sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Terra à vista


          Esta semana o blog foi salvo, mais uma vez, pela revista eletrônica do Smithsonian Institute. Não porque não houvesse assunto em pencas por aí, mas porque quase tudo era triste demais para uma crônica leve. Felizmente, achei um jeito de deixar os infortúnios para os sisudos. Escrevo, pois, sobre a aparente descoberta de um novo planeta com características semelhantes às da Terra e, possívelmente, habitável.
          Já imagino alguns leitores preocupados, a uma distância segura do computador, de olhos esbugalhados perguntando: habitável por quem??! Apresso-me a esclarecer que, embora o “habitável” nesse caso refira-se a seres não muito diferentes de nós (tá bom, minha senhora, não muito diferentes de mim, eu também acho que a senhora é por demais bonita para se parecer com um ET...), o planeta recém-descoberto não está no nosso velho e conhecido sistema solar, e sim, girando em torno de uma estrela que tem o pouquíssimo poético nome de HD40307. Planetas giram em torno de estrelas e o Sol é uma estrela, mas o novo planeta dá voltas em torno de outra.
          Agora queiram, por gentileza, saber que a notícia provém de um artigo científico, submetido ontem a uma base dados chamada ArXiv, e explicado para leigos pelo jornalista Joseph Stromberg no blog Surprising Science, da Smithsonian. Faço esta ressalva porque a ArXiv frequentemente divulga artigos científicos antes de revisão crítica por outros cientistas, entre outras coisas com o propósito de estimular a discussão aberta dos trabalhos que, outrossim, só seriam divulgados depois de analisados e aprovados por dois ou três pesquisadores da área. Mesmo no caso da ArXiv, que é uma base de dados séria mantida pela Universidade Cornell, nos Estados Unidos, este sistema tem prós e contras. Fica, portanto, a advertência de que especialistas em Astrofísica talvez possam, mais cedo ou mais tarde, encontrar falhas nos métodos ou nas interpretações e, nesse caso, as conclusões dos autores iriam para o lixo. Foi por isso que, lá no começo do texto, eu escrevi “aparente” descoberta. De qualquer forma, como não estamos no laboratório e sim no telhado, podemos nos divertir um pouco conversando sobre o assunto.
          A publicação relata a descoberta de um corpo celeste, que ganhou o nome de HD40307g e que gira em torno da estrela HD40307 a uma distância equivalente a pouco mais da metade da que separa o Sol da Terra. Como aquela estrela é mais fria que o Sol, as condições meteorológicas na região em que está situado o novo planeta são compatíveis com a existência de água em estado líquido e a temperatura não deve ser nem tão quente, nem tão fria a ponto de excluir a possibilidade de vida semelhante à nossa. Além disso, os cientistas consideram provável que o novo planeta gire em torno de si mesmo, tal como a rotação da Terra e, assim, haja alternância entre dia e noite. Pelos cálculos dos pesquisadores, uma volta completa em torno da estrela, equivalente à translação da Terra, resultaria em um “ano” de pouco menos de duzentos dias terrenos, ou seja, permitiria alternância de estações e favoreceria formas de vida parecidas com as que existem na Terra.
          Ainda é cedo para comemorar a descoberta de uma “nova Terra”, mesmo porque estudos anteriores não haviam detectado este planeta. Porém, os autores do trabalho alegam que, agora, aplicaram métodos de análise mais precisos. O procedimento permitiu também estimar que o novo planeta tem uma massa cerca de sete vezes maior que a da Terra, mas não foi possível saber seu tamanho. Resumindo, ainda é necessário que se confirme a descoberta e que sejam feitos novos estudos para desvendar todas as características do corpo celeste. O que se descobriu até agora justifica que os pesquisadores mantenham o que se costuma chamar de otimismo cauteloso, termo que se traduz por “ainda não sabemos, mas estamos torcendo para ser o que achamos que é”. Há também a expectativa de que uma nova geração de super telescópios possa, dentro de algum tempo, oferecer condições técnicas para observação direta do planeta.
Apesar das dúvidas que persistem, tendo em vista os prognósticos sombrios quanto ao futuro da Terra e considerando a proliferação de pequenos e grandes aborrecimentos que nos assolam, não seria nada mau se, em vez de se aposentar e ir morar em uma pacata cidadezinho do interior, nos fosse possível mudar, de mala e cuia, para HD40307g. Este planeta, que eu carinhosamente chamaria de Gêzinho, poderia ser nossa nova opção para melhorar a qualidade de vida. Afinal, a estrela em torno da qual Gêzinho gira fica a uma distância da Terra de apenas quarenta e quatro anos-luz, quer dizer, uns quatrocentos e quarenta trilhões de quilômetros, nada que um motorista de ônibus carioca não consiga percorrer em pouco tempo...

Rafael Linden


9 comentários:

  1. Mas que texto excepcional, instigante, curioso, belíssimo... impossível não lê por completo. Maravilhoso, parabéns!

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    1. Realmente é uma arte a forma com que essas palavras foram empregadas!

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    2. Obrigado, Claudio. Volte sempre!
      R

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    3. Rafa
      Na próxima crônica, por favor, discuta como coordenar distância, tempo de viagem e minha idade. Estou interessada ;-)
      [xx]dr

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    4. É só pegar um Lins-Urca, que ele chega rapidinho lá...
      :-)

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  2. Prezado Blogueiro,

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    Atenciosamente,
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  3. Olá.
    Postagem divulgada no Portal Teia.
    Coloquei uma foto que achei que combinava, caso queira mudar é só me mandar outra.
    Até mais

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