sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Aves do paraíso


          A revista National Geographic de dezembro trouxe uma reportagem assinada por Mel White e, para começo de conversa, deixem-me esclarecer que não se trata do televangelista de biografia muito peculiar, porém irrelevante para nossa crônica, que aparece preferencialmente na pesquisa deste nome no Google ou na Wikipedia. O Mel White que nos interessa aqui é um escritor que já publicou vários livros sobre parques nacionais norte-americanos e, principalmente, sobre pássaros do mundo inteiro.
          Desta vez, White escreve sobre as expedições do ornitologista Edwin Scholes e do biólogo e fotógrafo Tim Laman que, num período de oito anos, visitaram dezoito vezes a Oceania e, com o auxílio de suas quase quarenta mil fotografias, documentaram todos os tipos conhecidos das chamadas “aves do paraíso”.
          São cerca de quarenta espécies de pássaros encontradas apenas na Nova Guiné e numa região costeira do leste da Austrália. O artigo de White encanta pela beleza das fotografias, mas também desperta admiração pelo espírito aventureiro dos pesquisadores. Estes embrenharam-se por matas tropicais densas, desde o litoral até áreas situadas a mais de três mil metros de altitude. Passaram sufocos diversos, tais como panes em barcos durante incursões ao longo da costa, inundações e viagens tempestuosas de helicóptero. Tim Laman chegou a escalar árvores a cinquenta metros de altura, para fotografar diretamente ou instalar câmeras automáticas destinadas a obter imagens de rituais de acasalamento.
          A imagens são deslumbrantes. Estas aves têm plumas de formas e cores extraordinariamente diversas e muitas possuem apêndices bizarros, os quais podem ser movimentados de modo a exibir outras plumas de formas esdrúxulas. Características assim marcantes são encontradas apenas nos machos, como de hábito na natureza – exceto entre nós, humanos, nos quais a beleza exuberante se localiza, é claro, nas estimadas leitoras –, e servem essencialmente para o exibicionismo típico dos rituais de acasalamento. Pensando bem, exibicionismo propriamente dito em tais circunstâncias também é comum entre os machos de nossa espécie...
          Como se sabe, aquele festival de cores facilita muito a atração das fêmeas; por outro lado poderia expor os machos da espécie a predadores. Entretanto, o autor argumenta que a persistência destas características físicas nas aves provavelmente se deve à abundância de alimento e relativa ausência de predadores naquela região. Assim, parece haver pouco risco no exibicionismo exacerbado dos machos das aves do paraíso.
          Estas plumas coloridas são, há milênios, usadas como adornos ou objetos de decoração na Ásia. Com o objetivo de impressionar compradores europeus no século XVI, caçadores removiam previamente as asas e as patas das aves para enfatizar as preciosas plumas. Essa barbaridade teria inspirado a idéia de que tais pássaros seriam literalmente divinos, capazes de flutuar na bruma paradisíaca sem jamais precisar pousar.
          Então, para não perder o saudável hábito de tresvariar um pouquinho, confesso que a mutilação destas aves magníficas não me pareceu, no fundo, muito distinta do que fazem caçadores de espécimes humanos raros. A exploração de atributos vendáveis, como o talento de uma cantora ou de um instrumentista, ou a estampa atraente de um ator mimetizam, de certa forma, o drama que foi protagonizado há cinco séculos pelos pássaros da Oceania. Muitos homens e mulheres são também privados de traços pessoais desinteressantes ou invendáveis, como suas verdadeiras personalidades, para que seus talentos comercializáveis se tornem lucrativos. Quando não o fazem a si mesmos, sucumbindo à ânsia de sucesso e fama, deixam que outros lhes arranquem pedaços para saciar a ganância de empresários e até de familiares, bem como a avidez da sociedade por ídolos ou heróis. Tais desejos, na verdade, nunca são plenamente satisfeitos e muitas vezes acabam por arruinar gente como Billie Holiday, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Marilyn Monroe, Michael Jackson e outras tantas das “aves do paraíso” mais expressivas da nossa espécie.

Rafael Linden


4 comentários:

  1. Woow!!! Deeply into the soul of humanity!! Muito bom Rafael!! Olha só... essa leitora aqui, assídua mesmo em Londres.

    Lembrei muito de você outro dia, estava peregrinando pelas livrarias de Bloomsbury e numa delas estava tendo uma oficina de crônicas e fizeram uma coisa muito legal. Os alunos foram desafiados a fazer uma crônica baseada em 3 pessoas que estavam na platéia naquele momento, queria ter sido escolhida mas não fui :(
    Em resumo, fizeram algumas perguntas aos 3 participantes e depois tiveram 15 min para desenvolver a crônica e ao final leram para o público. Ficou muito interessante. Eu pensei na hora que você certmente iria gostar muito de estar ali(como criador da narrativa) e teria feito a melhor crônica!!!!

    Kisses from London
    CG

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    1. Oi querida

      Obrigado pelo comentário. As oficinas assim são muito legais, algumas na Estação das Letras também usam desafios imediatos, só não há platéia...

      Londres, hein? Que vidão, aproveite!
      beijos
      R

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  2. Gostei, como semmpre!
    Continue nos deliciando com suas crônicas, também no novo ano!
    Prosit Neu Jahr mein Freund!
    Doris

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    1. Doris, querida

      Muito obrigado pelo incentivo constante. Saúde e felicidade para todos nós em 2013 e depois!
      beijos
      Rafael

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