sábado, 15 de setembro de 2012

O prato do dia


          Uma gripe me deixou de molho em casa. Justo no dia da faxineira. Acabou meu sossego e ainda vou ter de aturar uma estranha. Nunca vi a cara da moça, que chegou há menos de um mês do interior. Foi minha mulher que entrevistou, decidiu e contratou. E, logo hoje, Adriana saiu mais cedo para o trabalho, antes da Felismina chegar.
          O porteiro avisou pelo interfone. Botei cara de dono de casa e atendi a campainha. A moça me olhou desconfiada e deu dois passos para trás.
          - Fique tranquila, minha filha, eu sou Bernardo, marido da Dona Adriana. Pode entrar.
          - Dodriãtaí?
          - Não, ela foi trabalhar. Eu fiquei em casa porque estou doente.
          - Sei não...
          - Pode entrar, garota. Eu vou ficar o dia inteiro de cama, descansando dessa maldita gripe. Quando você quiser arrumar o quarto, bata na porta que eu saio.
          - Tomtá.
          Ela foi para os fundos e eu deitei de novo, com o rádio ligado baixinho. Dava para ouvir barulho na cozinha, depois na sala de jantar, na sala de estar, no banheiro e, lá vem ela, chegando perto do quarto. Não deu outra, toc, toc.
          - Pode entrar, Felismina, já estou saindo. Vou ficar na sala enquanto você arruma.
          - Sobernaldo quéque facama?
          - Como disse?
          - A cama. Quécarrume?
          - Arrume, sim, por favor.
          - Quéchazim?
          - O que?
          - Chá, pra distrancar ospomão.
          - Ah, não, obrigado. Eu tenho meus remédios.
          - Lá na roça nóis toma chá de pranta e fica bão.
          - Er...pode deixar, muito obrigado.
          Passou mais de meia hora e nada dela terminar a arrumação. Fui ver o que estava acontecendo. Ela estava passando um esfregão no chão do quarto, indo e voltando em torno da cama e se benzendo cada vez que chegava perto da cabeceira. Não ousei perguntar. Mais uns dez minutos daquilo, ela saiu e disse que estava pronto. Voltei para a cama.
          Adormeci imediatamente e acordei com a campainha do telefone na sala. Eu não estava me sentindo bem, deixei para Felismina atender. E nada, o telefone tocando, tocando e nada dela atender. Levantei a muito custo e, quando cheguei na sala, parou de tocar. Perguntei por que ela não atendeu.
          - Numtem ficha, patrão.
          Desta vez faltou-me força para explicar como funciona o telefone lá de casa. De novo voltei para o quarto, ainda a tempo de ouvi-la.
          - Piatupiu!
          Custei um pouco, mas percebi que não era nenhuma ofensa à minha pessoa.
          - Liga para o porteiro e pede um desentupidor.
          - Numtem ficha.
          - Liga pelo interfone.
          - Cuma??!
          - Deixa que eu ligo.
          Problema resolvido, voltei para a cama. Recusei polidamente o “armocim” que ela me ofereceu. O que eu queria era dormir.
          Nas horas seguintes fui acordado de meu estado semicomatoso várias vezes e, em nenhuma delas, consegui entender bulhufas do que Felismina gritava lá de longe. Da primeira vez, me pareceu que havia algum problema com o “travo do polichinelo”, depois com a “praca do parador” e, mais tarde, com o “parafuso distante”. A cada vez eu levantava, ela apontava e eu advinhava. Se Adriana tivesse contratado uma faxineira húngara daria no mesmo. Quando ela me chamou pela quarta vez, gritei do quarto.
          - Deixe que depois eu vejo isso!
          Na verdade, eu não queria saber. Não tendo barulho de água jorrando nem sinal de incêndio, por mim o mundo podia se acabar em pudim que eu não ia levantar daquela cama nem a pau.
          Enfim, Felismina se despediu com uma longa frase cheia de informações domésticas, creio eu, e a paz voltou a reinar no meu sacrossanto lar.
          Lá pelas oito da noite, finalmente, Adriana chegou do trabalho. Exausta, passou direto por mim e só reapareceu depois de um demorado banho. Me deu um beijo e fez um interrogatório completo sobre meu estado de saúde, enquanto afagava meu cabelo com ar maternal. Então, perguntou pelo jantar. Respondi que teríamos de pedir uma pizza. Surpresa, ela foi até a cozinha e voltou de lá com um copo d’água e cara de interrogação.
          - Que história é essa? O jantar está pronto em cima do fogão, a Felismina fez direitinho o que eu pedi.
          Foi minha vez de arregalar os olhos.
          - Pois eu ouvi ela dizer que a comida tinha estragado!
          - Como assim?
          - Pouco antes de ir embora ela gritou, lá de dentro, que o brequedeque de tomate tinha queimado.
          Minha mulher só parou de rir dois dias depois, quando conseguiu um tempinho para passar numa loja e comprar um novo ferro de passar. Black and Decker. Automático.



Rafael Linden




8 comentários:

  1. Muito bom!!!!!
    O melhor foi o brequedeque de tomate. Confesso que antes de ler o final tentei adivinhar (sem sucesso) o que era.
    Espalhei o texto por ai.
    Bj

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    1. Obrigado, Carmem. Estou pensando em criar um prato com esse nome, para algum concurso de culinária...
      :-)

      beijo
      R

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    2. :))) Muito original, fico curiosa para saber os ingredientes... além do tomate...

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    3. Você será a primeira a saber.
      :-)

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  2. Olá Rafael.
    Adorei o texto.
    Postagem divulgada no Portal de blogs Teia.
    Até mais

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  3. Shirley Tenenbaum da Silva1 de fevereiro de 2013 22:07

    Excelente texto!!!!!Adorei!!!Se me você permite, usarei essa crônica em sala de aula e trabalhar com os alunos. Abraços

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    1. Claro, Shirley!
      Use à vontade, fico feliz que você ache útil em sala de aula.
      Beijos
      Rafael

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