sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Cobra voadora e outros bichos


          Há alguns anos foi exibido o filme de ação “Serpentes a bordo”, dirigido por um ex-dublê de Hollywood chamado David Ellis, que faleceu há poucos dias. Esse filme serve de prelúdio para nossa crônica de hoje. De antemão advirto que até eu, que jamais pagaria para ver um troço com um título desses, descobri na Internet o que acontece até o final. Mas prometo não estragar o programa de quem ainda planeja assisti-lo.
          O filme conta a história de um incidente num avião, no qual um agente to FBI levava, para depor em um tribunal de Los Angeles, a única testemunha de um crime cometido por um mafioso. Sabendo da viagem e do depoimento, o criminoso dá um jeito de enfiar na aeronave um container contendo quinhentas cobras venenosas, equipado com um temporizador de abertura. No meio do voo as cobras são liberadas para atacar os passageiros, tripulantes e pilotos, a fim de derrubar o avião. E por aí vai.  Este filme, curiosamente, rendeu ao seu ator principal, Samuel L. Jackson, um prêmio na Alemanha que tem o inusitado nome de “Bambi”, ofertado a profissionais de entretenimento pela excelência de suas atividades. Mas, convenhamos, conseguirão os prezados leitores reprimir uma risadinha malévola ao associar Samuel L. Jackson de “Febre na selva” e “Pulp fiction” a um prêmio chamado...”Bambi”?!
          Seja como for, a crônica de hoje não é sobre as cobras do filme, que viajaram no compartimento de carga, e sim sobre uma cobra solitária que fez sua primeira e única viagem aérea do lado de fora de um avião. Pois acreditem que, há poucos dias, os passageiros de um turbo-hélice Bombardier Q400 da empresa australiana Qantas, que faz a rota da Australia para a Nova Guiné, testemunharam, fotografaram e filmaram com seus celulares a saga de uma píton de três metros de comprimento que, sabe-se lá por que cargas d’água, pendurou-se na asa do avião antes da decolagem e acabou sendo carregada por oitocentos quilômetros até chegar, morta é claro, ao aeroporto de destino.
          A píton, que não é venenosa e subjuga suas presas com um afetuoso abraço que comprime e esmaga as vítimas, talvez sofresse de inveja patológica e, por isso, aproveitou a única oportunidade que encontrou de voar tal como as chamadas “cobras voadoras” propriamente ditas, as quais existem no sudeste da Ásia. Essas cobras sobem ao topo de galhos de árvores bem altos e de lá se atiram de forma a chegar a outras árvores ou ao solo. Na verdade também não voam, mas planam no ar graças a sua capacidade de, digamos, “encolher a barriga”, produzindo um efeito aerodinâmico semelhante a um daqueles discos de plástico conhecidos como frisbees, que já foram muito populares nas praias do Rio de Janeiro. Ou então, a pobre píton australiana estava apaixonada por outra que morava na Nova Guiné. A paixão leva qualquer animal a fazer coisas do arco da velha, né?...
          Mas, em matéria de bichos voadores esquisitos, meu predileto ainda é o boi voador. Aquele que foi imortalizado em uma marchinha carnavalesca do Chico Buarque, com a letra “quem foi, quem foi, que falou do boi voador...”, escrita para a peça “Calabar, o elogio da traição”. Pois saibam que a peça e a música completam quarenta anos em 2013. Assim conseguimos, embora a duras penas, encaixar a ocorrência da cobra voadora em nosso salutar hábito de comemorar aniversários culturais. Ufa!
          A marchinha do Chico foi inspirada na história real do boi voador, que se passou em plena Recife no século XVII, na época do domínio holandês. Consta que o conde Mauricio de Nassau, Governador, Almirante e Capitão-General das propriedades da Companhia das Índias Ocidentais no Nordeste do Brasil, andava meio desacreditado por sua promessa de construir uma ponte sobre o rio Capibaribe. O povo dizia que era mais fácil um boi voar do que o conde construir a ponte. Pois Nassau não só conclui a ponte como, no dia da inauguração, armou uma espetacular farsa, fazendo com que um boneco de couro estofado com palha, no formato de um boi, parecesse voar do alto de uma construção no jardim palaciano, quando na verdade era movido por um conjunto de cordas e roldanas manipuladas por marinheiros holandeses. O anúncio prévio de que o mauricinho dos países baixos faria um boi voar atraiu uma multidão para a ponte, cuja travessia implicava o pagamento de pedágio, o que produziu uma renda suficiente para cobrir prejuízos do conde com a construção.
          Por aí se vê que vem de longa data essa desagradável sensação de que insignes governantes, de locais que não convém identificar, ocasionalmente pareçam produzir bois de palha em lugar dos verdadeiros ruminantes, só para o povo ver de longe. Seria, então, apenas mais um de nossos notórios delírios imaginar que o prefeito da pacata cidade de Cairns, no nordeste da Austrália, de onde saiu o voo no qual a desgraçada píton pegou carona, teria armado esta triste história do ofídio voador? Aqui pra nós, como as autoridades australianas ainda não descobriram de que jeito o bicho foi parar na asa do avião, não se pode descartar esta hipótese. Se foi assim, pelo menos o alcaide poderia ter feito a caridade de mandar pendurar uma cobra empalhada, como cá fez o Conde de Nassau.

Rafael Linden


16 comentários:

  1. Ô louco meu... mto bom o texto... show!

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  2. :) eu estava aqui imaginando... só você mesmo para migrar de um tema ao outro com tanta fluidez, tantos entremeios e tornar o texto tão interessante. Arrasou!!! Beijos

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  3. Muito bom, tal qual a ideia de Nassau, poderíamos pendurar os governates nos locais das obras não realizadas.

    Parabéns pelo texto e viva a " ERUDIÇÃO ".

    Abraços.

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  4. Kkk, Adorei Rafael! Vc tá chegando perto do Tarantino!! Bjs da prima.

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  5. ;-)) Ah! Rafael, só mesmo você!
    Beijos dr

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  6. Pois é, Rafael. Estou pensando que bichos poderiam "voar" nas obras dos nossos alcaides atuais? Na BRT (ou é BRS?), na Cidade das Artes (que já foi da música), no Maracanã...
    Cobra, lagartixa, papagaio, canarinho?

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    1. Assim, no atacado, penso em cobras e lagartos...
      bjs
      R

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  7. Realmente um texto bem gostoso de se ler
    só faltou as imagens da cobra voadora

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    1. Obrigado, Anônimo. Através do Google se encontra vários filmes feitos pelos passageiros do avião, e quanto às cobras voadoras da Ásia há também imagens que aparecem quando se pede "flying snakes" pelo buscador.
      abs
      R

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  8. Uma viagem... sensacional!

    Abç!

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