quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Realidade aumentada


          O jornalista Will Oremus publicou, na revista eletrônica Slate, um comentário sobre novas engenhocas para realidade aumentada. Este termo é usado para designar um sistema que integra a observação de pessoas, objetos e cenários do mundo real com a visualização simultânea de informações virtuais, desde textos e gráficos a desenhos animados (por exemplo, “Uma cilada para Roger Rabbit”) ou seres fictícios de diversas formas e cores (como “Avatar”).
          O texto aborda a competição pela primazia no desenvolvimento de aparelhinhos capazes de oferecer realidade aumentada para uso pessoal. Foi motivado pelo anúncio recente de uma patente da Microsoft, referente à nova versão de um par de óculos equipado com vários micro-equipamentos. Estes permitem ao usuário combinar a cena natural que ele vê com um conjunto de informações transmitidas aos óculos, por exemplo, de computadores conectados através do que se chama, hoje em dia, de “nuvem”. A idéia não é original, é claro, mas novas patentes nesta área representam o esforço contínuo das empresas para criar sistemas cada vez mais portáteis e confortáveis para comercialização em massa.
          E daí, pergunta o leitor, esquecido de que o abaixo assinado, volta e meia, mistura alhos com bugalhos e ainda aprecia o tempero. Daí que este assunto serve de pretexto para comemorar mais uma data histórica. Acontece que este ano marca o jubileu de prata do lançamento do primeiro filme da série “Robocop”. Lembram? Não? Trata-se de um filme de ação, leia-se violência explícita, tiroteios, objetos e criaturas voando pelos ares, arremessados por explosões ou pela força descomunal do próprio protagonista, muito fogo, litros de sangue e, ao que consta, até um roteiro. Neste filme, um policial assassinado é ressuscitado e reconstruído na forma de um cyborg, isto é, um ser humano composto parcialmente de parte mecânicas e eletrônicas para substituir órgãos naturais. E o cyborg é dotado, entre outras coisas, de visão robótica, com a qual combina as cenas do mundo real com informações computadorizadas, tais como a velocidade de deslocamento dos bandidos numa perseguição e/ou instruções do tipo “proteja os inocentes”.
          O filme original, de 1987, foi recebido com críticas positivas, fez grande sucesso e se multiplicou em mais dois, de 1990 e 1993, além de um quarto filme atualmente em produção, com lançamento previsto para 2014, bem como duas séries de televisão e outras sequelas. Eu, particularmente, não sou fã desta franquia - não vi nenhum dos filmes, só trechos pela televisão -, mas ainda acho o máximo as imagens da visão robótica do Robocop original, com as mensagens em letrinhas verdes no visor da criatura, como era a regra nos monitores monocromáticos dos computadores antigos. Sim, Juquinha, houve um tempo em que computadores ficavam em cima de mesas e tinham monitores pesadíssimos, com telas pequenas que mostravam apenas letrinhas verdes em fundo preto.
          Os prezados leitores constatam que, mais uma vez, o blog escorregou para a nostalgia. Porém, para evitar a impressão errônea de que este vosso criado não aprecia devidamente o progresso tecnológico, apresso-me em manifestar meu entusiástico apoio aos esforços pela popularização dos óculos de realidade aumentada (chamados “óculos RA”). Espero sinceramente que, em breve, sejam vendidos no supermercado mais próximo por não mais do que trinta reais, ou encontrados no free shop por cinco dólares.
          Entretanto, não se deve ignorar consequências previsíveis da vulgarização do conceito de realidade aumentada. Por exemplo, digamos que um cidadão mal-intencionado compre um par de óculos RA na volta da excursão à Disneylândia e, ainda no saguão do aeroporto, use a engenhoca para olhar, cobiçosamente, para a mulher do próximo. A esperança do cara é de que os óculos mostrem instantaneamente os dados biométricos e o número do telefone celular da voluptuosa e sorridente senhora. Ao mesmo tempo, no entanto, detectam no sujeito o arregalar dos olhos, a dilatação da pupila, medem a condutividade de sua pele e, ato contínuo, apresentam-lhe a mensagem “pare de pensar besteira, safado!”, enquanto os óculos RA do próximo registram o SMS “presta atenção, corno!”. Os Robocops do aeroporto são alertados pela mensagem “atenção, previsão de crime passional no saguão sul, separem a briga e...protejam os inocentes”, em letrinhas verdes apresentadas em seus indefectíveis óculos escuros. E, para que este inocente blogueiro não seja acusado de machismo, queiram imaginar simultaneamente a mesma cena com os gêneros dos personagens devidamente trocados.
          Ou seja, aguardem o desenrolar de mais esta corrida tecno-comercial mas, desde já, preparem-se para usar as engenhocas com moderação.


Rafael Linden




6 comentários:

  1. Realmente muito interessante. Existe um vídeo que também fala do assunto, que é produzido pela própria Microsoft, mostrando o "óculos RA" e outros futuros aparelhos a serem lançados. Eu estou esperando isso com ansiedade, pois apesar dos pequenos problemas que teremos, como citado acima pela sua pequena demostração de mal uso do óculos, tenho certeza que uma informação a mais na hora certa pode trazer grandes benefícios. Imagine esses óculos ajudando um motorista, avisando de veículos que estariam em alta velocidade e chance de acidente e outras coisas mais. Realmente isso é o futuro.

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    1. Sem dúvida, eu também vou gostar de usar um AR de vez em quando.
      abs
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  2. Realmente o que se imagina do futuro, hoje, é fascinante!

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    1. Cada dia uma novidade. Bons tempos para se viver essa revolução tecnológica.
      abs
      R

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