sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Voltar a Paris*


          Por duas décadas remoeu a lembrança do romance intenso, embora breve, que o acaso lhe oferecera ao viajar para se aperfeiçoar na nova profissão. Foi logo após diplomar-se em Praga, sua cidade natal. Tinha, então, vinte e dois anos, receava o choque com a cultura norte-americana, mas achou que ficaria confortável em Nova Orleans. Parecia-lhe um balneário francês à beira do Golfo do México. Sua tranquilidade acabou no terceiro dia, quando Sônia, uma bela e insinuante carioca, dez anos mais velha que ele, invadiu-lhe a vida como uma flecha.
          Ela também estava lá para estudar, também por quatro meses, porém matriculada em outro curso. Salvara-o de um mal-entendido, ao intermediar o desastrado diálogo que ele mantinha com o garçom de um restaurante no French Quarter. Duas horas depois os pratos permaneciam quase intocados, mas os olhos de cada um, irremediavelmente fixos, penetravam fundo na alma do outro. Em poucos dias, ele já dominava a linguagem da paixão em português brasileiro.
          Entregaram-se por inteiro. Ao fim de cada dia de aulas, arranjos improváveis asseguravam que seus colegas de quarto se ausentassem por períodos curtos e eles ficassem a sós. Ocasionalmente, davam rápidas escapadas no intervalo do almoço. O tempo não era suficiente. Nenhum tempo seria.
          Quando acabou a curta temporada de estudos, trocaram apenas juras de amor e promessas de reencontro para um dia qualquer. Nem endereços, nem números de telefone. Não marcaram uma data para subir ao topo do prédio mais alto de Nova Iorque, como num filme. Seguiram-se longos anos de juras quebradas e encontros esquecidos. Até que a empresa francesa, da qual agora era diretor, o enviou para um congresso na Argentina. Pensou em fazer uma escala no Rio de Janeiro, mas temia que fosse em vão. Talvez ela tivesse mudado para outra cidade, ou não quisesse reve-lo. No entanto, ardia de curiosidade. Queria saber como ela estava, se era feliz, se ainda lembrava de Nova Orleans, se...
          Decidiu-se, enfim, por uma escala rápida. Teria apenas dois dias, antes de seguir viagem para Buenos Aires. No hotel, folheando o catálogo telefônico, encantou-se ao descobrir o número dela ainda no nome de solteira. Repetiu, muitas vezes ao longo do dia, o ritual de manter o fone no ar por alguns segundos e recolocá-lo no gancho. Por volta das quatro da tarde, finalmente, ligou.
          Ao ouvir sua voz, ela emudeceu por instantes. Mas, logo falava depressa, parecia excitada com a presença dele, tão próxima depois de tantos anos. Ela sugeriu um encontro imediato em um shopping. Ele titubeou. Deu uma desculpa qualquer para adiar o evento. Encontrar-se-iam no dia seguinte, às três horas da tarde, apenas seis horas antes do voo para a Argentina.
          Vinte anos se passaram, mas, se alguma coisa, acrescentaram-lhes ainda mais encanto. Não, não fora meramente uma paixãozinha entre um jovem e uma mulher mais madura. A diferença de idade continuava irrelevante. Tomaram café numa loja de nome alemão, que ele sabia ser a preferida de Sônia. Não pelo café, mas pelas incomparáveis barrinhas de chocolate amargo, que só eram vendidas ali. Em Nova Orleans, ela sempre se lembrava destas guloseimas com saudade, queixando-se de não encontrar nada parecido no sul dos Estados Unidos.
          Enquanto conversavam cruzavam olhares fugidios, com receio de que a paixão os arrebatasse como da primeira vez. Casais acomodados em mesas vizinhas que, disfarçadamente, assistiam à cena percebiam a tensão, advinhando a história. Os dois lutavam para manter um diálogo natural, mas a expressão de seus corpos traia uma inquietude torturante. Pareciam dançar em torno de uma fogueira de desejo.
           Depois do café deixaram a loja e, em poucos segundos, se viram fora do shopping. Agora, já não sabiam o que dizer. Ele já ensaiava um discurso de despedida, quando ela o interrompeu. Ansiosa, sugeriu que fossem até o apartamento dela, perto dali, para passar o tempo que restava até o momento dele rumar para o aeroporto. Ele desejou não estar ali. Murmurou algo sobre colegas que já estariam à sua espera no Galeão, despediu-se rapidamente e se foi. Ela sorriu amargamente, deixou rolar uma única lágrima, deu de ombros e resolveu que, ainda hoje, sem falta, aceitaria o convite da melhor amiga para, finalmente, experimentar a euforia da Lapa.
          Na manhã seguinte, de ressaca, Sônia tentou lembrar-se. Terá sido assim mesmo? Não seria um efeito de sua imaginação?
          À mesma hora, ele cruzou a porta do saguão do aeroporto de Paris e logo viu sua Pauline, com aquele sorriso encantador, segurando pela mão uma menina de uns seis anos de idade.
          - Janos, chéri! Fez boa viagem? Estou com saudades, meu amor. E veja quem veio recebe-lo no aeroporto!
          - Papa, papa, et pour moi?
          E ele, com doçura.
          - Do que é que a minha linda filhinha gosta mais nesse mundo?
          - Du chocolat!
          - Então, voilá, ma petite Sonja!


Rafael Linden


* Este conto é um espelho do conto "Chocolate amargo", de Sônia Coutinho, publicado no livro "Toda a verdade sobre a tia de Lucia". Foi escrito, como exercício, na oficina ministrada por Elias Fajardo na Estação das Letras, em agosto de 2012.


7 comentários:

  1. No final, senti um gosto de fel e não do chocolate amargo, que até gosto.
    Parabéns, Rafael, pelo conto. Li-o com ansiedade e ávida para saber o desenlace. Foi real demais!

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    1. Obrigado, querida. Adorei sua observação.
      beijos
      Rafael

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  3. Muuuuuito bom, parabéns!

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  4. Que venham mais contos!!!! Adorei Rafael!!!!
    Beijos
    Carmem

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