sábado, 3 de novembro de 2012

Vampiros contemporâneos


          Não sou fã de histórias de vampiros. Porém, como já devem ter notado meus raros leitores, aprecio coisas as mais diversas e não pude ignorar o texto de Jimmy Stamp, há poucos dias, em seu blog Designer decoded na revista eletrônica do Smithsonian Institute. Jimmy é arquiteto e designer e escreve, em geral, sobre assuntos relativos a desenho industrial e iconografia. Desta vez ele comentou a origem da vestimenta característica do Conde Drácula. Mais uma vez, peço-lhes paciência. Não parece, mas o assunto é interessante. Leiam até o final e creio que alguma coisa há de lhes agradar.
          O blogueiro se inspirou no centenário, este ano, da morte de Bram Stoker, o escritor irlandês que criou o romance Drácula em 1897. A princípio ignorado pelo grande público, o livro tornou-se cult e definiu uma concepção moderna do mito dos vampiros. O texto foi popularizado, principalmente, pelas adaptações para teatro, na década de 1920 na Inglaterra, e para cinema, na década de 1930 nos Estados Unidos. Em ambas, o conde Drácula veste traje a rigor, capa preta e um medalhão, que acabaram por se perpetuar como a roupa típica do personagem, muito usada hoje em dia nas brincadeiras do Dia das Bruxas no hemisfério norte.
          Stamp conta no blog sua experiência de assistir a um debate sobre a história do livro, na New York Comic Con, uma edição da famosa conferência dos fãs de histórias em quadrinhos que ocorre com frequência em diversas cidades dos EUA e outros lugares do mundo. Nerd que se preza não perde essa convenção na cidade mais próxima. No caso, o debate reuniu um “tatarasobrinho” e biógrafo de Bram Stoker e um especialista em história da chamada literatura gótica. Segundo Stamp, o sobrinho Dacre Stoker comentou passagens dos diários do “tataratio”, com anotações sobre as características do personagem, como a ausência de reflexão no espelho, a força sobrenatural e as metamorfoses. Explicou também sua teoria de que a idéia para o livro tenha se originado da aplicação em Bram Stokes, quando criança, de sangrias pelos próprios pais, que eram médicos.
          Por seu turno, o escritor John Browning, autor de uma dezena de livros sobre personagens vampiros na literatura, comentou que as primeiras caracterizações de Drácula no cinema, como na versão original de Nosferatu, de 1922, incluiam vestimentas típicas da Europa Oriental. Nem de longe ilustravam a elegância e o charme que acabaram por ser, de modo geral, associados ao conde. A versão de 1979, escrita e dirigida pelo cineasta alemão Werner Herzog, repete mais ou menos o vestuário do original. E por aí vai o texto de Stamp, dissecando aspectos da iconografia dos vampiros.
          Esta iconografia, recentemente, ganhou nova versão através da popularização da saga Crepúsculo, derivada dos livros da escritora americana Stephenie Meyer. Abstenho-me, aqui, de comentar a polêmica reinante sobre a extensão em que o enredo e as imagens da saga refletem essencialmente a fé mormon de Stephenie. Noto, apenas, que os vampiros das versões cinematográficas são bonitinhos, vestem-se como qualquer jovem da mesma idade, tornaram-se ídolos adolescentes e, quando aparecem por aí, são recebidos por gritinhos agudos, prantos copiosos e desmaios histéricos. Duvido que Bela Lugosi, o “Drácula” do filme de 1931, tenha sido alguma vez saudado assim. Já se fala em uma série para televisão, de modo que ainda veremos por um bom tempo os personagens da Senhora Meyer. E não são os únicos, pois já há um bando de vampiros e assemelhados desfilando pela TV, como Buffy, True blood e The vampire diaries. Não, não acompanho nenhuma dessas séries. Apenas sei que estão em cartaz.
          Mas, voltando ao debate da Comic Con, chamou minha atenção a constatação do escritor John Browning, de que as histórias de vampiros tendem a ficar em evidência em tempos de agruras econômicas. Ele nota que Drácula e vampiros, em geral, foram populares na época das crises dos anos 1920-30, dos anos 1970-80 e, agora, retornam com força nos novos tempos bicudos. Talvez todo tipo de fantasia seja privilegiado quando a maré está braba, mas as vampiroses possuem o ingrediente adicional da violência da exsanguinação e de seu combate com outra violência, representada pelas estacas enterradas no coração além, diriam alguns, daquele medonho cheiro de alho que empesteia toda a vizinhança.
          E, por falar em peste, assola-me mais uma dúvida. Faz cem anos da morte de Bram Stoker. Pensando bem, será que ele apenas morreu? Ou será que, assim como sua personagem Lucy Westenra no romance, ao morrer se transformou em mais um vampiro que logo deu de fazer seus lanches no pescocinho das crianças das redondezas?
          Sei não, talvez o blogueiro Jimmy Stamp devesse prestar atenção também a uma outra iconografia, agora representada por numerosos descendentes de mortos-vivos, vampiros de terno e gravata, que andam por aí chupando o sangue de milhões de vítimas inocentes. Estas últimas se iludem com a idéia de que Drácula tenha sido apenas uma obra de ficção e, por isso, se deixam morder sem perceber a necessidade de espalhar alho e afiar as estacas para acabar com esta sangria quando for a hora.


Rafael Linden


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