sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Como explicar a lágrima


          Nada melhor do que uma boa controvérsia, né? Então, comecemos pelo samba “Não tenho lágrimas”, de Max Bulhões, composto em 1937. É aquele que foi gravado até pelo Nat King Cole com um baita sotaque, e diz ” Quero chorar, não tenho lágrimas, que me rolem na face pra me socorrer...”. Segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, há dúvidas se o co-autor da canção foi de fato Milton de Oliveira, como consta oficialmente, ou se parte da obra foi vendida por Wilson Batista a Milton, que só figura na parceria porque era um mestre da auto-promoção e conseguiu a gravação pela RCA Victor. Mas o assunto aqui não é o samba inteiro, e sim um de seus mais belos versos, que diz “A lágrima sentida é o retrato de uma dor”.
          Pois a crônica trata de lágrimas. E, como tudo que se refere à natureza humana, há crenças, muitas das quais sólidas e coerentes, mas que carecem de prova de sua veracidade. Por exemplo, é generalizada a idéia de que lágrimas são percebidas pelos outros como um sinal de tristeza. No entanto, o psicólogo Robert Provine, da Universidade de Maryland, publicou em 2009 na revista Evolutionary Psychology um artigo em que comentava a inexistência de prova formal desta idéia e, por isso, testou-a empiricamente.
          Provine recrutou oitenta voluntários para, simplesmente, examinar fotografias de rostos e escolher, para cada foto, um valor para descrever o grau de tristeza expresso naquele rosto, numa escala de 1 (nada triste) a 7 (extremamente triste). Um dos grupos de fotos era composto de adultos ou crianças chorando de tristeza, outro era das mesmíssimas fotos nas quais apenas as lágrimas foram removidas por meios digitais. A pergunta que o pesquisador queria responder era se a presença das lágrimas na foto facilitaria, necessariamente, o reconhecimento de tristeza quando comparado à mesma expressão facial sem as lágrimas. E, como esperado, os observadores reconheciam mais facilmente tristeza nos rostos com lágrimas. Acreditem, foi a primeira vez que se testou cientificamente a hipótese de que as lágrimas de outrem provocam a percepção da tristeza.
          E a prova era necessária porque esta questão é importante para entender os sinais associados a interações sociais de seres humanos. Por exemplo, durante o trabalho, o cientista obteve informações sobre as consequências, para a capacidade de expressão emocional, de uma doença na qual os pacientes não vertem lágrimas, chamada síndrome do olho seco. Por outro lado, para ter uma idéia da complexidade deste assunto considere que bebês recém-nascidos, os quais atraem atenção com facilidade ao se esgoelar desde os primeiros minutos de vida, só começam a verter lágrimas, no duro, 1-2 meses depois do nascimento.
          Mas, então, de que servem as lágrimas, se o choro seco já é suficiente para alertar um protetor? Sabe-se que o fluido lacrimal protege as mucosas, mantém a transparência da córnea e contém uma enzima, chamada lisozima, com potente função antibiótica contra bactérias. Mas estas funções não correspondem a nenhuma emoção. A secreção lacrimal é contínua, basta piscar para lavar a superfície da córnea e, em caso de lesão, a secreção aumenta provocando um lacrimejamento que parece tristeza, mas não é.
          A estimada leitora que costuma cair em prantos no cinema deve atentar para o fato de que lágrimas de tristeza são um assunto que interessa a muito mais do que escritores, atores e poetas. Por exemplo, o antropólogo Ashley Montagu especulou, em um artigo publicado em 1959 na prestigiosa revista Science, que o choro com lágrimas teria persistido ao longo da evolução por combater o ressecamento das mucosas. O raciocínio dele foi de que, como o ressecamento favorece infecções no longo período inicial de dependência dos infantes humanos, as lágrimas confeririam uma vantagem adaptativa que se fixou como característica herdada dos antepassados do homem moderno.
          Há cento e quarenta anos, Charles Darwin – ele mesmo – analisara emoções no homem e em animais em geral, e tinha sugerido que certos comportamentos expressivos inicialmente cumpriam outras funções antes de se tornar sinais de emoções. Recentemente, o cientista Noam Sobel, do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, se interessou pelo assunto por saber, entre outras coisas, que a composição química das lágrimas de emoção é diferente das lágrimas consequentes à irritação da córnea, bem como que lágrimas de camundongos contém substâncias estimuladoras do comportamento sexual, chamadas feromônios. Sobel decidiu testar se as lágrimas vertidas por alguém sob forte emoção contém algum sinal químico com consequências biológicas para outrem. O trabalho levou três anos para ser realizado e foi publicado na revista Science em 2011.
          E é interessantíssimo. Os pesquisadores coletaram lágrimas de mulheres que choraram aos borbotões ao assistir, isoladamente, a filmes tristes. E também coletaram, para comparação, soro fisiológico rolado pelas bochechas das mesmas voluntárias. Pediram, inicialmente, a homens que cheirassem os dois líquidos. Ninguém percebeu diferença de odor entre as lágrimas e o soro fisiológico. Depois, grudaram entre o lábio superior e o nariz dos homens uma almofadinha molhada com lágrimas ou com soro fisiológico e pediram aos voluntários que, na presença da almofadinha com um ou com o outro líquido, avaliassem o quanto a fotografia de um rosto feminino lhes despertava desejo sexual. Os homens não tinham presenciado nenhuma das doadoras chorar, nem sabiam qual dos líquidos estava sendo testado na almofadinha em cada ocasião. Pois na presença das almofadinha com as lágrimas os homens manifestaram menos desejo do que na presença das almofadinha com o soro fisiológico!
          Para se certificar de que estas respostas subjetivas eram confiáveis, foram feitas, entre outras coisas, medidas da quantidade de testoterona (hormônio masculino) na saliva e até observações, por ressonância magnética funcional, da atividade cerebral em regiões associadas com a sexualidade. Todos os testes objetivos foram compatíveis com a diminuição do desejo nos homens, indicando que lágrimas de emoção contém uma substância química que sinaliza desinteresse sexual.
          O significado destes resultados para as interações sociais ainda é incerto, mas Sobel e sua equipe chamam atenção para o fato de que, na cultura ocidental, é comum a exposição às lágrimas alheias em estreita proximidade, quando abraçamos alguém que chora de tristeza e respiramos profundamente com nossos narizes muito próximos às bochechas da pessoa triste. Essa é a situação ideal para a transmissão dos sinais químicos descobertos pelos cientistas israelenses e suas implicações merecem reflexão.
          E, para terminar, tal como no início desta crônica deixo-vos com outra controvérsia. Há alguns anos corre pelo mundo a crença de que elefantes choram de tristeza. Porém, muitos cientistas são céticos em relação a esta crença. É preciso, antes de mais nada, entender que manifestar tristeza e chorar de tristeza não são a mesma coisa. Nem todas as lágrimas são iguais, especialmente quando se comparam animais distintos. Mas as descobertas recentes, de que nas lágrimas há mais até do que os grandes poetas nos ensinaram através dos séculos, ressaltam a importância de examinar de forma científica, sistemática e rigorosa, os fundamentos de nossas crenças quanto às manifestações emocionais, pelo impacto que têm sobre o comportamento humano.

Rafael Linden


8 comentários:

  1. Rafael querido, me senti passeando pela filosofia das lágrimas com este texto. Super interessante.
    Um beijo

    "Entretanto, as pombas voavam de um lado para outro, pousavam-lhe nos ombros, acariciavam-lhe os brancos cabelos, e eram infatigáveis na sua ternura. E o leão lambia incessantemente as lágrimas que corriam pelas mãos de Zaratustra, rugindo e rosnando timidamente. Eis o que fizeram estes animais."

    Em: Assim Falava Zaratustra. Nietzsche

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  2. Esse livro é um dos meus favoritos das obras de Nietz, assim como A Gaia Ciência. este trecho aparece na quarta parte, quase no final e acho lindo.

    Continue carregado de inspiração!!! Bj
    Carmem

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    1. Obrigado, Carmem. Seu incentivo é muito legal.
      bjs
      R

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  3. muuuuito bacana, que leitura amabilíssima!!!

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  4. Adorei Rafofo! Sou pródiga nas ditas cujas... Então vale a pena saber de onde vem tanta água daqui de dentro. Muito legal!

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    1. Pois é, essa família chora aos montes...
      Bj
      R

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