sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Como explicar a Lua


          Dentre tantas perguntas que desafiam o engenho e a arte dos cientistas há a questão do surgimento da Lua. Não do seu nascimento diário no horizonte ao por do sol, cuja explicação se aprende na escola, mas sim, de como ela surgiu em algum momento da longa história do Universo. Admito que dificilmente um casal de namorados, em sã consciência, perguntaria tal coisa durante um passeio ao luar. Pois, acreditem, a resposta pode ser mais poética do que se pensa.
           As hipóteses elaboradas pelos astrofísicos envolvem choques de corpos celestes, explosões, evaporação de pedaços de planetas e outros cataclismos. Há várias teorias combinando tais eventos e quem sou eu para escolher uma. Mas aqui, com a liberdade que o telhado me dá, permito-me divagar sobre as últimas notícias desta saga. Agradeço, de antemão, à gentil leitora por não se incomodar com essa minha permissividade.
          A história, que foi publicada na prestigiosa revista científica Nature e traduzida para leigos na revista eletrônica do Smithsonian Institute e em muitos jornais, dá conta da descoberta de novos indícios em favor da idéia de que a Lua foi formada pela condensação de material evaporado da Terra quando, há quatro bilhões e meio de anos, nosso planeta se chocou violentamente com um asteróide do tamanho de Marte. Peraí, gente, recolham suas malas e acalmem-se. Os marcianos não chegaram – ainda. Não foi o próprio planeta vermelho, mas um planetóide desgovernado do tamanho dele. E vejam como há poesia mesmo nas empedernidas cabeças de cientistas que vivem no mundo da Lua. Deram ao tal asteróide o nome de Theia que, na mitologia grega, é a mãe de Selene, a deusa lunar. Lindo, não?
          Para quem resistiu à tentação de mergulhar num dos empoeirados volumes da Enciclopédia Britânica, no livro de Mitologia Grega que fica no alto da estante ou, no caso dos mudernos, na Wikipedia, aí vai a sinopse: o mito reza que Theia e Hyperion eram um casal de titãs, ambos filhos de Gaia (a Terra) com Urano. Theia teve, com o próprio irmão, três filhos que se tornaram os deuses do Sol, da Madrugada e da Lua, esta última chamada Selene e que, na versão romana, ganhou o nome de Luna.
          Já ouço, ao longe, um provocador a estragar a placidez com que escrevo estas linhas (muito bem traçadas, aliás, graças ao computador), reclamando que a historinha foi por água abaixo, já que a mitologia não corresponde à hipótese macabra da colisão da filha com a mãe para gerar a neta. Daquele resmungão nada posso esperar, a não ser seu comentário adicional de que a infinidade de crateras que desfiguram a face da Lua só podia mesmo ter sido o resultado de um incesto. Então, deixemos de lado as coincidências literais, que não as há, e fixemo-nos na poesia.
          Não sei vocês, mas a mim dá um certo prazer associar idéias livremente. Encerro, portanto, esta breve crônica encantado, por saber que a Ciência favorece a hipótese de que nosso romântico satélite nasceu, para a eternidade, da explosão resultante do encontro íntimo de dois corpos celestes, assim como a sublime explosão no climax do encontro íntimo de dois corpos terrenos eterniza e, por vezes, gera frutos de tantos amores inspirados à luz da Lua.

Rafael Linden


17 comentários:

  1. As above, so below.
    As below, so above.
    Mesmo as crônicas sendo dirigidas às leitoras, não consigo deixar de acompanhar estes textos tão inspiradores...
    Acho que a lua foi trazida de longe, por aqueles que na época desejavam que ela estivesse onde hoje está... Mas é mais provável mesmo que seja fruto acidental de um clímax onde forças como pressão, torque e momento angular possuem papel fundamental na transformação e criação... :p

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    1. Olá Bruno
      As crônicas não são só para leitoras. Só minhas desculpas pela permissividade, já que os leitores (leitorOs?...), em geral, não se incomodam com isso...
      :-)
      abs
      R

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  2. "Bem lá no céu uma lua existe
    Vivendo só no seu mundo triste
    O seu olhar sobre a terra lançou
    E veio procurando por amor
    Então o mar frio e sem carinho
    Também cansou de ficar sozinho
    Sentiu na pele aquele brilho tocar
    E pela lua foi se apaixonar
    ...
    Se a lenda dessa paixão
    Faz sorrir ou faz chorar
    O coração é quem sabe..."
    bjs, monica.

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  3. Como explicar?
    Como definir?
    Racionalizar!
    Nem nome eu acho a lua devia ter, mas o nome é perfeito para ela, lhe caiu bem, mas corria o risco de limitá-la e a lua é ilimitada, indefinível, indescritível.

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    1. Não é para isso que temos a poesia: expressar o indescritível?
      Ou, como aquilo sobre o que você escreveu hoje: desatar nós. Nós de pingentes, nós metafóricos e nós mesmos..
      bjs
      R

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  4. Pura poesia!!
    Como não se encantar, se apaixonar pela beleza da Lua?
    E agora saber que ela foi possivelmente gerada a partir de um tórrido encontro entre nosso planeta e um asteróide! Mais um motivo de inspiração para os casais apaixonados que se entrelaçam sob o luar.
    Belíssimo texto. Parabéns!

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    1. Obrigado, Mariante. Se olharmos com cuidado, no fundo toda Ciência é poesia.
      abs
      R

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  5. Muito inspirador, concordo plenamente Rafael querido, "Ciência é poesia" e está para nós assim como a lua está para o poeta. Ou seja, nós cientistas somos também poetas de nós mesmos.


    Cuando Salgas, Luna Llena
    Noel Nicola

    Cuando salgas, luna llena,
    ya andará con su cría mi paloma,
    la blanca de ojos rojos, la incansable.
    Cuando salgas, luna llena,
    no hagas caso del perro si te ladra,
    el muy torpe no sabe cómo amarte.
    Cuando salgas, luna llena,
    recuerda que aquí están mis compañeros.
    Dales a ellos también de tu luz, de la más clara.
    Cuando salgas, luna llena,
    haremos una fiesta en mi ventana
    y en el horno habrá un pan de tu tamaño.

    Noel Nicola (1946-2005) foi um importante cantor e compositor cubano. Foi um dos fundadores (junto com Silvio Rodriguez e Pablo Milanés)do movimento “Nueva trova cubana”, que ocorreu na década de 60 em Havana.
    http://www.youtube.com/watch?v=rRFVc6zLQU0

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    1. Lindos versos: "no hagas caso del perro si te ladra, el muy torpe no sabe cómo amarte." é maravilhoso.
      bjs
      R

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    2. É realmente maravilhoso.
      Bjs
      Carmem

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  6. Suspiros... Vou colocar aqui um verso do poeta goiano Luiz de Aquino: "Eu tenho uma leve tendência para ser feliz em noite de lua.". Esta sou eu.

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  7. Olá Rafael, eu acompanho suas obras de arte (pois pra mim, isso é saber usar as palavras para criar arte) a algum tempo, e aprecio sempre o envolvimento que tem ao produzir suas crônicas/contos de forma tão bem elaborada e tão rica em detalhes. Eu já li este post a um bom tempo, mas recentemente tive acesso a uma história fantástica que tem tudo a ver com sua crônica, quem sabe, na maior das minhas ousadias em supor, não seja referência para outra de suas obras de arte. Se tiver o interesse em ler, pois é um texto longo, recomendo! Vale a pena! (Não sei se tem facebook, pois o link é de lá) Segue o link: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=309507539168924&set=a.217137268405952.46240.203333956452950&type=1&ref=nf

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    1. Obrigado, Tailson. Olharei o link.
      Um abraço
      R

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