sábado, 6 de outubro de 2012

Mistérios da Gioconda


          Há uma expectativa de que, finalmente, tenha sido encontrado o esqueleto da mulher que serviu de modelo a Leonardo da Vinci para pintar a Mona Lisa. Como cientista, faço votos de que o trabalho dos arqueólogos italianos seja bem sucedido. Mas, honestamente, não estou lá muito feliz com isso.
          O retrato, pintado no início do século XVI e também conhecido como La Gioconda, é considerado por muitos a pintura mais famosa do mundo. Rivaliza com o David de Michelangelo, e poucas outras mais, como a obra de arte mais conhecida. Há razões de ordem artística, histórica e mercadológica para esta fama. As interpretações da obra são múltiplas, conflitantes, por vezes pretensiosas e baseadas nos mais diversos critérios, que incluem desde pura especulação até análises geométricas e matemáticas destinadas a quantificar o conteúdo relativo de felicidade, angústia e tédio no sorriso da modelo. Não falta controvérsia sobre quem teria sido, de fato, a musa e já foi sugerido que poderia ser um autorretrato de Leonardo, travestido de mulher.
          Existe até um conflito político entre Itália e França em torno da obra. Autoridades da área cultural da Itália reivindicam que a Mona Lisa seja devolvida à cidade de Florença, tida como “terra natal” da pintura. Já a direção do Museu do Louvre, onde se encontra a obra vendida ao Rei de França pelo prório Leonardo, não está disposta a aceitar a devolução. A troca de farpas ajuda a promover o quadro, tornando-o ainda mais famoso. Mesmo assim, não creio que tropas estejam se posicionando na fronteira, para decidir de vez quem fica com a Gioconda e, de quebra, qual dos queijos é melhor: Gorgonzola ou Roquefort.
          Há de se admirar o profissionalismo envolvido na análise das qualidades estéticas da pintura, bem como o empenho na dissecção de sua história. No entanto, dentre as habilidades desenvolvidas pela humanidade, a arte tem a grande vantagem de nos permitir a liberdade de apreciá-la por razões íntimas. E um dos atributos mais lembrados da Mona Lisa é o mistério que cerca o quadro. Uns admiram a qualidade “misteriosa’ do sorriso, outros são sensíveis à polêmica sobre quem, de fato, seria a musa inspiradora de Leonardo. Os mais práticos torcem para que a musa se materialize de novo, desta vez à custa da competência, paciência e dedicação dos arqueólogos que, há tempos, buscam encontrar os restos mortais da misteriosa modelo.
          E o jornal noticia que um dos esqueletos encontrados recentemente nas escavações do Convento de Santa Úrsula, em Florença, é o melhor candidato a pertencer à Senhora Lisa Gherardini del Giocondo, tida como a mais provável musa de Leonardo nesta pintura. As técnicas modernas de reconstrução a partir de ossadas prometem revelar o rosto correspondente ao esqueleto e, comparando a pintura com a reconstrução, resolver de vez o misterioso paradeiro da musa. Com todo o respeito, não consigo reprimir a idéia de que haverá, então, oportunidade para algum néscio se manifestar decepcionado pela habilidade de Leonardo como retratista, em vista da extraordinária resolução das câmeras digitais modernas.
          Nem todos, no entanto, estão felizes com o andamento das escavações. O trabalho dos arqueólogos tem sofrido críticas de uma antropóloga norte-americana, ao passo que um descendente da Senhora Gherardini reclama de sacrilégio e pergunta que diferença faz encontrar ou não os restos mortais da Gioconda. De minha parte, acho que faz diferença, sim.
          Já vejo no rosto do leitor um muxoxo de “lá vem esse chato querendo que todas as dúvidas sejam sanadas por evidências científicas irrefutáveis”. Longe de mim semelhante isso. Saibam que, apesar de aguardar curioso as conclusões dos arqueólogos, tenho a sensação de que algo precioso se perderá com o sucesso da empreitada.
          Afinal, a Mona Lisa, na origem e na essência, é um retrato de mulher. E o que é uma mulher sem seus mistérios?


Rafael Linden
           
            

6 comentários:

  1. 'FACES: Faces, Art, and Computerized Evaluation Systems'
    http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2141158/So-Girl-Pearl-Earring-How-technology-created-spot-terrorists-solve-arts-greatest-mysteries.html
    - Mauricio Trambaioli

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    1. Pois é, essas tecnologias servem para muita coisa. Até para dar uma tabela de emoções contidas no sorriso de uma pintura...

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  2. Rafa
    Como sempre, vc me delicia com suas cronicas! Adoooooro! Vc me leva de volta a (pouquissimos) anos atras (uns 16?) qd me deu de presente o Visconde Partido ao Meio de Italo Calvino e me trouxe de volta ao mundo da leitura. Lembra disso?
    Por tudo isso, many thanks!
    Saudades!
    Sua filhota de sempre,
    Marcia Varella

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    1. Marcinha!!! Eu sabia que esse blog só ia me dar alegrias... Que bom te ler aqui, quando é que eu vou te ver de novo em carne e osso?
      É claro que eu lembro do Visconde e, mais que isso, do seu entusiasmo com o livro, que eu também adoro. Volte sempre ao blog e apareça por aqui, eu continuo no mesmo lugar.
      Beijo grande, saudades de você também.
      Rafael

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  3. Sensacioooonal!!!!
    Adorei o blog, a crônica e tudo mais... mil parabéns, Rafael!

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