sábado, 19 de janeiro de 2013

Umberto e o erro


          O Umberto aí de cima é o escritor, linguista e filósofo italiano Umberto Eco. Entre muitas outras coisas, ele escreveu – vejam vocês - que “um título deve confundir as idéias e não orientá-las”, ao comentar a escolha de “O nome da rosa” para denominar seu livro de 1980, que se tornou um best-seller mundial. Então, se os leitores estão atrapalhados a culpa não é minha. Peço-vos apenas que confiem neste vosso criado. Se tudo correr bem, um tronco unirá os pés à cabeça.
          A riquíssima narrativa do romance “O nome da rosa” gira em torno de uma série de crimes misteriosos, relacionados à guarda de livros de acesso proibido numa abadia na Itália do século XIV. Como pano de fundo, Eco explora o conflito entre o universal e o particular que, na Filosofia, suscita intenso debate sobre o real significado dos nomes das coisas. Neste contexto o autor acrescentou, como justificativa do título, o argumento de que “a rosa é uma figura simbólica, tão densa de significados ao ponto de já quase não ter mais nenhum”. O romance tem ainda, ao final, a hipógrafe em Latim Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus”, que se traduz mais ou menos em “a rosa de outrora permanece como nome, restam-nos meros nomes”. Quem não leu esse livro não sabe o que está perdendo.
          Pois não é que até mesmo um mestre do quilate de Umberto Eco escorrega ocasionalmente? Ironicamente, ao adotar no final de seu livro o texto “Stat rosa pristina...”, Eco reproduziu uma transcrição errônea de um poema do século XII chamado De Contemptu Mundi (Desprezo pelo Mundo), do monge Bernard de Cluny. O verso original era “Stat Roma pristina nomine, nomina nuda tenemus”, referindo-se não à rosa, mas a Roma em um contexto que trata explicitamente de personagens históricos romanos.
          Sim, senhora, é claro que isso não tira nem um pouquinho do mérito do livro, nem do Umberto. Muito menos do título, a rosa cabe perfeitamente. Não, não sou daqueles que implica com gente famosa à toa. Muito pelo contrário. Se a senhora fizer o favor de me deixar continuar, verá que a crônica é elogiosa. Então, como eu ia dizendo antes de ser rudemente interrompido...
          Esta historinha poderia ficar para sempre como mera ilustração de que mesmo mentes privilegiadas erram de vez em quando. Mas há algo melhor do que isso. O fato é que Umberto registrou publicamente o reconhecimento do engano em sua palestra da série das “Conferências Tanner sobre valores humanos”, na Universidade de Cambridge em 1990. Em lugar de apresentar desculpas esfarrapadas, responsabilizar quem sabe um secretário ou assistente distraído, negar peremptóriamente um fato concreto, esconde-lo em meio a um turbilhão de outros assuntos ou, simplesmente, omitir-se na expectativa de que sua estatura dissolvesse o desagradável tropeço na magnitude de sua obra, Eco reconheceu o erro. Eu quase escrevi “humildemente”, mas não tenho a menor idéia da humildade ou arrogância que caracteriza o comportamento habitual daquele escritor. E isso não importa.
          Assumir a responsabilidade e as consequências do próprio erro. Aí está. Talvez o ato supremo de grandeza intelectual.

Rafael Linden

12 comentários:

  1. Rafa, bom artigo... Concordo com tudo, mas pergunto! Por que sua interlocutora é uma mulher? Alguma razão em especial?
    Tania

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    1. Nenhuma em especial, hoje me pareceu que seria uma leitora a reclamar da habitual tergiversação. Mas volta e meia é um leitor que espinafra o cronista, este blog não está sujeito a discriminação de gênero...
      :-)

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    2. Eu gostei que tenha sido uma mulher a interlocutora. Parecia que ele estava falando pra mim! Silvana

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  2. Eu li o livro e o mais divertido é que interpelei justamente naquele momento em que você se sentiu abruptamente interrompido e mentalmente sai em defesa do Umberto, argumentando: Ele deve ter feito isto intencionalmente para favorecer o contexto da narrativa. Mas ao ver logo a seguir que ele mesmo reconheceu o equívoco... mentalmente me calo e peço desculpas pelo aparte.

    Obrigada!!!!
    Um beijo
    CG

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  3. estou rindo porque foi mesmo uma leitora a interpelar...

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    1. Viu, Tania? Desta vez eu acertei na mosca...
      :-)

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    2. Pensei o mesmo que a Carmem Gottfried... Outra leitora!!!! Gostei muito! :-)

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  4. É muuuita viagem... se é que me entende! Mas é interessante... bacana!

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