sábado, 20 de outubro de 2012

Camundongos cantores


          Faz tempo os biólogos estudam os mecanismos do canto nas aves. Por exemplo, o cientista Fernando Nottebohm, um argentino radicado em Nova Iorque e professor da Universidade Rockefeller fez, há muitos anos, descobertas notáveis sobre a relação entre o aprendizado do canto de pássaros e os circuitos cerebrais, bem como sobre o papel da geração de novas células nervosas em animais maduros. Mas pássaro cantar não é novidade. Já camundongo cantar é outra história.
          Um pesquisador da Universidade do Texas em Austin, chamado Steven Phelps (não, não é o nadador cheio de medalhas olímpicas, aquele é Michael, esse é outro) vem, há alguns anos, estudando um roedor que vive nas montanhas da Costa Rica e se parece com um camundongo cotó. Exatamente, caro leitor, quem se parece com um camundongo cotó não é o pesquisador, é o roedor. O tal bicho, apelidado “camundongo cantor”, emite sons reminiscentes do canto de pássaros, embora não tão elaborados, e os usa para comunicação com outros da mesma espécie. Assim, mais ou menos, como fazem compositores famosos, adolescentes apaixonados e adeptos de camping. Com variados graus de competência e de sucesso.
          Phelps, o cientista, investiga os genes responsáveis por esta habilidade, procurando entender em detalhe como certos genes conferem ao roedor a capacidade de “cantar” que constitui, de certa forma, uma linguagem. Além do interesse biológico, os resultados da pesquisa poderão, no futuro, ajudar a compreender a natureza de distúrbios da linguagem e da comunicação humanas, como os que ocorrem, por exemplo, em certos casos de autismo.
          Poderia parecer uma peculiaridade das montanhas da América Central, mas camundongo cantar já está ficando mais comum. Aconteceu no Japão. O pesquisador Takeshi Yagi...deixem-me, mais uma vez, desfazer equívocos. Não se trata, prezado nerd, do cineasta que dirigiu vários episódios da série do super-herói Ultraman, e sim de seu homônimo, professor da Universidade de Osaka. Então, como eu ia dizendo, o cientista Takeshi Yagi criou, há algum tempo, um projeto de “evolução de camundongos em laboratório”. Funciona assim: certos camundongos transgênicos são muito suscetíveis a novas mutações no seu genoma. Yagi e seus colaboradores começaram a cruzar grandes números destes camundongos e observar os efeitos na prole. Quando aparece um filhote com uma característica nova, ele é selecionado para formar uma colônia separada e passa a ser estudado pelo grupo. Em meio a um número enorme de crias, apareceu um camundongo que emite sons parecidíssimos com o chilrear de pássaros*. Os pesquisadores japoneses, então, selecionaram e expandiram a colônia, a partir de filhotes que foram nascendo sucessivamente e também “cantavam’. Depois de algum tempo, conseguiram dezenas de tais camundongos cantores e estão destrinchando a genética por trás desta característica. Yagi tem interesse, principalmente, em usar estes animais para ajudar a identificar mecanismos que possam ter levado à evolução da linguagem nos humanos.
          Eu tenho curiosidade por estudos assim, voltados para questões fundamentais sem que, necessariamente, se espere aplicações práticas imediatas. Embora possa causar estranheza e pareça estar longe das necessidades de novas tecnologias e invenções, a pesquisa básica frequentemente nos ensina muita coisa acerca do universo em que vivemos. E amiúde ilumina, inadvertidamente, o caminho para resolver, de uma vez por todas, certos problemas que nos afligem no dia-a-dia. Vejam se não é o caso.
          O estudo de Yagi (não o cineasta, o cientista...) sugere uma explicação plausível para a praga de cantores de ocasião que, há anos, assola a combalida música popular brasileira. Deve ser resultado de uma mutação parecida com aquela que subverteu os camundongos japoneses, e provavelmente ocorreu num daqueles genes que controlam o comportamento do roedor costarriquenho. Aqui do telhado, portanto, gostaria de exortar meus parcos, porém fiéis, leitores a me ajudarem na tarefa de desenvolver, a partir das pesquisas acima, um tipo qualquer de terapia genética para se contrapor ao risco de mais uma espécie esdrúxula começar, de uma hora para outra, a cantar novas preciosidades do tipo “ai, se eu te pego no tchu ou no tchan...”. Escolha, cada um, sua praga predileta e mãos à obra!

Rafael Linden

* Veja e ouça o tal camundongo em http://www.youtube.com/watch?v=yLu37VvCozw


4 comentários:

  1. Sem dúvida uma área interessante de pesquisa.

    Rafael, a referência ao autismo no seu texto foi muito procedente. Quanto à última parte - como sua fiel leitora e temerosa do que ainda pode vir em termos de “pragas” - é isso ai, mãos à obra!! :)
    Beijo

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    1. Como sempre, seu humor insuperável, me fez dar boas e sonoras gargalhadas (sonoras, mas não cantei não)... Genial seu artigo. Fiquei com muita vontade de ajudar. Assim que souber como, subo aí no telhado... O seu telhado, não o da piada, certo? Beijos,
      Tania

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    2. Seja bem-vinda. Necessitaremos de muitos para esta guerra...
      :-)

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