois se abriu o testamento do pai, deixando metade dos bens para cada viúva. Essas não se olharam, mas os meios-irmãos se remexiam, curiosos. O menininho Ernesto sorria enlevado, Leda quase queria pegá-lo no colo. Num canto do cartório, duas funcionárias fofocavam sobre o dia em que flagraram a mãe de Leda saindo furtiva, no meio da tarde, da casa do tabelião. Sem querer, elevaram as vozes justo o suficiente para a adolescente ouvir.
          Era vergonha demais para cidade tão pequena. Descobrindo-se um personagem de novela, Leda resolveu que não tinha ninguém e foi-se para a capital. Esperta, logo se empregou no comércio, completou a escola noturna e passou no vestibular para Letras. Conquistou prestígio e, de quebra, o coração de um colega com quem se casou dois anos depois da formatura, numa capela repleta de amigos. Sem família, ou assim lhe pareceu.
          No fundo da igreja, um jovem acompanhou o casamento ao lado de uma quarentona viçosa e elegante. Ao contrário dos múltiplos grupinhos, reencontros, apertos de mão, abraços e beijos, saudades e alegrias que cortavam o ar da recepção, Ernesto e a mãe aproximaram-se discretamente da noiva. Ofereceram seus votos de felicidades pelo casamento e condolências pela morte da mãe de Leda, que fora comunicada por carta do tabelião, meses antes.
          Comovidos, trocaram números de telefone e prometeram manter contato. Daí em diante ligavam apenas nos aniversários e no Natal. Era tanto a fazer na capital, vida intensa demais. Não havia tempo. Nem assunto. Eram estranhos, ainda que parentes. Mas os telefonemas, ano após ano, tiravam o peso do antigo drama.
          Leda tornara-se escritora de sucesso. Crônicas semanais no principal jornal da cidade e dois romances festejados. Curara as feridas da adolescência e retomara a fé no amor, que sentia tão forte em si e no esposo, e que permeava todos os seus escritos.
          Ela parou de chorar. Desencostou da porta, levantou-se do chão, pegou o telefone com raiva e ligou para o meio-irmão. “Ernesto, sua mãe está comendo meu marido”.


Rafael Linden

6 comentários:

  1. Interessantíssima a forma como somos desviados do intrigante choro do início do texto, por conta da trama intensa e complexa apresentada no meio, para ao final, com perplexidade nos depararmos com "ah é... porque ela estava chorando mesmo?" e não poder deixar de rir pelo súbito e dramático desfecho.

    UM MILHÃO DE PARABÉNS!!!!

    Beijos e admiração!

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    1. Obrigado, querida. Estou patinando nos contos, mas um dia chego lá...
      bjs
      R

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  2. Respostas
    1. Obrigado pelo incentivo, Doris. Uma leitora assim honra qualquer escritor!
      bj
      R

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  3. Nossa... sensacional!!!!!

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